google.com, pub-2061508496645724, DIRECT, f08c47fec0942fa0

... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Meu Diário
19/10/2026 16h23
Não terminei de me tornar...

Gosto de me ver assim... descalça, com um pedaço da barriga aparecendo, à vontade diante da câmera. Durante muito tempo, uma mulher aprende a olhar a própria fotografia procurando o que deveria esconder. Conhece seus supostos defeitos com uma precisão que raramente dedica aos próprios desejos.

 

Eu também aprendi. Esse olhar não desaparece só porque compreendemos de onde ele veio. Às vezes, preciso me perguntar se há realmente alguma coisa me incomodando ou se estou apenas repetindo uma cobrança antiga.

 

Hoje quis vestir essa roupa, passar esse batom, tirar essas fotos. Há prazer nisso. E quero poder vivê-lo sem transformar meu corpo numa tarefa interminável, sempre dependendo de algum ajuste para merecer aparecer.

 

Reconheço a mulher dessas imagens, embora ainda esteja descobrindo o que ela quer fazer da vida. Tenho idade, história, contradições e desejos que não se acomodaram com o passar dos anos. Algumas vontades, inclusive, só agora consigo admitir.

 

Olho para mim e gosto. Amanhã talvez me olhe com mais dificuldade. Ainda assim, quero sair, escolher uma roupa, ocupar meu dia. Tenho coisas para viver enquanto aprendo a me pertencer.


Publicado por Monet Carmo em 19/10/2026 às 16h23
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
10/10/2026 13h37
O primeiro Círio de Nsra de Nazaré, sem minha Maria de Lourdes...

Mãe, este é o primeiro Círio sem ti. Eu vejo a imagem de Nossa Senhora com o filho nos braços e fico olhando mais do que consigo rezar. Este ano, ser filha está doendo de um jeito que eu ainda não sei explicar.

 

Desde que tu foste embora, tenho vivido as primeiras tantas coisas sem ti. O primeiro Dia das Mães, o teu aniversário, agora o Círio... E os dias comuns, que ninguém marca no calendário, mas que também me pegam desprevenida. A vontade de te contar alguma coisa. Uma lembrança que aparece no meio do trabalho. Aquele instante em que eu esqueço, por uma fração de segundo, e penso em te procurar. Depois lembro. E preciso continuar o que estava fazendo.

 

Tenho continuado, mãe. Resolvo problemas, converso, trabalho, faço planos. Quem me vê fazendo tudo isso talvez não perceba o esforço que alguns dias exigem. Às vezes, nem eu tenho paciência com a minha própria dor. Cobro de mim uma disposição que não tenho, respondo de forma seca, me afasto. Depois fico em silêncio, tentando entender o que aconteceu comigo.

 

Eu me tornei mais dura. Descrente de muita coisa, fria em situações nas quais antes eu me envolveria inteira. Fiquei distante de tanta gente... Algumas pessoas talvez pensem que deixei de me importar. Eu mesma me pergunto isso. Há dias em que não quero explicar nada, receber conselho, responder mensagem ou fazer o esforço de parecer bem para deixar alguém confortável.

 

Também tenho menos tolerância para presença pela metade. Para quem pergunta como estou e não tem tempo de ouvir. Para certas cobranças, certas conversas que antes eu sustentava por educação. A tua ausência mexeu até com a forma como eu permito que as pessoas se aproximem. E eu não vou fingir que gosto de tudo em que me transformei. Sinto falta da minha leveza. Sinto falta de conseguir confiar sem ficar esperando a próxima decepção.

 

Neste Círio, a fé também vem atravessada. Olho para Nossa Senhora e quero pedir alguma coisa, mas a saudade ocupa tanto espaço que me faltam palavras. Tem tristeza, tem revolta, tem uma vontade quase infantil de pedir pela minha mãe, mesmo sabendo que tu não vais voltar. Não consigo tornar isso bonito. Eu queria que tu estivesses aqui.

 

Ainda haverá outras primeiras vezes. Já penso no primeiro Natal sem ti e tenho vontade de não chegar lá tão depressa. As datas continuam vindo, e eu preciso aprender a estar nelas com essa falta. Ninguém pode fazer essa parte por mim.

 

Por enquanto, mãe, é assim que eu estou. Mais calada, mais difícil de alcançar, tentando dar conta da vida enquanto sinto a tua falta. Neste primeiro Círio sem ti, eu nem sei direito o que pedir a Nossa Senhora. Só queria poder te chamar e ouvir tua resposta mais uma vez.


Publicado por Monet Carmo em 10/10/2026 às 13h37
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
26/09/2026 23h38
Liberdade não é ausência de vínculo. É ausência de prisão.

Liberdade não é ausência de vínculo. É ausência de prisão.

 

Na não monogamia, o que me interessa não é a quantidade de pessoas, mas a qualidade da escolha. Estar com alguém porque quero, não porque fui cercada por um contrato silencioso de posse. Poder desejar sem transformar desejo em culpa. Poder amar sem transformar amor em vigilância.

 

Talvez a parte mais difícil seja essa: aceitar que o outro não é nosso.

 

Nunca foi.

 

A exclusividade pode ser uma escolha legítima, bonita, inteira. Mas só quando nasce de vontade, não de medo. E a não monogamia também só faz sentido quando existe honestidade suficiente para suportar a liberdade do outro, não apenas a própria.

 

Liberdade afetiva não é fazer o que se quer sem consequência.

 

É saber exatamente o que se quer, dizer isso com clareza e ter maturidade para ouvir que o outro também é livre.


Publicado por Monet Carmo em 26/09/2026 às 23h38
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
25/09/2026 21h41
Olhar

Há olhares que elogiam… e há olhares que despem devagar.

Não da roupa… da pose.

 

Do controle.

Da parte de nós que tenta parecer intocável.

 

Talvez o que eu desperte não seja só desejo…

Talvez seja essa vontade de chegar perto do que eu escondo tão bem.

 

E, sinceramente… poucas coisas são tão perigosas quanto alguém que sente curiosidade pelo meu mistério.


Publicado por Monet Carmo em 25/09/2026 às 21h41
 



Página 1 de 194 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 » próxima»

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras