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Terça-feira, e a ética ficou para depois...Tem uma hora em que a notícia deixa de ser sobre o político na televisão e passa a ser sobre a pessoa que está comentando a notícia ao nosso lado.
Foi nisso que fiquei pensando nesta terça-feira.
A gente acompanha os acontecimentos, escuta as justificativas, tenta separar informação de boato. Então abre uma rede social e encontra alguém que admirava defendendo justamente aquilo que, em qualquer outra circunstância, condenaria. Lê de novo. Às vezes, ainda procura uma explicação mais generosa. Talvez tenha se expressado mal. Talvez não tenha entendido.
Até perceber que entendeu, sim. Apenas resolveu abrir uma exceção.
É uma decepção particular essa que sentimos por gente que considerávamos lúcida. Não espero concordância política de todas as pessoas que respeito. Gosto de uma boa divergência, daquelas que obrigam a gente a estudar e até rever uma certeza. O que me cansa é descobrir que uma conversa inteira sobre ética dependia de quem seria cobrado no final.
Conheço a importância dos procedimentos, dos registros, da responsabilidade de quem decide. Na gestão, uma assinatura pode comprometer dinheiro público, a segurança de uma equipe, a continuidade de um serviço. Por isso me incomoda tanto ver palavras como integridade e governança sendo usadas com desenvoltura por quem, diante do próprio grupo político, perde subitamente o rigor.
Pai d’égua esse rigor que funciona tão bem para fiscalizar os outros.
Também preciso vigiar o meu. Votei em Lula e quero ter condições de cobrar seu governo sem fazer rodeios. Quero serviço público que funcione, infraestrutura planejada, responsabilidade com os recursos e respeito por quem trabalha. Meu voto não me obriga a justificar um erro. Pelo contrário: há uma cobrança que nasce justamente da confiança que depositei.
E quero poder reconhecer uma decisão correta de alguém em quem não votei. Caso contrário, vou passar a vida pedindo honestidade aos outros enquanto negocio a minha por conveniência.
Talvez seja aí que comece uma discussão séria sobre o futuro do Brasil. Antes dos grandes pronunciamentos, no pequeno desconforto de admitir... que dessa vez, quem eu apoio precisa explicar o que fez.
Ainda precisamos aprender a cobrar explicações sem antecipar condenações. A defender o direito de alguém se defender sem transformar essa pessoa em intocável. Parece básico, mas basta surgir um nome conhecido na notícia para a conversa perder qualquer medida.
Enquanto isso, a vida continua exigindo coisas muito concretas. A água precisa chegar à torneira. A obra precisa ter utilidade e manutenção. Uma mãe precisa encontrar atendimento para o filho. Quem administra uma cidade não pode gastar toda a energia na próxima disputa e deixar a população vivendo de improviso.
É desse Brasil que eu quero falar quando falo de política. E é por ele que certas decepções pesam. Porque a tolerância seletiva de hoje ajuda a autorizar o abuso de amanhã.
Não quero chegar ao ponto de achar todo mundo igual. Essa desistência entrega espaço demais a quem conta com o nosso cansaço. Prefiro rever minhas admirações, escolher melhor em quem confio e continuar prestando atenção.
Nesta terça-feira, algumas pessoas perderam um pouco do tamanho que tinham para mim.
Vou precisar de um tempo para aceitar isso. Mas não vou inventar uma desculpa para devolvê-las ao lugar. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 27/10/2026
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