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O SEXO NÃO PAGA BOLETOS, MAS OS BOLETOS DORMEM NA CAMA.Sobre desejo, poder, dinheiro e as contradições de quem aprendeu a administrar tudo, menos a si mesmo.
Há uma coisa que sempre me intrigou no comportamento humano: a facilidade com que algumas pessoas administram empresas, movimentam fortunas, comandam equipes e resolvem problemas complexos, mas tropeçam miseravelmente quando precisam compreender os próprios desejos.
Conheci gente capaz de negociar contratos milionários e absolutamente incapaz de dizer o que precisava receber de um abraço.
Talvez porque nos tenham ensinado a construir carreiras, acumular patrimônio e demonstrar competência, mas quase nunca a reconhecer o que acontece dentro de nós quando deixamos de ser admirados.
E isso tem muito mais relação com a sexualidade do que costumamos admitir.
Não estou falando da quantidade de relações sexuais, do tamanho do desejo ou da variedade das experiências. Essa contabilidade sempre me pareceu uma maneira bastante pobre de compreender o prazer.
Estou falando da relação que estabelecemos com o reconhecimento, o controle, a frustração, a entrega e, principalmente, com a necessidade de nos sentirmos desejados.
Um homem pode passar o dia inteiro exercendo autoridade, decidindo o destino de milhões de reais, exigindo resultados e sustentando uma imagem de absoluta segurança. Ao chegar em casa, talvez encontre prazer justamente em não precisar decidir mais nada.
E não vejo contradição alguma nisso.
Uma mulher pode ocupar posições de liderança, enfrentar ambientes profissionais predominantemente masculinos, negociar com firmeza e, na intimidade, descobrir que abandonar voluntariamente o controle é uma das experiências mais libertadoras que conhece.
Isso não diminui sua autoridade.
O curioso é que ainda tentamos interpretar a sexualidade como se ela precisasse obedecer ao organograma da empresa.
O diretor precisa dominar. A executiva precisa ser forte. O homem bem-sucedido precisa performar. A mulher independente precisa ser autossuficiente.
Que cansaço!
Imagino o trabalho que deve dar carregar um cargo até para dentro da cama.
Freud, com todas as críticas que sua obra merece, trouxe uma reflexão interessante por meio do conceito de sublimação: determinados impulsos podem encontrar expressão em atividades intelectuais, artísticas e socialmente valorizadas.
É uma formulação da teoria psicanalítica, não uma fórmula científica para transformar desejo sexual em patrimônio.
Mas gosto da provocação.
Afinal, quanto da nossa necessidade de conquistar profissionalmente também está relacionado ao desejo de reconhecimento? Quanto da ambição nasce de uma vocação legítima e quanto responde à necessidade de provar alguma coisa a alguém?
Não acredito que toda ambição esconda uma carência. Seria uma generalização infantil.
Entretanto, também não acredito que nossa vida profissional esteja completamente separada da maneira como construímos nossa autoestima.
E a ciência oferece algumas pistas interessantes.
Uma pesquisa conduzida por Keith Leavitt e colaboradores, publicada no Journal of Management, acompanhou 159 trabalhadores casados durante duas semanas. Os participantes que relataram atividade sexual apresentaram, no dia seguinte, melhor humor, maior envolvimento com o trabalho e maior satisfação profissional.
O estudo também observou o movimento contrário: o estresse gerado pelo conflito entre trabalho e vida familiar estava associado a uma menor probabilidade de atividade sexual naquela noite.
Não significa que fazer sexo garanta uma promoção. Muito menos que alguém precise manter uma vida sexual ativa para ser profissionalmente competente.
Significa que aquilo que vivemos fora do trabalho pode alcançar nossa disposição emocional dentro dele.
E o inverso também acontece.
Quem nunca chegou em casa carregando problemas que deveriam ter ficado no escritório?
