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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


BABYGIRL: QUANDO O PODER SE DESPE E O DESEJO ASSUME O COMANDO

 

Uma reflexão sobre sexualidade feminina, hierarquia, transgressão e as contradições de quem aprendeu a controlar tudo, menos aquilo que deseja.

 

Assisti a Babygirl e terminei o filme pensando numa contradição que há muito me interessa, por que ainda temos tanta dificuldade em compreender que uma mulher pode exercer autoridade absoluta no mundo profissional e, na intimidade, desejar justamente o contrário?

 

Dirigido por Halina Reijn, o filme apresenta Romy, interpretada por Nicole Kidman, uma executiva bem-sucedida, casada, mãe e ocupante de uma posição de poder que muitas mulheres passaram gerações tentando alcançar... Romy tem dinheiro, reconhecimento, estabilidade familiar e autoridade. Sua vida parece cuidadosamente organizada. Entretanto, existe uma dimensão de sua sexualidade que permanece insatisfeita, não necessariamente pela ausência de amor, mas pela dificuldade de reconhecer e comunicar aquilo que verdadeiramente deseja.

 

É nesse cenário que surge Samuel, um jovem estagiário interpretado por Harris Dickinson, cuja presença desestabiliza a aparente harmonia daquela existência... 

 

O que poderia ser apenas mais uma história sobre infidelidade transforma-se numa investigação sobre poder, vergonha, fantasia e liberdade sexual.

 

E aí que o filme se torna interessante... Romy comanda uma empresa, mas encontra prazer em obedecer. Decide sobre o trabalho de outras pessoas, mas deseja experimentar a entrega. Possui autoridade institucional, mas descobre que sua posição hierárquica não lhe garante o domínio sobre os próprios impulsos.

 

Não vejo nisso qualquer contradição com sua capacidade de liderança... A submissão erótica consensual não representa incapacidade, fragilidade profissional ou inferioridade feminina. Pode constituir uma escolha consciente, uma experiência de prazer e uma maneira particular de expressar a sexualidade.

 

O problema começa quando confundimos fantasia com ausência de limites.

 

E Babygirl oferece uma questão ética que considero ainda mais provocadora do que suas cenas íntimas...  Romy não é apenas uma mulher experimentando desejos. É uma executiva que se envolve sexualmente com alguém situado numa posição inferior à sua estrutura organizacional.

 

Há uma assimetria de poder que não desaparece quando a porta do quarto se fecha... Do ponto de vista da governança, essa relação envolve conflitos de interesses, riscos profissionais, possíveis consequências para terceiros e responsabilidades que ultrapassam a vontade individual dos envolvidos.

 

É impossível ignorar esse aspecto? A liberdade sexual de uma mulher merece o mesmo respeito concedido à de um homem. Entretanto, liberdade não significa imunidade às consequências das próprias decisões.

 

E aqui está uma das qualidades do filme... ele nos permite compreender a protagonista sem exigir que justifiquemos todas as suas escolhas.

 

Penso em Georges Bataille e na maneira como ele relaciona erotismo, interdito e transgressão... Para Bataille, a transgressão não pode ser compreendida simplesmente como a destruição de uma regra. Ela existe numa relação permanente com aquilo que a sociedade estabelece como proibido.

 

Romy não deseja apenas um homem mais jovem. Ela experimenta a tensão entre sua identidade social, os limites que reconhece e uma dimensão do desejo que durante muito tempo manteve escondida.

 

Há algo profundamente humano nessa experiência.

 

Também encontro ecos de Freud, especialmente quando pensamos nos conflitos entre desejo, repressão e as exigências da vida civilizada. Não como uma explicação clínica da personagem, mas como uma possibilidade de leitura.

 

Afinal, quantas pessoas constroem uma existência admirável aos olhos dos outros enquanto mantêm uma relação profundamente conflituosa com suas necessidades mais íntimas?

 

Outro aspecto que me chamou atenção foi a atuação de Nicole Kidman... Sua Romy não é uma mulher permanentemente segura, tampouco uma personagem construída apenas para despertar fantasias. Ela oscila entre constrangimento, curiosidade, culpa, prazer e medo.

 

Essa oscilação a torna interessante.

