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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


HOMENS QUE QUEREM SER DESEJADOS, MAS TÊM MEDO DE SER CONHECIDOS

O silêncio masculino, a pobreza das conversas e a dificuldade contemporânea de despertar interesse.

 

Por Monet Carmo

 

Há alguma coisa acontecendo com a maneira como homens e mulheres se aproximam. Não me refiro exatamente à falta de relacionamentos duradouros, ao crescimento dos encontros casuais ou à liberdade sexual. Refiro-me a algo anterior a qualquer possibilidade de intimidade, tipo... A dificuldade de estabelecer uma conversa que desperte o desejo de conhecer alguém.

 

Basta observar a dinâmica dos aplicativos de relacionamento. Um homem encontra uma mulher que considera atraente. Demonstra interesse, recebe reciprocidade e inicia o contato. Até aí, tudo parece funcionar. Entretanto, é justamente quando surge a possibilidade de construir uma aproximação que muitos parecem ficar sem recursos.

 

“Oi, tudo bem?”

“Você é de onde?”

“Quantos anos você tem?”

“Trabalha com quê?”

“O que procura aqui?”

 

Não existe absolutamente nada de errado nessas perguntas. São informações comuns, necessárias em determinados contextos. O problema é quando a comunicação permanece nesse estágio, como se conhecer alguém fosse preencher um cadastro antes de decidir se vale a pena investir tempo naquela pessoa.

 

O curioso é que esses mesmos homens frequentemente dizem procurar mulheres interessantes, inteligentes, independentes, bem-humoradas e capazes de conversar sobre diferentes assuntos.

 

Mas o que acontece quando encontram uma mulher assim?

 

Será que estão preparados para a reciprocidade intelectual que dizem desejar?

 

Ou aprenderam a admirar determinadas características femininas sem necessariamente desenvolver segurança para interagir com elas?

 

Essa questão exige uma reflexão sobre o próprio mundo masculino.

 

Em A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor, bell hooks examina como a cultura patriarcal também produz sofrimento nos homens, particularmente quando os ensina a reprimir sentimentos, rejeitar a vulnerabilidade e associar a expressão emocional à fraqueza.

 

Durante gerações, meninos foram educados para demonstrar força, resolver problemas, controlar emoções e evitar situações em que sua fragilidade pudesse ser percebida. Não é difícil imaginar como essa formação pode repercutir na vida adulta.

 

Um homem pode aprender a conquistar espaço profissional, administrar dinheiro, assumir responsabilidades e demonstrar segurança diante dos outros, mas continuar profundamente inseguro quando precisa falar sobre si mesmo.

 

Pode saber exatamente como convidar uma mulher para sair e não ter a menor ideia de como sustentar uma conversa que ultrapasse as formalidades.

 

Pode desejar intimidade e, simultaneamente, temer aquilo que a intimidade exige, tipo, ser visto para além da aparência, da profissão, da virilidade e da imagem que construiu sobre si.

 

Há uma contradição bastante humana nisso.

 

O homem quer despertar interesse, mas teme não corresponder às expectativas. Quer parecer inteligente, mas receia fazer uma observação equivocada. Deseja ser compreendido, embora nem sempre consiga compreender ou expressar aquilo que sente.

 

E, diante dessa insegurança, refugia-se no previsível.

 

O previsível dificilmente provoca constrangimento. Perguntar a idade, a profissão ou a cidade onde alguém mora é socialmente seguro. Exige pouca exposição pessoal e permite manter a conversa num território conhecido.

 

Mas existe um custo.

 

Quando toda a comunicação é construída para evitar o risco de ser mal interpretado, a própria personalidade pode acabar escondida.

 

O homem se protege tanto da possibilidade de não ser compreendido que deixa de oferecer elementos para que alguém deseje compreendê-lo.

 

E aquilo que ele acredita ser proteção pode acabar sendo percebido como desinteresse.

 

Søren Kierkegaard, em O conceito de angústia, relaciona a angústia à liberdade e às possibilidades que se apresentam diante do indivíduo. Embora sua reflexão não tenha sido formulada para explicar aplicativos de relacionamento, oferece um caminho interessante para compreender o desconforto de quem precisa escolher como se apresentar ao outro.

 

Toda aproximação contém possibilidades. Podemos agradar, decepcionar, despertar admiração, provocar estranhamento ou simplesmente não produzir interesse algum.

 

O homem que teme excessivamente essas possibilidades pode escolher a neutralidade como estratégia de sobrevivência emocional.

