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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


ENTRE QUATRO PAREDES, NINGUÉM PRECISA SER MORALMENTE PERFEITO...

 

Existe uma frase antiga, dura, incômoda e carregada de um peso cultural que precisa ser reconhecido antes de qualquer coisa:

 

“uma mulher de verdade é aquela que é puta entra 4 paredes e santa para a sociedade”.

 

Eu não gosto da obrigação escondida nela, nem dessa ideia de que cabe à mulher representar pureza em público e disponibilidade sexual no privado. Mas, tirando a camada machista da frase e olhando para o que ela tenta dizer sobre intimidade, existe ali uma provocação que continua atual... " talvez os relacionamentos mais fortes sejam aqueles em que duas pessoas conseguem ser socialmente responsáveis e, ao mesmo tempo, absolutamente livres dentro do espaço que pertence apenas a elas."

 

Não estou falando de ausência de limites. Muito menos de desrespeito. Falo daquela liberdade que só existe quando duas pessoas adultas conseguem se despir não apenas da roupa, mas da obrigação permanente de parecer corretas. Porque nós aprendemos desde cedo a administrar versões de nós mesmos. Existe a mulher profissional, a mãe, a empresária, a liderança, o homem respeitado, o executivo, o pai, o sujeito racional. Cada ambiente exige algum nível de comportamento. O problema começa quando esse personagem social atravessa a porta do quarto e continua sentado na cama julgando tudo.

 

Carl Jung

trabalhou profundamente a ideia da sombra, aquilo que colocamos para fora da consciência porque não combina com a imagem que queremos apresentar ao mundo. Nem toda sombra é destrutiva. Muitas vezes ela simplesmente contém desejos, impulsos, fantasias e formas de prazer que aprendemos a esconder porque alguém, em algum momento, decidiu que eram inadequadas. O relacionamento íntimo talvez seja um dos poucos lugares onde essa sombra pode ser mostrada com segurança, desde que exista consentimento, confiança e respeito.

 

E isso muda completamente a noção de intimidade...

 

Há casais que conhecem a senha do telefone um do outro, compartilham conta bancária, dormem juntos há vinte anos, criaram filhos e ainda assim não sabem o que o outro deseja quando ninguém está olhando. Nesse sentido, morar junto não significa necessariamente intimidade. Intimidade começa quando alguém consegue dizer “existe uma parte minha que talvez você ache estranha” e o outro responde “me mostra”.

 

Esther Perel

escreve justamente sobre uma das contradições mais difíceis das relações contemporâneas. Queremos segurança, mas também desejamos mistério. Queremos pertencer, mas não queremos que o outro deixe de ser alguém capaz de nos surpreender. Queremos estabilidade emocional sem transformar o parceiro em uma extensão previsível de nós mesmos. Para Perel, desejo e familiaridade nem sempre caminham naturalmente juntos. O erotismo precisa de algum espaço para o desconhecido.

 

Talvez seja isso que tantos relacionamentos tornem-se administrativamente eficientes e eroticamente pobres!!

 

O casal aprende a pagar conta, organizar supermercado, resolver escola dos filhos, decidir reforma, planejar férias e administrar agenda. Tudo funciona. Só não existe mais descoberta. O outro ficou conhecido demais, explicado demais, enquadrado demais. E desejo não gosta muito de formulário preenchido.

 

Quando duas pessoas conseguem manter um lugar onde ainda possam brincar com aquilo que socialmente precisam controlar, algo diferente acontece. Dentro daquele espaço privado, podem existir personagens, inversão de papéis, fantasias, roupas, comandos, submissão, domínio, voyeurismo, jogos de ciúme, delicadeza ou brutalidade consentida. Nada disso necessariamente define o caráter de alguém. Define apenas uma linguagem íntima construída entre duas pessoas.

 

Aliás, talvez um dos erros mais comuns seja confundir fantasia com identidade moral...

