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A moral que só vale para os outros...Alguém passa à nossa frente numa fila e logo reconhecemos a falta de respeito. Pouco importa se a pessoa estava atrasada, cansada ou precisava resolver alguma coisa depressa. Nós também temos compromissos. Mas basta surgir uma oportunidade de conseguir atendimento por meio de um conhecido para começarmos a considerar as particularidades do nosso caso.
É rápido... É uma necessidade urgente... Ninguém vai se incomodar tanto assim! Essa facilidade de compreender as próprias exceções me faz pensar em Kant.
Há algo de incômodo em uma filosofia que nos obriga a examinar os motivos de uma escolha, sobretudo quando já encontramos uma boa explicação para ela... Na Fundamentação da metafísica dos costumes, publicada em 1785, e na Crítica da razão prática, de 1788, Kant investiga os fundamentos da moralidade. Sua preocupação alcança uma questão que continua presente nas nossas relações... "o que sustenta uma conduta quando agir corretamente deixa de ser vantajoso?" Podemos cumprir uma obrigação por receio de punição, por interesse em preservar nossa imagem ou porque reconhecemos que aquilo deve ser feito. Por fora, o comportamento pode parecer igual. Para Kant, porém, o valor moral exige atenção ao princípio que orienta a vontade. Agir por dever significa agir por respeito à lei moral.
Penso em quem devolve um dinheiro recebido por engano. A devolução pode nascer do medo de que descubram, da expectativa de receber elogios ou do reconhecimento de que aquele valor pertence a outra pessoa. O dinheiro volta ao mesmo lugar, mas há diferenças no motivo de quem o devolve. Nem sempre conseguimos conhecer esse motivo. Às vezes, nem o nosso é tão transparente quanto gostaríamos...
Somos capazes de elaborar justificativas muito convincentes. Podemos chamar de lealdade o silêncio que protege uma injustiça. Podemos dizer que estamos evitando um conflito quando, na verdade, tememos perder alguma vantagem. Também podemos agir corretamente e sentir satisfação com isso. A vida interior não se apresenta organizada em compartimentos, pronta para uma avaliação. Ainda assim, essa dificuldade merece investigação.
O imperativo categórico propõe examinar se o princípio da nossa ação pode valer como lei universal. Uma promessa feita com a intenção de descumpri-la, por exemplo, depende da confiança que o próprio princípio da falsa promessa destruiria se fosse universalizado... Isso me interessa porque expõe um hábito bastante comum... ""contar com a honestidade dos outros enquanto reservamos alguma liberdade para a nossa conveniência."" Queremos acreditar no compromisso que alguém assume conosco. Quando chega a nossa vez de cumprir o combinado, aparecem circunstâncias que, segundo nós, precisam ser compreendidas.
Outro aspecto da ética kantiana exige reconhecer a humanidade, em nós e nos outros, como um fim em si mesma, jamais apenas como um meio. Essa formulação ganha um peso concreto quando pensamos nas relações de trabalho, nas amizades e nos vínculos afetivos... Uma pessoa pode ser procurada sempre que sua influência ajuda, sua competência resolve ou sua disponibilidade ampara. Com o tempo, suas necessidades deixam de entrar na conversa. Quem a procura conhece muito bem sua utilidade e quase nada sobre o que ela está vivendo. Há relações inteiras funcionando assim, inclusive entre pessoas que se consideram próximas... Também me inquieta o quanto podemos confundir obediência com responsabilidade.
A aprovação de um grupo traz conforto. Repetir o que todos fazem reduz o esforço de examinar uma escolha e oferece uma defesa pronta quando alguma coisa dá errado. Sempre foi assim. Todos sabiam. Eu apenas acompanhei.
Na concepção kantiana de autonomia, somos chamados a reconhecer racionalmente os princípios que devem orientar nossa vontade. Isso exige mais de nós do que seguir uma preferência ou aceitar uma ordem. A existência de uma autoridade não encerra, por si só, o exame moral do que fazemos.
Não considero simples sustentar essa exigência na vida cotidiana. Há medo, dependência, cansaço e relações de poder que limitam nossas possibilidades de ação. Ignorar essas condições tornaria a reflexão superficial. Mas reconhecê-las também exige cuidado, porque nem toda conveniência merece o nome de necessidade... Continuo pensando na rapidez com que encontramos atenuantes quando o interesse é nosso.
A mesma inteligência que identifica uma injustiça consegue trabalhar bastante para torná-la aceitável.
Por isso, quando ouço alguém dizer que, no seu caso, era diferente, tenho vontade de entender melhor. Às vezes era mesmo. Quero saber em quê. A pessoa que ficou esperando na fila também podia estar atrasada. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 21/10/2026
Alterado em 21/10/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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