 

Não se expõe. Não provoca. Não discorda. Não apresenta uma opinião que possa gerar desconforto. Procura responder corretamente, como se existisse alguma avaliação invisível acontecendo do outro lado da tela.

 

O resultado pode ser uma conversa educada, socialmente aceitável e absolutamente incapaz de despertar curiosidade.

 

Entretanto, é preciso fazer uma distinção importante: homens reservados não são necessariamente homens desinteressantes. Timidez não significa ausência de inteligência, assim como facilidade verbal não garante profundidade. Existem pessoas que precisam de tempo para confiar e outras que se expressam melhor pessoalmente.

 

O problema não está no silêncio ocasional. Está na ausência persistente de troca.

 

Hannah Arendt, em A condição humana, desenvolve uma reflexão particularmente relevante sobre a palavra e a ação como formas pelas quais os indivíduos revelam quem são. Existe uma diferença entre informar características pessoais e permitir que a própria singularidade apareça diante dos outros.

 

Dizer onde trabalha, quantos anos tem ou qual restaurante prefere fornece informações. Mas aquilo que alguém pensa sobre uma experiência, a maneira como interpreta um acontecimento, suas dúvidas e contradições revelam dimensões menos previsíveis de sua personalidade.

 

É justamente aí que uma conversa pode ganhar profundidade.

 

Não precisamos transformar o primeiro contato numa sessão de análise emocional, muito menos exigir confissões íntimas de desconhecidos. Existe uma diferença entre compartilhar alguma coisa de si e expor indiscriminadamente a própria vida.

 

Uma observação bem-humorada, uma pergunta inesperada, uma curiosidade genuína já podem mudar completamente a atmosfera de uma aproximação.

 

Um homem que consegue dizer “sou meio ruim nessas conversas de aplicativo, mas fiquei curioso com uma coisa que você escreveu” talvez esteja oferecendo mais de si do que outro que apresenta uma sequência inteira de perguntas convencionais.

 

Há sinceridade naquela pequena admissão. Existe uma personalidade tentando aparecer.

 

E isso pode ser atraente.

 

A situação se torna ainda mais particular quando pensamos em mulheres com altas habilidades ou superdotação, especialmente aquelas que apresentam intensa curiosidade, pensamento associativo, elevada sensibilidade ou grande envolvimento com assuntos de seu interesse.

 

Algumas dessas mulheres podem experimentar a comunicação de maneira diferente. Não necessariamente por possuírem mais conhecimento ou por se considerarem superiores aos demais, mas porque determinadas conversas despertam nelas uma necessidade mais imediata de explorar ideias, relações e significados.

 

Enquanto uma pessoa ainda está interessada em descobrir onde a outra mora, ela talvez já esteja curiosa sobre o motivo de determinadas escolhas, sobre o significado de uma experiência ou sobre a maneira como aquele desconhecido compreende a própria vida.

 

É quase uma vontade de pular para o próximo capítulo antes de terminar a apresentação dos personagens.

 

Isso pode provocar desencontros.

 

Não porque toda pessoa com AH/SD rejeite conversas triviais. Essa seria uma generalização inadequada. Há diferentes perfis cognitivos, afetivos e sociais, e a própria conversa cotidiana pode ser importante para estabelecer segurança e familiaridade.

 

Mas, para algumas pessoas, especialmente quando existe uma busca intensa por estímulo intelectual, uma interação excessivamente previsível pode perder rapidamente seu poder de mobilizar interesse.

 

O homem acredita que está sendo prudente. A mulher interpreta sua comunicação como ausência de curiosidade. Ele percebe um afastamento, sente-se rejeitado e pode concluir que mulheres intelectualmente exigentes são difíceis de agradar.

 

Ela, por sua vez, pode concluir que os homens disponíveis não sabem conversar.

 

Talvez ambos estejam fazendo interpretações incompletas.

 

Há homens inteligentes que se calam por insegurança. Há mulheres intelectualmente intensas que podem acelerar demais a conversa e não perceber que o outro ainda está tentando encontrar um espaço para participar. Existem também pessoas que simplesmente não têm interesse suficiente para investir naquela troca.

 

Nem toda incompatibilidade é um problema psicológico. Algumas pessoas apenas não combinam.

 

Martin Buber, em Eu e Tu, propõe uma distinção filosófica entre relações nas quais percebemos o outro como objeto de experiência e aquelas marcadas pelo encontro genuíno entre sujeitos.

