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O DESEJO NÃO ACEITA CONVITESUm conto sobre a distância entre querer encontrar alguém e conseguir despertar essa vontade.
Monet Carmo
Ele tinha cabelos compridos, um rosto bonito e uma expressão que sugeria certa tranquilidade diante da vida. Não era exatamente o tipo de homem que aparecia com frequência na tela de Helena, embora ela já tivesse aprendido a desconfiar daquela coleção de fotografias cuidadosamente escolhidas para impressionar desconhecidos.
Ainda assim, gostou do que viu.
Deslizou o dedo para a direita.
Alguns minutos depois, o aplicativo anunciou a coincidência de interesses. Era curioso como duas pessoas podiam manifestar uma atração mútua sem saber absolutamente nada uma da outra.
Ele se chamava Daniel.
Começaram pelo inevitável boa-noite.
Helena perguntou sobre seus gostos. Ele respondeu que apreciava vinho, café, restaurantes, viagens e a possibilidade de viver melhor a cada dia. Uma espécie de catálogo de preferências que poderia pertencer a milhares de pessoas.
Ela sorriu diante da tela.
Não havia nada de errado com aquilo. Apenas não existia, até aquele momento, qualquer indício de uma personalidade que merecesse ser descoberta.
Perguntou sobre relacionamentos.
Ele contou que havia saído de uma relação longa e não procurava nada fixo.
Helena compreendeu. Aos quarenta e tantos anos, também carregava histórias suficientes para não confundir uma declaração de liberdade com uma ofensa pessoal.
Não estava procurando marido. Aliás, nem sabia se desejava novamente dividir a vida com alguém. Gostava da própria casa, dos livros espalhados, do silêncio quando precisava pensar e da liberdade de decidir, numa terça-feira qualquer, que o jantar seria uma taça de vinho acompanhada de alguma coisa encontrada na geladeira.
Mas gostava de homens.
Gostava especialmente daqueles que despertavam nela uma curiosidade difícil de explicar. Homens capazes de perceber uma ironia, desenvolver um assunto, discordar sem transformar a conversa numa disputa de autoridade. A beleza lhe chamava a atenção, evidentemente. Nunca teve vocação para fingir indiferença diante de um homem bonito.
Só que a beleza, sozinha, costumava perder a graça depressa.
Daniel perguntou o que ela procurava.
Helena pensou um pouco antes de responder.
Disse que gostava de conhecer pessoas, ouvir histórias, descobrir o que havia por trás das escolhas de cada um. Um café poderia ser interessante. Uma boa conversa, ainda mais. Quanto ao sexo, considerava uma possibilidade natural quando existiam atração e desejo.
Ele respondeu:
— Concordo.
Ela ficou olhando para aquela palavra.
Concordo.
Uma resposta educada, correta e inteiramente incapaz de produzir qualquer acontecimento dentro dela.
Pensou em encerrar a conversa. Já havia vivido situações parecidas. Homens que perguntavam o que uma mulher procurava, recebiam respostas detalhadas e, em seguida, demonstravam pouquíssima curiosidade sobre a pessoa que acabara de lhes responder.
Entretanto, Daniel surpreendeu.
— Então vamos marcar esse café e descobrir se existe conexão?
Helena riu.
Era impressionante a facilidade com que alguns homens conseguiam chegar ao convite sem percorrer o caminho que poderia torná-lo desejável.
Não respondeu imediatamente.
Deixou o celular sobre a mesa, levantou-se, foi até a cozinha e colocou água para esquentar.
Enquanto esperava, pensou naquela estranha economia afetiva que parecia orientar os encontros contemporâneos. As pessoas desejavam resultados rápidos. Queriam saber se haveria química, beijo, sexo, continuidade. O processo de conhecer alguém havia se transformado, em muitos casos, numa formalidade entre a fotografia e o encontro.
Talvez estivesse sendo exigente demais.
Talvez Daniel fosse apenas um homem de poucas palavras.
