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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O que os olhos não conseguem saber de mim

 

Sei que desperto olhares. Alguns curiosos, outros desconfiados. Há os que me admiram, os que tentam me compreender e aqueles que, por alguma razão, parecem incomodados com a maneira como penso, pergunto e me movimento pela vida...

 

Eu também sou curiosa, muito!. Talvez até demais para os padrões de quem prefere aceitar as coisas como são.

 

Minha cabeça dificilmente descansa nunca para... Observo detalhes, percebo mudanças de comportamento, encontro relações onde aparentemente não existe nenhuma. Faço perguntas que nem sempre agradam. Tenho essa necessidade quase física de entender o que está por trás das palavras, das decisões e, principalmente, das pessoas.

 

As altas habilidades e a superdotação fazem parte de mim, mas não explicam tudo o que sou. Existe muito de vivência nessa mulher. Muito estudo, trabalho, responsabilidade, erros que precisei reconhecer e decisões que ninguém poderia tomar por mim.

 

Sou uma profissional que aprendeu a sustentar suas opiniões, mas continuo sendo aquela menina que sente uma alegria quase infantil quando descobre alguma coisa nova. Que se entusiasma com uma ideia, que inventa possibilidades, que ri de bobagens e que, mesmo depois de algumas decepções, ainda acredita que vale a pena conhecer pessoas.

 

Talvez seja essa mistura que cause tanta estranheza.

 

Posso discutir um contrato complexo pela manhã, questionar uma decisão técnica à tarde e, algumas horas depois, estar encantada com uma música, uma conversa inteligente ou algum pensamento aparentemente sem importância.

 

Tenho coragem, sim. Mas seria injusto comigo mesma dizer que nunca sinto medo. Sinto. Às vezes muito. Só que minha curiosidade costuma ser maior. Quero saber o que existe depois, como funciona, por que aconteceu, o que posso aprender e até onde sou capaz de chegar.

 

Também tenho minhas inseguranças. Nem sempre consigo traduzir a velocidade dos meus pensamentos. Há dias em que tudo parece intenso demais, inclusive aquilo que sinto. E nem sempre quero explicar. Às vezes só quero ser uma mulher comum, sem precisar demonstrar competência, justificar minha sensibilidade ou transformar cada inquietação em alguma coisa produtiva.

 

Quanto aos olhares que me lançam, já não tenho tanta pressa de interpretá-los.

 

Sei que algumas pessoas enxergam arrogância onde há convicção. Outras confundem espontaneidade com ingenuidade. Há quem veja uma mulher forte e suponha que ela não precise de cuidado. E há quem encontre minha parte menina e imagine que pode subestimar a mulher que a acompanha.

 

Não me ofendo tanto quanto antes. Tenho procurado compreender, inclusive, que nem todo olhar traz um julgamento. Alguns são apenas curiosidade, exatamente como os meus.

 

Aos quase cinquenta, ainda me surpreendo comigo. Com minhas vontades, meus interesses, minha capacidade de começar de novo e com essa coragem que, de vez em quando, parece não ter combinado nada com o bom senso.

 

E gosto disso.

 

Gosto de saber que a vida não me tornou previsível. Que a experiência não levou embora minha ousadia. Que a mulher responsável, técnica e exigente continua dividindo espaço com uma menina que faz perguntas demais, sonha acordada e ainda sente vontade de descobrir o mundo.

 

Talvez quem me observa procure definir quem sou. Eu, que vivo aqui dentro, ainda estou descobrindo. E essa é uma das partes mais interessantes de estar viva.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 01/11/2026
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