 

Essa reflexão ajuda a compreender um problema frequente na vida digital.

 

Quando uma pessoa pergunta repetidamente o que a outra procura, pode estar interessada apenas em verificar a compatibilidade de objetivos. Quer saber se haverá relacionamento, sexo casual, amizade ou alguma possibilidade de encontro.

 

Tudo isso tem sua importância. Clareza evita expectativas equivocadas.

 

Mas a pessoa diante dela não se resume à função que poderá ocupar em sua vida.

 

Uma mulher não é apenas uma candidata a relacionamento. Um homem não é somente uma possibilidade sexual. Cada um carrega experiências, desejos, medos, interesses e histórias que dificilmente cabem nas categorias oferecidas por um aplicativo.

 

Conhecer alguém pressupõe reconhecer essa complexidade.

 

E talvez seja justamente nesse ponto que a sedução contemporânea esteja enfrentando uma dificuldade interessante.

 

Muitos aprenderam a demonstrar desejo, mas poucos parecem dispostos a cultivar a curiosidade que sustenta esse desejo.

 

Byung-Chul Han, em Agonia do Eros, discute o enfraquecimento da experiência do outro numa sociedade marcada pelo individualismo, pela exposição e pela tendência de buscar relações que confirmem nossas próprias expectativas.

 

Sua crítica permite pensar sobre um comportamento recorrente, como, desejamos alguém que corresponda ao que imaginamos, mas nem sempre estamos interessados em descobrir quem essa pessoa realmente é.

 

A fotografia atrai. A descrição confirma algumas preferências. A conversa começa e, em poucos minutos, surgem expectativas sobre encontros, disponibilidade e intimidade.

 

Queremos chegar rapidamente à experiência, muitas vezes sem desenvolver curiosidade pelo processo.

 

Entretanto, o erotismo humano não se limita à atração física.

 

Uma conversa pode ser profundamente erótica sem conter qualquer referência sexual. Existe erotismo numa inteligência que surpreende, numa resposta inesperada, numa ironia compartilhada, na descoberta de que alguém percebe o mundo por ângulos que jamais havíamos considerado.

 

O desejo pode começar pelo corpo, mas também pode crescer pela linguagem.

 

Isso não significa que a atração intelectual seja uma obrigação ou que todo encontro precise apresentar densidade filosófica.

 

Há encontros leves, silenciosos, espontâneos e deliciosos. Há pessoas que se entendem pelo humor, pelo movimento, pelo modo como observam o ambiente. A linguagem não é a única possibilidade de aproximação.

 

Mas, quando alguém se apresenta como interessado em conhecer outra pessoa, precisa admitir que conhecer exige alguma disposição para sair do próprio repertório.

 

Não basta querer ser admirado. É necessário demonstrar interesse.

 

E aqui retorno ao universo masculino.

 

Talvez alguns homens precisem reaprender uma forma de coragem que não está associada à força física, à capacidade financeira ou ao desempenho sexual.

 

A coragem de falar sem garantir que serão admirados.

 

De admitir desconhecimento.

 

De formular uma pergunta sem transformá-la numa técnica de conquista.

 

De escutar uma mulher inteligente sem interpretar sua desenvoltura como ameaça à própria masculinidade.

 

De discordar sem precisar vencer.

 

E, sobretudo, de compreender que vulnerabilidade não significa entregar a própria intimidade indiscriminadamente. Significa permitir, gradualmente e com discernimento, que alguma coisa verdadeira apareça.

 

Também é necessário reconhecer que essa responsabilidade não pertence exclusivamente aos homens. Mulheres podem reproduzir os mesmos comportamentos defensivos, avaliar precipitadamente quem encontram e confundir desenvoltura com inteligência.

 

Uma conversa depende de reciprocidade. Ninguém deveria ser obrigado a carregar sozinho a responsabilidade de torná-la interessante.

 

Ainda assim, há uma questão cultural importante quando tantos homens parecem mais preparados para anunciar o que desejam de uma mulher do que para descobrir o que podem compartilhar com ela.

 

O medo masculino de não ser compreendido merece atenção. Ele pode esconder experiências de rejeição, dificuldades de expressão, educação emocional restritiva e uma longa aprendizagem de autossuficiência.

 

Mas compreender as origens desse medo não significa ignorar suas consequências.

 

A mulher que está do outro lado da conversa não tem como descobrir uma personalidade que permanece constantemente protegida atrás de respostas automáticas.

