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O DEMÔNIO QUE APRENDI A ACOLHER
Passei parte da vida tentando ser luz. Dessas que iluminam os outros mesmo quando, por dentro, já não encontram o próprio caminho.
Escondi minhas raivas, dei nomes mais bonitos aos meus medos, chamei de maturidade certos silêncios que, no fundo, eram apenas dores sem coragem de sair.
Quis ser inteira negando justamente as partes que me faziam humana.
Até compreender que também sou feita de abismos.
Há uma mulher em mim que ama com delicadeza, mas que conhece o gosto amargo da revolta. Que sabe perdoar, mas não esquece facilmente. Que deseja ser tocada e, às vezes, teme ser compreendida.
Há outra, menos comportada, que pensa o que não diz, deseja o que não convém, questiona suas próprias virtudes e já não sente necessidade de parecer inocente.
Durante muito tempo, coloquei as duas em lados opostos.
Uma merecia meu orgulho. A outra, meu julgamento.
Foi preciso viver bastante para entender o que Jung reconheceu na natureza humana: aquilo que recusamos em nós não desaparece porque fechamos os olhos.
Continua ali. Respirando no escuro. Esperando ser reconhecido.
Hoje, quando minhas sombras se aproximam, já não procuro imediatamente expulsá-las.
Pergunto de onde vêm. O que protegem. Que parte da minha história ainda insiste em sangrar por suas mãos.
Nem sempre gosto das respostas.
Descobri egoísmo onde imaginava generosidade, orgulho disfarçado de amor-próprio, medo vestido de prudência, e uma necessidade absurda de controle em lugares onde eu jurava existir apenas cuidado.
Mas também encontrei coragem na mulher que um dia chamei de difícil, desejo naquela que tentei disciplinar e uma força quase selvagem naquela que tantas vezes mandei calar.
Minhas sombras não são inocentes. Algumas já me fizeram ferir. Outras me impediram de partir. E há aquelas que ainda preciso aprender a não transformar em destino.
Acolhê-las não significa obedecê-las.
Significa assumir que também sou responsável pelo que faço quando escureço.
Talvez a verdadeira paz não seja essa brancura impecável que o mundo tanto admira.
Talvez seja conseguir encostar o rosto naquilo que mais tememos descobrir sobre nós e permanecer ali, sem fugir, sem nos condenar por existir.
Hoje já não peço que a vida me faça um anjo.
Os anjos das esculturas nunca precisaram sobreviver à própria história.
Eu precisei.
E, se às vezes ainda encontro um demônio sentado ao lado da minha ternura, não me apresso em negar sua presença.
Aproximo-me. Escuto. Reconheço seus olhos.
Porque há algo profundamente humano em descobrir que nem toda escuridão deseja nos destruir.
Algumas sombras só se tornam monstros porque passamos a vida inteira recusando-lhes um lugar dentro de nós.
E eu, que já fui tantas mulheres para sobreviver, quero finalmente aprender a habitar todas elas.
Sem precisar ser santa. Sem desejar ser cruel.
Apenas inteira.
Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 26/10/2026
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