 

Uma mulher pode desejar coisas sexualmente intensas e continuar sendo uma profissional absolutamente respeitada... Um homem pode gostar de ocupar posições consideradas socialmente pouco masculinas e continuar sendo seguro, competente e responsável! Uma pessoa pode comandar equipes durante o dia e desejar obedecer dentro do quarto...haha (e isso é real!!) Outra pode passar a vida cuidando de todo mundo e encontrar prazer justamente em ser conduzida por algumas horas.

 

Não há incoerência nisso.

Existe humanidade.

 

Somos muito mais contraditórios do que as categorias que criamos para explicar uns aos outros...

 

Michel Foucault

mostrou como a sexualidade nunca foi apenas questão privada. Sociedades sempre criaram discursos para definir o que seria normal, aceitável, saudável ou desviante. Controlar sexualidade também sempre significou controlar comportamento. Talvez isso exista tanta angústia quando alguém percebe que deseja alguma coisa que não corresponde ao papel social que desempenha. Não é necessariamente o desejo que assusta. É a possibilidade de ser descoberto desejando.

 

Por isso considero tão significativa uma frase aparentemente simples quando surge dentro de uma relação:

 

“eu me sinto bem porque você me aceita como eu sou.”

 

Existe uma nudez enorme nisso.

 

Ser considerado bonito não exige muita coragem. Ser desejado também não. Mas mostrar aquilo que escondemos e perceber que continuamos desejados é outra história... E exatamente aí que relacionamento humano deixe de ser representação e comece a se tornar encontro. Ainda assim, não acredito na velha lógica de que cabe à mulher transformar o homem, sustentar sua carreira, organizar emocionalmente sua vida e ainda atender às expectativas sexuais da relação. Isso é apenas outra forma de exploração revestida de romantismo. Da mesma maneira, nenhum homem deveria carregar a obrigação de salvar emocional ou financeiramente uma mulher.

O que acredito é em parceria adulta.

 

Uma pessoa pode provocar crescimento na outra... Pode ampliar repertório... Pode oferecer visão quando o outro está preso a um problema... Pode confrontar, estimular, apoiar, celebra!. Pode ajudar alguém a enxergar capacidades que ele mesmo ainda não percebeu... Não porque seja responsável por construir aquela pessoa, mas porque relacionamentos também são lugares de desenvolvimento humano.

 

É bonito quando alguém melhora profissionalmente ao lado de alguém... É bonito quando aprende a comunicar melhor... Ou quando perde medos e ganha coragem... Ou ainda quando descobre novos interesses e se sente suficientemente seguro para experimentar outra versão de si mesmo... Tenho certeza que o amor adulto esteja nessa capacidade de permitir que o outro se expanda sem precisar controlá-lo.

 

Então eu volto àquela frase:

 

“uma mulher de verdade é aquela que é puta entra 4 paredes e santa para a sociedade”.

 

Eu ainda acho a formulação problemática... Mas entendo a inquietação que existe dentro dela!...  Talvez devêssemos abandonar a parte da “santa” e também a obrigação de ser “puta”... Uma mulher de verdade não precisa desempenhar nenhum desses papéis. Ela pode ser simplesmente inteira... Profissionalmente forte, intelectualmente interessante, socialmente responsável e sexualmente livre.

 

E o homem que estiver ao lado dela também pode ser inteiro?  sim... deve!

Forte quando quiser ou frágil quando precisar... Pois existe um colo e uma escuta sem julgamento... Assim como, o masculino sem precisar provar masculinidade é a beleza mais antiga do mundo pós-moderno... Livre para revelar aquilo que o mundo talvez não entendesse...

 

Entre quatro paredes, duas pessoas não precisam representar a sociedade, elas precisam apenas saber exatamente onde começam o desejo, o consentimento, a confiança e os limites de cada uma.

Talvez seja esse o tipo mais raro de relacionamento: aquele em que conseguimos sair para o mundo absolutamente vestidos e voltar para casa sem precisar esconder mais nada.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 17/10/2026
Alterado em 17/10/2026
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