Talvez fosse interessante pessoalmente.
Ela voltou ao celular.
— Podemos tomar esse café.
Ele enviou um emoji sorridente e perguntou se poderiam conversar pelo WhatsApp.
Helena aceitou.
Naquela noite, antes de dormir, percebeu que havia concordado em encontrar um homem sem estar particularmente curiosa para vê-lo.
Aceitara o convite. A vontade ainda não havia chegado.
---
Encontraram-se numa cafeteria em Belém, numa tarde de sábado.
A chuva tinha passado havia pouco. Algumas pessoas entravam no estabelecimento reclamando do trânsito, outras procuravam mesas próximas às janelas. Helena chegou primeiro.
Escolheu um lugar de onde pudesse observar a entrada.
Não por medo de Daniel, mas por um hábito antigo de prestar atenção aos ambientes. Gostava de perceber as pessoas antes de ser percebida.
Ele apareceu dez minutos depois.
Era mais bonito do que nas fotografias.
O cabelo caía sobre os ombros, a camiseta simples lhe favorecia o corpo e havia algo agradável na maneira como sorria. Helena sentiu aquela satisfação íntima de descobrir que, pelo menos fisicamente, não havia sido enganada pelo aplicativo.
Levantou-se.
Cumprimentaram-se com um abraço.
Daniel tinha um perfume discreto.
Ponto positivo, pensou ela, divertindo-se com a própria mania de avaliar detalhes.
Sentaram-se.
Os primeiros minutos foram exatamente como ela havia imaginado. Trabalho, trânsito, calor, lugares preferidos da cidade.
Ele comentou sobre a dificuldade de conhecer pessoas interessantes.
Helena quase riu.
— E o que torna uma pessoa interessante para você?
Daniel pareceu surpreso com a pergunta.
— Ah... sei lá. Ter uma conversa boa, ser agradável, gostar de aproveitar a vida.
— Entendi.
Ela mexeu o café devagar.
— Mas o que seria uma conversa boa?
Ele sorriu.
— Você faz umas perguntas difíceis, sabia?
— Essa foi difícil?
— Não. É que nunca pensei muito nisso.
Helena o observou por alguns segundos.
Havia alguma sinceridade naquela resposta. Daniel não procurou inventar uma explicação sofisticada para impressioná-la. Simplesmente admitiu que nunca havia pensado sobre uma coisa que dizia procurar.
Aquela pequena contradição lhe pareceu mais interessante do que todas as respostas anteriores.
— Engraçado — comentou. — A gente passa a vida dizendo que quer encontrar alguém interessante, mas raramente pensa no que desperta nosso próprio interesse.
— Você pensa demais, né?
— Provavelmente.
Ele riu.
— Deve ser cansativo.
— Às vezes. Mas também me diverte.
Daniel tomou um gole de café.
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Você sempre analisa as pessoas assim?
Helena não esperava aquela pergunta.
Pousou a xícara.
— Acho que observo mais do que analiso. Mas é possível que eu faça as duas coisas.
— Porque dá a impressão de que estou fazendo uma entrevista.
Ela riu, dessa vez com vontade.
— E talvez você esteja.
— Então estou indo mal.
— Não necessariamente. Só está respondendo às perguntas sem fazer muitas.
Ele ficou em silêncio.
Helena percebeu que havia sido um pouco dura. Não era sua intenção submetê-lo a qualquer prova. Afinal, o homem estava ali, demonstrando interesse à maneira dele. E ela também precisava admitir que sua facilidade com as palavras nem sempre tornava as coisas mais simples.
— Sabe o que é? — disse, procurando suavizar a conversa. — Eu gosto de descobrir como alguém pensa. Não preciso que concorde comigo. Até prefiro quando existe alguma diferença. A conversa fica mais interessante.
Daniel apoiou os braços sobre a mesa.
— E se eu não souber responder?
— Você pode dizer que não sabe.
