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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A Mulher que ainda não terminou de acontecer

 

Há uma mulher em mim que já atravessou tantos homens, tantas ausências, tantas maneiras de ser amada pela metade, que às vezes se espanta por ainda desejar um abraço inteiro.

 

Não é inocência. Conheço o peso das despedidas, o gosto das promessas interrompidas, o silêncio que fica quando alguém leva o corpo e esquece de recolher a indiferença.

 

Mas continuo desejando.

 

Gosto de homens que me perturbam os sentidos, das mãos que ainda não conheço, das bocas que minha imaginação inventa, da masculinidade que me provoca e das fragilidades que alguns escondem como se sentir fosse uma vergonha.

 

Já acolhi segredos que não cabiam em nenhuma conversa comum.

Já compreendi mais do que deveria.

Já guardei intimidades alheias enquanto as minhas permaneciam sem testemunhas.

 

E houve noites em que desejei apenas que alguém perguntasse por que eu estava tão calada.

 

Tenho uma idade em que já não confundo liberdade com abandono, nem prazer com permanência. Posso amar uma noite sem exigir dela uma vida.

 

Mas ainda quero ser conhecida.

 

Quero que alguém perceba que por trás da mulher que escreve existe outra que às vezes não encontra palavras. Que por trás da inteligência existe cansaço. Que minhas certezas não pagam minhas contas e que minha coragem também conhece o medo.

 

Há dias em que me falta dinheiro, em que os projetos parecem distantes, em que um sapato estragado consegue ferir mais profundamente do que certas despedidas.

 

Nesses dias, não preciso que um homem me salve.

 

Gostaria apenas que não confundisse minhas dificuldades com aquilo que sou.

 

Ainda tenho livros por escrever, lugares onde desejo chegar, prazeres que não experimentei, perguntas que nenhuma filosofia respondeu.

 

E tenho este corpo, que envelhece comigo sem pedir autorização para continuar querendo.

 

Se um homem vier, que venha por vontade. Que me encontre bonita, que deseje minha pele, que tenha coragem de revelar seus pensamentos.

 

Mas que também saiba permanecer quando eu não tiver nada de extraordinário para oferecer.

 

Porque já fui tantas mulheres para atender às necessidades dos outros que agora gostaria de descobrir como é ser amada sem precisar desempenhar nenhuma delas.

 

E se ninguém vier, ainda haverá manhãs, minha escrita, o café esfriando sobre a mesa, alguma música antiga, a vida exigindo que eu continue.

 

Não sou a mulher que fui aos vinte, nem aquela que chorou aos trinta, nem a que acreditou, aos quarenta, que já havia compreendido os homens.

 

Sou todas elas.

 

E alguma outra que ainda não conheço.

 

Talvez seja justamente essa que eu mais queira encontrar.

 

✨️✨️✨️

 

Para a mulher que ainda deseja, pensa, se contradiz, recomeça...

e que não precisa ser compreendida por inteiro

para continuar sendo profundamente interessante.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 22/10/2026
Alterado em 22/10/2026
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