Uma cobrança injusta, uma dívida, a ameaça de perder o emprego, a pressão por resultados, um contrato que não fecha, a sensação permanente de insuficiência.
O corpo chega. A cabeça continua trabalhando.
E o desejo, quando aparece, encontra uma pessoa que talvez esteja mais preocupada em sobreviver ao mês do que em desfrutar da própria intimidade.
É aqui que entra o dinheiro.
Em outra pesquisa, publicada no Journal of Sex Research, pesquisadores acompanharam 1.205 casais recém-casados nos Estados Unidos. Encontraram associações entre a maneira como os casais administravam suas finanças e mudanças na satisfação sexual, principalmente por meio da satisfação com o casamento.
A relação mostrou-se complexa, sem aquela causalidade simples que tanto agrada aos vendedores de fórmulas para uma vida perfeita.
O dinheiro não compra automaticamente uma vida sexual satisfatória. A falta dele, por outro lado, pode introduzir tensões que comprometem a convivência, a segurança emocional e a disponibilidade para a intimidade.
E aqui faço uma provocação.
Será que algumas pessoas buscam no desempenho sexual a validação que não encontram na vida profissional? E será que outras procuram no sucesso financeiro o reconhecimento que lhes falta nas relações?
Não tenho uma resposta universal. Desconfio, inclusive, de quem tem.
Em 2004, os economistas David Blanchflower e Andrew Oswald publicaram um estudo sobre dinheiro, sexo e felicidade, utilizando informações de aproximadamente 16 mil adultos norte-americanos. Entre os resultados, encontraram que rendimentos maiores não estavam associados a uma frequência sexual maior ou a mais parceiros.
É uma constatação interessante para uma sociedade que frequentemente apresenta riqueza, poder e conquista sexual como se fossem manifestações de uma mesma superioridade.
Talvez a conta seja bem menos glamourosa.
Uma pessoa pode ganhar muito dinheiro e viver uma profunda insatisfação afetiva. Outra pode ter uma vida financeira modesta e experimentar relações de grande qualidade.
E ambas podem estar perfeitamente satisfeitas com a própria sexualidade, independentemente da frequência com que fazem sexo.
Aliás, Amy Muise e seus colaboradores, numa investigação envolvendo mais de 30 mil participantes, encontraram uma associação entre frequência sexual e bem-estar que deixava de aumentar acima de aproximadamente uma vez por semana entre pessoas em relacionamentos.
Não se trata de uma frequência ideal. O resultado apenas questiona a crença de que mais sexo significa necessariamente mais felicidade.
Talvez tenhamos transformado até o prazer numa competição.
Precisamos ganhar mais, produzir mais, conquistar mais, desejar mais, experimentar mais.
Uma espécie de produtividade sexual.
Como se o orgasmo também precisasse apresentar indicadores de desempenho.
Mas volto à minha inquietação inicial.
O que realmente me interessa é compreender como lidamos com nossas necessidades de reconhecimento.
O profissional que depende exclusivamente dos aplausos pode sofrer profundamente quando deixa de ser admirado. Quem precisa constantemente conquistar alguém talvez encontre dificuldade em perceber o próprio valor quando não está sendo desejado.
São possibilidades humanas, não diagnósticos.
A mesma pessoa que demonstra maturidade diante de um orçamento pode ser emocionalmente impulsiva. E alguém que vive uma sexualidade intensa, livre e pouco convencional pode ter uma vida profissional absolutamente disciplinada.
Não existe um perfil sexual capaz de determinar caráter, inteligência, competência ou capacidade de liderança.
Há, entretanto, uma questão que considero decisiva: o que fazemos com nossos impulsos quando eles entram em conflito com nossos objetivos?
A maneira como administramos frustrações, reconhecemos limites, respeitamos escolhas e assumimos responsabilidades atravessa diferentes dimensões da nossa existência.
Na gestão, chamamos isso de maturidade, responsabilidade e capacidade de decisão.
Na intimidade, talvez possamos chamar de consciência.