— Igual fiz agora?
— Exatamente.
Ele sorriu.
Pela primeira vez, Helena percebeu que o sorriso dele não era apenas bonito. Havia uma espécie de timidez por trás daquela expressão tranquila.
A conversa mudou.
Daniel contou um pouco sobre o relacionamento que havia terminado. Não entrou em detalhes íntimos, nem tentou construir a imagem de um homem injustiçado por uma mulher cruel. Disse apenas que havia passado tantos anos vivendo a dois que, depois da separação, começou a perceber quantas decisões tomava automaticamente pensando na outra pessoa.
— Até escolher um restaurante ficou estranho — confessou. — Eu já sabia o que ela gostava, o que não gostava... Agora parece que tenho que descobrir o que eu gosto de novo.
Helena prestou atenção.
Aquilo lhe pareceu uma observação legítima.
— E você está gostando dessa descoberta?
Ele demorou a responder.
— Algumas vezes. Outras, não.
— Por quê?
— Porque às vezes acho que estou aproveitando a liberdade. Em outras, percebo que só estou tentando não ficar sozinho.
Helena deixou a xícara sobre o pires.
Havia finalmente alguma coisa acontecendo naquela mesa.
Não era uma revelação extraordinária. Daniel não acabara de apresentar uma teoria filosófica sobre a solidão. Apenas havia dito algo verdadeiro, sem tentar tornar a própria experiência mais bonita do que realmente era.
— Isso é mais comum do que parece — respondeu ela.
— Com você também?
Helena sorriu discretamente.
— Já foi. Hoje consigo ficar sozinha sem transformar isso num problema a ser resolvido.
— E não sente falta de ter alguém?
— Sinto falta de algumas coisas. De outras, sinceramente, não.
— Tipo?
Ela olhou para ele.
Agora havia uma pergunta.
Uma pergunta de verdade.
— Sinto falta de descobrir alguém aos poucos. Daquela vontade de continuar uma conversa no dia seguinte. De encontrar uma mensagem que não seja apenas um bom-dia automático. De sentir que alguma coisa que eu disse permaneceu na cabeça da pessoa.
Daniel ficou pensando.
— E do sexo?
Helena sorriu.
— Também. Mas gosto muito daquilo que acontece antes.
— O quê?
— O desejo de estar perto.
Ele assentiu.
Dessa vez, não respondeu imediatamente.
---
Permaneceram na cafeteria por quase duas horas.
Conversaram sobre viagens, família, escolhas equivocadas e a estranha capacidade que certas lembranças têm de sobreviver à própria importância.
Nem tudo foi interessante.
Houve assuntos que morreram rapidamente, algumas pausas desconfortáveis, comentários previsíveis. Helena descobriu que Daniel tinha pouca familiaridade com literatura, mas sabia falar com entusiasmo sobre lugares que havia visitado. Ele descobriu que aquela mulher, aparentemente segura de tudo, também tinha dúvidas que preferia guardar.
Em determinado momento, ela se surpreendeu rindo de uma história absurda sobre uma viagem dele ao interior.
Foi um riso espontâneo, desses que interrompem qualquer tentativa de parecer sofisticada.
Daniel olhou para ela com satisfação.
— Agora sim.
— Agora sim o quê?
— Você parou de me entrevistar.
Helena ergueu as sobrancelhas.
— E você começou a contar alguma coisa interessante.
Os dois riram.
Quando a conta chegou, Daniel perguntou se ela gostaria de caminhar um pouco.
Helena olhou pela janela. A chuva ameaçava voltar.
— Acho melhor deixar para outro dia.
Ele pareceu aceitar aquilo com naturalidade.
Saíram juntos.
Na despedida, Daniel a abraçou novamente. Desta vez, demorou um pouco mais.
Helena percebeu o cheiro do perfume, o calor do corpo, o cabelo tocando de leve seu rosto. Poderia ter acontecido um beijo. Havia atração suficiente para isso.