 

Ela pode perceber a beleza, reconhecer a educação e até sentir atração física. Mas não necessariamente encontrará motivos para desejar prolongar aquela aproximação.

 

E existe uma diferença que considero fundamental entre desejar um encontro e saber despertar o desejo de encontrar alguém.

 

O primeiro depende da vontade de quem convida.

 

O segundo nasce da experiência construída entre duas pessoas.

 

Não existe fórmula para provocar essa experiência, porque ela depende de afinidade, disponibilidade, circunstâncias e interesse recíproco.

 

Talvez alguns homens descubram isso quando perceberem que uma conversa não é uma avaliação de desempenho, mas uma oportunidade de expressão.

 

Não precisam impressionar o tempo inteiro. Não precisam conhecer todos os assuntos, dominar filosofia, citar livros ou apresentar respostas extraordinárias.

 

Precisam apenas participar de maneira genuína, dentro de suas possibilidades, sem esperar que a outra pessoa faça todo o trabalho de aproximação.

 

A mulher que valoriza inteligência não está necessariamente procurando um homem que saiba tudo.

 

Pode estar procurando alguém que tenha curiosidade suficiente para descobrir alguma coisa junto com ela.

 

E isso muda bastante a compreensão da sedução.

 

Porque um homem pode despertar desejo pela aparência, conseguir um encontro pela iniciativa e até conquistar uma experiência sexual pela atração compartilhada.

 

Mas conseguir que alguém deseje encontrá-lo novamente envolve dimensões que nenhuma fotografia consegue antecipar.

 

Talvez o maior desafio masculino não seja aprender novas técnicas de conquista.

 

Talvez seja abandonar, pouco a pouco, o medo de apresentar uma versão menos ensaiada de si mesmo.

 

Há homens que passam tanto tempo tentando descobrir o que uma mulher deseja ouvir que acabam deixando de dizer qualquer coisa que realmente lhes pertença.

 

E há mulheres que, depois de tantas conversas previsíveis, já não procuram uma frase perfeita.

 

Esperam apenas encontrar, do outro lado, alguém que também esteja disposto a pensar, perguntar, rir, discordar e se deixar conhecer.

 

Porque a ausência de palavras nem sempre revela ausência de conteúdo.

 

Mas chega um momento em que aquilo que nunca é compartilhado também não pode despertar interesse.

 

O homem que teme não ser compreendido talvez precise descobrir que, para ser conhecido, terá de aceitar a possibilidade de não agradar.

 

E a mulher que deseja conhecê-lo precisará encontrar espaço para escutar aquilo que ele ainda está aprendendo a dizer.

 

Talvez uma boa conversa comece justamente aí.

 

Referências filosóficas e conceituais

 

bell hooks. A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor. Editora Elefante, edição brasileira de 2025. Reflexão sobre a formação emocional masculina, o patriarcado e o medo da intimidade.

 

https://editoraelefante.com.br/produto/a-vontade-de-mudar/

 

Søren Kierkegaard. O conceito de angústia (1844). Referência à relação entre liberdade, possibilidade, escolha e angústia. Apoio conceitual: Stanford Encyclopedia of Philosophy.

 

https://plato.stanford.edu/entries/kierkegaard/

 

Hannah Arendt. A condição humana (1958). Reflexão sobre a palavra, a ação e a revelação da singularidade dos indivíduos. Apoio conceitual: Stanford Encyclopedia of Philosophy.

 

https://plato.stanford.edu/entries/arendt/

 

Martin Buber. Eu e Tu (1923). Filosofia do diálogo, do encontro e do reconhecimento do outro como sujeito.

 

https://plato.stanford.edu/entries/buber/

 

Byung-Chul Han. Agonia do Eros. Reflexão sobre alteridade, individualismo, desejo e relações contemporâneas. Referência editorial: MIT Press, edição inglesa de 2017.

 

https://mitpress.mit.edu/9780262339254/the-agony-of-eros/

 

Brasil. Lei nº 15.436, de 17 de junho de 2026. Institui a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação. Referência à curiosidade intensa, ao potencial intelectual e ao envolvimento profundo em temas de interesse, sem pressupor comportamento uniforme entre as pessoas com AH/SD.

 

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15436.htm

 

Nota autoral:

As relações entre os conceitos filosóficos e as experiências nos aplicativos de relacionamento constituem interpretação e reflexão crítica da autora, não conclusões empíricas atribuídas aos filósofos mencionados.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 25/10/2026
Alterado em 25/10/2026
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