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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Há homens que sabem despertar o desejo, mas não sabem sustentar uma conversa

Uma crônica sobre sexo, maturidade, liberdade e essa estranha dificuldade humana de dizer o que realmente se quer.

 

Cheguei a uma idade em que certas coisas já não me escandalizam. Sexo casual, relações sem rótulos, encontros improváveis, diferenças de idade, fantasias que fariam algumas pessoas procurarem um confessionário. Nada disso me causa espanto.

 

O que ainda me surpreende, e confesso que às vezes me irrita profundamente, é a incapacidade de algumas pessoas de conversar sobre aquilo que desejam.

 

Parece até uma contradição da modernidade. Nunca se falou tanto de liberdade sexual, nunca se exibiu tanto o corpo, nunca se teve tanto acesso ao outro. E, ainda assim, há gente adulta que prefere atravessar oceanos, mudar de país, aprender meia dúzia de expressões em outro idioma, mas não consegue formular uma frase relativamente simples: o que você espera de mim?

 

Engraçado, não é?

 

Já encontrei homens capazes de provocar uma mulher com um olhar e completamente desajeitados diante de uma pergunta afetiva. Homens inteligentes, interessantes, experientes em negócios, viagens e relações humanas. Mas basta o assunto sair da sedução e entrar no território das intenções para que a inteligência pareça pedir licença e desaparecer.

 

E não estou falando de declarações de amor.

 

Aliás, tenho certa desconfiança de quem declara sentimentos grandiosos antes mesmo de conhecer as pequenas contradições de uma pessoa.

 

Não preciso que alguém me prometa domingos, fidelidade eterna ou uma velhice compartilhada. Já vivi o suficiente para compreender que existem encontros que não nasceram para durar, mas que podem ser extraordinários enquanto acontecem.

 

Uma noite pode ser inteira sem precisar virar uma vida.

 

O problema começa quando alguém transforma a indefinição numa espécie de estratégia de aproximação.

 

Um pouco de carinho hoje. Uma provocação amanhã. Uma conversa íntima de madrugada. Depois, alguns dias de silêncio. Reaparece um desejo, desaparece uma pergunta. E lá está o outro tentando compreender se participa de uma relação humana ou de um jogo cuja regra principal é nunca explicar as regras.

 

O filósofo Roland Barthes explorou, em Fragmentos de um Discurso Amoroso, essa experiência tão particular de quem ama, espera e tenta encontrar sentido nos sinais do outro.

 

Gosto de Barthes porque ele compreendeu algo que continua atual: quando estamos afetivamente envolvidos, até a ausência ganha linguagem.

 

Uma mensagem não respondida pode produzir mais interpretações que uma conversa inteira.

 

E olha que o ser humano tem uma criatividade danada quando resolve justificar o silêncio de quem deseja.

 

Eu mesma já procurei compreender diferenças culturais, horários desencontrados, dificuldades de idioma e maneiras distintas de demonstrar afeto. Nem tudo é desinteresse. Às vezes existe uma dificuldade legítima de comunicação. Um homem pode ser profundamente carinhoso na presença e terrivelmente econômico nas palavras quando está distante.

 

Isso acontece.

 

Mas existe um limite entre compreender a realidade do outro e passar a fazer, sozinha, todo o trabalho de interpretação.

 

A maturidade deveria nos ensinar a reconhecer esse limite. Digo deveria porque envelhecer não imuniza ninguém contra o desejo. Muito menos contra as nossas próprias fantasias.

 

E ainda bem!

 

Continuo acreditando no erotismo como uma das expressões mais inteligentes da experiência humana. Um olhar pode ser eroticamente mais poderoso que um corpo inteiramente nu. Uma conversa pode despertar sensações que nenhum toque conseguiu produzir. Há uma sensualidade extraordinária em ser compreendida intelectualmente.

 

Talvez por isso eu considere tão pobre a ideia de que desejar uma mulher significa apenas desejar seu corpo.

 

Ora, meu caro, o corpo é parte de uma mulher. E que parte maravilhosa! Mas ele não anda sozinho por aí, disponível para ser separado da memória, do pensamento, das experiências e da liberdade de quem o habita.

 

É aqui que lembro do psicanalista Erich Fromm e de seu livro A Arte de Amar. Fromm compreendia o amor como uma capacidade que exige cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento.