Mas preferiu não apressar nada.
— Gostei de conhecer você — ele disse.
— Também gostei, Daniel.
E era verdade.
Não uma verdade grandiosa, dessas que anunciam o começo de uma paixão. Apenas a satisfação de descobrir uma pessoa um pouco diferente daquela que havia imaginado.
Ele perguntou se poderiam repetir o encontro.
Helena sorriu.
— Podemos conversar sobre isso.
Daniel riu.
— Você nunca dá uma resposta simples?
— Dou. Quando a pergunta permite.
Despediram-se.
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Naquela noite, já em casa, Helena recebeu uma mensagem.
Chegou bem?
Respondeu que sim.
Pouco depois, Daniel escreveu:
Fiquei pensando numa coisa que você falou hoje.
Ela se ajeitou no sofá.
Qual?
Sobre sentir vontade de continuar uma conversa no dia seguinte.
Helena esperou.
A mensagem seguinte demorou alguns instantes.
Eu acho que entendi. Passei tanto tempo tentando descobrir se alguém queria sair comigo que esqueci de pensar no que faria essa pessoa querer me encontrar.
Helena leu duas vezes.
Não porque a frase fosse extraordinária. Na verdade, continha uma ideia bastante simples.
Mas havia uma diferença importante.
Daniel havia escutado.
E, mais do que isso, tinha levado alguma coisa daquela conversa para além da cafeteria.
Ela respondeu:
Pois é... o encontro começa muito antes da gente chegar ao lugar combinado.
Ele enviou outra mensagem.
Então posso começar fazendo uma pergunta que esqueci de fazer hoje?
Helena sentiu uma curiosidade inesperada.
Pode.
Você disse que gosta de conhecer as histórias das pessoas. Mas qual parte da sua história você gostaria que alguém tivesse curiosidade de conhecer?
Ela permaneceu alguns minutos olhando para a tela.
Tinha respostas prontas para tantas perguntas. Sabia explicar suas escolhas profissionais, falar dos relacionamentos que vivera, das cidades onde morara, das coisas que havia conquistado. Estava habituada a contar sua história a partir dos acontecimentos.
Entretanto, aquela pergunta chegava por outro caminho.
Qual parte dela gostaria de ser descoberta?
Pensou na mulher que havia sido aos vinte anos, nas decisões tomadas por necessidade, nos desejos que deixara de lado, nas versões de si mesma que ninguém conhecera inteiramente.
Pensou nas coisas que ainda não havia contado nem para os amigos mais próximos.
Sorriu.
Pela primeira vez desde o match, queria realmente continuar aquela conversa.
Escreveu:
Essa resposta merece outro café.
Daniel respondeu quase imediatamente.
Então acho que finalmente fiz a pergunta certa.
Helena deixou o celular sobre o sofá.
Não sabia se aquele homem ocuparia algum lugar importante em sua vida. Não sabia se o próximo encontro terminaria num beijo, numa noite de sexo ou apenas numa despedida educada. Já tinha idade suficiente para compreender que uma conversa interessante não garantia compatibilidade, assim como uma atração intensa não assegurava qualquer continuidade.
Mas reconhecia o que estava sentindo.
Curiosidade.
Uma vontade discreta, ainda sem grandes pretensões, de descobrir o que aquele homem poderia dizer quando deixasse de procurar respostas prontas.
Na tarde anterior, Daniel havia conseguido marcar um encontro.
Naquela noite, havia despertado nela o desejo de encontrá-lo novamente.
Helena apagou a luz da sala.
Antes de dormir, voltou ao celular e releu a última mensagem.
Era estranho perceber que uma pergunta podia produzir mais expectativa do que um convite inteiro.
E pensou, com um sorriso que ninguém viu, que talvez o erotismo começasse exatamente naquele território pouco explorado entre o que sabemos sobre alguém e aquilo que ainda desejamos descobrir. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 25/10/2026
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