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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O amor que se ofende com um não...

 

Albert Camus teve vários amores, inclusive fora do casamento. Em O mito de Sísifo, seu Don Juan vive cada encontro com intensidade e volta a amar sem procurar uma mulher definitiva. Camus vê nessa sucessão uma maneira de viver o absurdo. Eu leio e fico pensando nas mulheres envolvidas... especialmente naquela que continuava sendo sua esposa enquanto ele se apaixonava por outras. A filosofia pode explicar uma escolha; quem convive com ela precisa lidar com suas consequências.

 

Nietzsche apaixonou-se por Lou Salomé e quis se casar com ela. Lou recusou. A relação terminou de forma dolorosa, mas seria uma simplificação atribuir àquela rejeição seu adoecimento ou explicar toda a sua visão sobre as mulheres a partir dela. Lou também tinha pensamento próprio, interesses e uma vida que não precisava ser organizada em função do desejo dele. Isso costuma desaparecer quando contamos a história pelo sofrimento do homem que não foi escolhido.

 

Essas duas histórias me deixam uma inquietação. Quanto do que chamamos de amor suporta a vontade de outra pessoa? É fácil falar em liberdade quando se deseja amar várias mulheres. Quero saber como essa liberdade é compreendida quando uma delas decide que não quer ficar... Tenho observado homens que admiram uma mulher enquanto acreditam que serão correspondidos. Gostam da inteligência, da autonomia, da firmeza. Até que ela usa tudo isso para tomar uma decisão que os desagrada. A partir daí, começam as pequenas crueldades...

 

uma ironia, uma tentativa de diminuir, uma provocação calculada para ver se ainda conseguem alguma reação. Conheço um assim. Não tem a obra de Nietzsche, mas tem bastante disposição para dar importância filosófica à própria frustração.

 

Talvez exista sentimento ali. Não acho que o ego ferido exclua, automaticamente, o afeto. Podemos desejar alguém, sentir falta e, ao mesmo tempo, alimentar expectativas que essa pessoa nunca se comprometeu a atender. O que me incomoda é a facilidade com que o sofrimento passa a servir de justificativa para constranger quem não correspondeu.

 

Há quem interprete um afastamento como desafio e uma recusa como provocação. Continua insistindo, procurando alguma brecha, convencido de que sabe melhor do que a própria mulher o que ela sente. E, se ela mantém a decisão, vem o deboche... como se desqualificá-la pudesse desfazer o desejo que ele teve.

Também me pergunto sobre quem precisa ser amado por muitas pessoas. Seria excesso de amor ou uma necessidade constante de se sentir desejado? Não tenho como saber o que faltava a Camus, tampouco o que Nietzsche esperava encontrar em Lou. Tenho minhas perguntas, minhas leituras e alguns homens conhecidos que ajudam bastante nessas reflexões.

 

O amor não correspondido pode doer muito. Quem já passou por isso sabe. Mas, quando alguém começa a querer que o outro pague por essa dor, eu desconfio da história que está sendo contada.

 

Ele queria tanto aquela mulher... mas conseguia amá-la tendo de aceitar que ela não o queria?

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 21/10/2026
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