 

O filme também utiliza muito bem os silêncios, a linguagem corporal e pequenos gestos de obediência. Em determinadas cenas, a tensão erótica é construída quase inteiramente pela expectativa. O desejo deixa de depender da nudez e passa a existir no terreno da imaginação.

 

Há, entretanto, aspectos que merecem crítica...

 

A relação entre Romy e Samuel nem sempre apresenta a comunicação, a clareza de limites e a negociação que seriam desejáveis numa experiência de dominação e submissão consensual. Além disso, algumas consequências profissionais e familiares acabam recebendo tratamento menos profundo do que a complexidade moral da história permitiria.

 

Também considero arriscada uma leitura que transforme toda experiência de submissão numa consequência inevitável de uma vida profissional marcada pelo excesso de controle.

 

Nem toda mulher poderosa deseja ser dominada. Nem toda pessoa que ocupa posições de comando busca compensações sexuais. A sexualidade humana é muito mais complexa do que essas associações simplificadas.

 

E acho que é essa a principal reflexão que levo do filme...

 

Durante muito tempo, a liberdade feminina foi confundida com a capacidade de desempenhar os mesmos papéis tradicionalmente reservados aos homens... Conquistar autoridade, independência financeira, prestígio e autonomia tornou-se parte indispensável da nossa emancipação.

 

Mas a liberdade também precisa incluir o direito de reconhecer desejos que não correspondam à imagem social que construímos... Uma executiva não precisa levar a presidência da empresa para dentro da cama.

 

Da mesma maneira, uma mulher que encontra prazer na entrega não precisa justificar sua sexualidade como se estivesse comprometendo sua autonomia.

 

O desejo não obedece necessariamente às nossas convicções políticas, aos nossos títulos profissionais ou à imagem respeitável que apresentamos ao mundo.

 

Mas nossas escolhas continuam exigindo responsabilidade... É nessa fronteira que Babygirl encontra sua força e também suas limitações!

 

O filme provoca uma discussão necessária sobre a sexualidade de mulheres maduras, frequentemente tratadas pelo cinema como personagens cuja vida erótica deveria desaparecer com o envelhecimento.

 

Romy contraria essa expectativa... Ela deseja. Fantasia. Erra. Experimenta vergonha. Busca compreender o próprio corpo. E permanece uma mulher complexa, cuja existência não pode ser resumida à maneira como vive o sexo. Talvez eu esperasse uma abordagem ainda mais profunda sobre as consequências emocionais e organizacionais daquela relação. Mas reconheço o mérito de uma obra que não transforma o desejo feminino numa simples questão de virtude ou pecado.

 

Ao final, fiquei pensando que nosso maior conflito não esteja entre dominar e ser dominado....Está entre aquilo que somos, aquilo que desejamos e aquilo que conseguimos admitir sobre nós mesmos.

 

Porque ocupar uma posição de poder não significa conhecer a própria intimidade. Ter independência financeira não assegura liberdade emocional... E experimentar prazer não nos dispensa da responsabilidade sobre os efeitos de nossas escolhas.

 

Babygirl não me parece uma celebração da infidelidade, tampouco um manual sobre submissão sexual... Vejo nele uma provocação sobre os limites da identidade que construímos para sobreviver socialmente e sobre aquilo que acontece quando o desejo ameaça essa construção.

 

E deixo uma pergunta que considero muito mais interessante do que qualquer julgamento moral sobre Romy...

 

De que vale conquistar o direito de comandar o mundo se continuamos incapazes de reconhecer, sem vergonha, aquilo que desejamos de nós mesmos?

 

Talvez a maturidade comece quando compreendemos que poder e vulnerabilidade podem habitar o mesmo corpo. E que nenhuma das duas experiências, isoladamente, define quem somos.

 

Referências para contextualização crítica

 

- REIJN, Halina. Babygirl. Estados Unidos, A24, 2024. Roteiro e direção de Halina Reijn.

- BATAILLE, Georges. O Erotismo. Obra filosófica sobre interdito, desejo e transgressão.

- FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. 1930. Reflexões psicanalíticas sobre os conflitos entre pulsões individuais e exigências sociais.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 07/11/2026
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