E consciência exige algo que dinheiro nenhum consegue comprar por nós: disposição para reconhecer quem somos, inclusive nas partes que preferimos esconder.
Aos poucos, fui compreendendo que liberdade sexual não é obrigação de experimentar tudo. Independência financeira não é ausência de necessidades afetivas. Sucesso profissional também não é certificado de equilíbrio emocional.
Cada uma dessas dimensões pode existir sem as demais.
A vida fica mais interessante quando deixam de competir entre si.
Não me interessa romantizar o sofrimento, transformar carência em explicação para tudo ou dizer que o desejo é uma força mística capaz de atrair riqueza.
Prefiro uma interpretação menos espetacular e muito mais humana.
Somos atravessados pelo trabalho que realizamos, pelo dinheiro que temos ou nos falta, pelas relações que construímos, pelas experiências que vivemos e pelas expectativas que depositamos em nós mesmos.
Não deixamos de ser quem somos quando fechamos a porta do escritório.
Tampouco abandonamos nossas preocupações financeiras quando apagamos a luz do quarto.
O corpo participa da nossa história inteira.
E talvez a verdadeira maturidade esteja em compreender que nem toda necessidade de ser desejado precisa se transformar em conquista, nem toda ambição precisa terminar em poder, nem todo prazer precisa servir a alguma finalidade produtiva.
Há prazeres que merecem existir simplesmente porque são prazeres.
Assim como há momentos em que não precisamos provar competência, força, beleza ou independência a absolutamente ninguém.
É curioso.
Passamos boa parte da vida aprendendo a administrar recursos, investimentos, contratos e resultados.
Mas continuamos tratando nossas necessidades emocionais como despesas que não queremos reconhecer.
E elas acabam aparecendo.
Na ansiedade, na exaustão, nas relações, nas escolhas, nos silêncios.
Às vezes, até na conta bancária.
Talvez por isso eu tenha chegado a uma conclusão que não cabe muito bem nos manuais de administração:
O sexo não paga boletos. O dinheiro não resolve todas as carências. E o sucesso profissional não nos absolve da responsabilidade de conhecer a nós mesmos.
Mas quem compreende a relação entre essas três dimensões talvez consiga uma conquista muito mais difícil do que acumular patrimônio.
Viver sem precisar transformar a própria existência numa permanente demonstração de valor.
Fundamentação 1. Sexualidade e satisfação profissional LEAVITT, Keith et al. From the Bedroom to the Office: Workplace Spillover Effects of Sexual Activity at Home. Journal of Management, v. 45, n. 3, p. 1173–1192, 2019. Publicado online em 2017. https://doi.org/10.1177/0149206317698022
2. Administração financeira e satisfação sexual SAXEY, Matthew T. et al. Which Came First, the Money or the Sex? Bidirectional, Indirect Associations between Financial Management Behaviors and Sexual Satisfaction among Newlywed Couples. Journal of Sex Research, v. 61, n. 2, p. 285–298, 2024. https://doi.org/10.1080/00224499.2023.2206818
3. Renda, sexualidade e felicidade BLANCHFLOWER, David G.; OSWALD, Andrew J. Money, Sex and Happiness: An Empirical Study. Scandinavian Journal of Economics, v. 106, n. 3, p. 393–415, 2004. https://doi.org/10.1111/j.1467-9442.2004.00369.x
4. Frequência sexual e bem-estar MUISE, Amy; SCHIMMACK, Ulrich; IMPETT, Emily A. Sexual Frequency Predicts Greater Well-Being, But More is Not Always Better. Social Psychological and Personality Science, v. 7, n. 4, p. 295–302, 2016. https://doi.org/10.1177/1948550615616462
5. Sublimação e psicanálise AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. APA Dictionary of Psychology: Sublimation. Definição do conceito na teoria psicanalítica clássica. https://dictionary.apa.org/sublimation Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 06/11/2026
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