 

Não penso que todo encontro sexual precise se transformar em amor. Seria uma exigência absurda, além de bastante inconveniente.

 

Mas respeito deveria estar presente até na relação mais breve.

 

É perfeitamente possível desejar alguém sem pretender construir uma história. Também é possível sentir carinho, atração e curiosidade por uma pessoa sem saber exatamente onde aquilo vai chegar.

 

A dúvida é humana. A liberdade também.

 

O que não considero aceitável é alimentar deliberadamente uma expectativa que sabemos não ter intenção de corresponder.

 

E faço aqui uma ressalva importante: nem toda expectativa frustrada nasceu de uma mentira. Às vezes somos nós que colocamos profundidade onde havia apenas entusiasmo. Interpretamos gestos, inventamos continuidades, atribuímos às palavras um compromisso que ninguém assumiu.

 

Já pensei nisso muitas vezes.

 

Existe uma responsabilidade de quem desperta sentimentos, mas também existe a responsabilidade de quem os cultiva.

 

Tenho aprendido que sentir desejo não me obriga a abandonar o discernimento. Posso querer alguém intensamente e continuar reconhecendo aquilo que essa pessoa efetivamente oferece.

 

Posso desejar uma experiência sem exigir dela uma promessa.

 

Posso até guardar uma lembrança deliciosa de alguém que nunca terá lugar permanente na minha vida.

 

Afinal, nem toda história precisa terminar em casamento, trauma ou bloqueio no WhatsApp. Algumas poderiam terminar simplesmente com duas pessoas adultas reconhecendo que viveram algo bom.

 

Seria tão civilizado.

 

Mas, para isso, é preciso conversar.

 

E conversar significa suportar a possibilidade de ouvir algo que contrarie nossas expectativas.

 

Há quem tenha coragem para experimentar fantasias bastante ousadas, mas não consiga dizer que não está emocionalmente disponível. Há quem peça intimidade sem oferecer confiança. Há também quem deseje liberdade para si enquanto espera exclusividade do outro.

 

Curiosamente, quase todos se consideram sinceros.

 

Talvez a questão não seja apenas a mentira que contamos aos outros. Há uma desonestidade mais discreta, praticada quando evitamos investigar nossas próprias intenções.

 

Queremos companhia ou queremos atenção? Desejamos aquela pessoa ou gostamos da sensação de sermos desejados por ela? Procuramos intimidade ou apenas alguém que nos distraia da solidão?

 

São perguntas desconfortáveis. Justamente por isso, necessárias.

 

Hoje, não tenho interesse em vigiar sentimentos, disputar atenção ou convencer alguém de que a minha presença merece continuidade.

 

Quero continuar sendo uma mulher capaz de desejar, provocar, experimentar e, quando fizer sentido, entregar-se. Sem perder a capacidade de perguntar. Sem transformar liberdade em indiferença. Sem confundir disponibilidade sexual com disponibilidade emocional.

 

E, sobretudo, sem precisar fingir que não sinto para parecer moderna.

 

Porque essa também virou uma bobagem dos nossos tempos: acreditar que maturidade afetiva significa não se envolver.

 

Ora, eu quero me envolver quando houver vontade. Quero sentir prazer, curiosidade, ternura. Quero poder falar de sexo com inteligência e de sentimentos sem constrangimento.

 

Não tenho medo de um homem que me diga que deseja apenas uma experiência.

 

Tenho muito mais dificuldade com aquele que não sabe o que quer, mas insiste em manter alguém por perto enquanto decide.

 

E se existe algo que os anos me ensinaram, é que ninguém deveria precisar diminuir sua sensibilidade para caber na indecisão de outra pessoa.

 

No fim, penso que a verdadeira liberdade sexual começa muito antes de duas pessoas tirarem a roupa.

 

Começa quando ambas conseguem dizer a verdade, inclusive aquela que pode fazer o encontro não acontecer.

 

Porque despir o corpo é relativamente fácil. Difícil, para muita gente, continua sendo aparecer diante do outro sem disfarçar as próprias intenções.

 

E convenhamos: depois de certa idade, a falta de roupa pode até ser interessante.

 

A falta de clareza, não.

 

 

Monet Carmo Crônica | Relações humanas, erotismo e maturidade afetiva

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 26/10/2026
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