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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


VOCÊ ESTÁ EM UM RELACIONAMENTO SÉRIO COM AS SOMBRAS DO SEU PARCEIRO?

Por que casamentos acabam: mulheres lindas são traídas e desconhecidas ouvem confissões que uma esposa talvez nunca tenha escutado?

 

Há uma pergunta que raramente fazemos quando conhecemos alguém e decidimos construir uma relação... "quanto dessa pessoa estamos realmente dispostos a conhecer?"

 

Não falo dos hábitos, do passado amoroso ou das pequenas imperfeições que aparecem com a convivência... Estou falando daquilo que ela esconde até de si mesma! Das fantasias que guarda desde a juventude, dos pensamentos que nunca conseguiu verbalizar, das experiências que gostaria de viver, mas que poderiam destruir a imagem que construiu diante da família, dos amigos e, principalmente, de quem ama...

 

Vejo casamentos terminarem depois de vinte, trinta anos... Mulheres bonitas, inteligentes, sexualmente interessantes, sendo traídas por homens que aparentemente tinham tudo!! Homens que afirmam amar suas esposas, que não desejam se separar, que mantêm uma vida doméstica organizada e, mesmo assim, procuram outras pessoas para experimentar alguma coisa que nunca tiveram coragem de pedir dentro de casa.

 

E a pergunta geralmente é a mesma... " o que faltava naquela mulher?" Entendo que essa seja a primeira pergunta que precisamos abandonar...

 

Porque a beleza de uma mulher nunca foi garantia da fidelidade de um homem; Tampouco sua inteligência, sua disponibilidade sexual ou a dedicação que oferece à família... A infidelidade não é uma competição estética na qual a pessoa traída perdeu para alguém mais atraente. E muitas veses, o que está em jogo nem sequer é a outra pessoa...

 

A psicoterapeuta Esther Perel, ao investigar a infidelidade, apresenta uma questão bastante desconcertante...

"algumas pessoas procuram fora do relacionamento não necessariamente outro parceiro, mas a possibilidade de experimentar uma versão diferente de si mesmas."

 

Isso me faz pensar nos homens que passam o dia exercendo autoridade, tomando decisões, impondo limites, sendo respeitados profissionalmente, mas que, na intimidade, desejam exatamente o contrário. Querem obedecer, ser dominados, experimentar a vulnerabilidade, vestir uma peça feminina ou sentir prazer em uma experiência que contraria tudo aquilo que aprenderam sobre masculinidade.

 

E não estou dizendo que isso acontece porque são homens frustrados, culpados ou emocionalmente doentes... Seria simplista demais explicar a complexidade do desejo humano por uma única causa psicológica... Estou dizendo que talvez o homem que dorme ao lado de uma mulher há vinte anos nunca tenha encontrado coragem para contar a ela determinados aspectos de sua sexualidade.

 

Mas também precisamos considerar que, algumas vezes, ele teve espaço para conversar e escolheu não fazê-lo! A responsabilidade pelo silêncio não pertence automaticamente a quem está do outro lado da cama.

 

Carl Jung tratou a sombra como uma dimensão da personalidade que reúne aspectos que não reconhecemos ou não aceitamos plenamente em nós mesmos. Há desejos, impulsos, sentimentos e conflitos que preferimos manter fora da imagem consciente que construímos sobre quem somos.

 

O que me interessa nessa reflexão é perceber como a convivência amorosa pode transformar duas pessoas em especialistas na rotina uma da outra e, ainda assim, mantê-las profundamente desconhecidas.

 

Uma mulher pode saber exatamente como seu marido gosta do café, quais medicamentos ele toma, quando está preocupado e como se comporta diante de uma dificuldade... Pode conhecer suas responsabilidades, seus medos financeiros e suas fragilidades familiares.

 

Mas talvez não saiba o que ele pensa quando está sozinho... Talvez nunca tenha perguntado... Talvez tenha perguntado, mas ele não respondeu... Ou talvez, quando ele tentou responder, tenha encontrado uma reação que encerrou aquela conversa para sempre.

 

Não é difícil imaginar o que acontece quando uma confidência é recebida com desprezo. Um homem revela que gosta de usar lingerie feminina, e sua parceira imediatamente questiona sua orientação sexual... Outro admite desejar submissão, e a companheira interpreta aquilo como falta de masculinidade... Uma mulher revela determinada fantasia e passa a ser tratada como vulgar por alguém que, até aquele momento, dizia amá-la.

 

O desejo passa a ser escondido porque a pessoa percebe que revelá-lo pode custar sua respeitabilidade.

 

E é nesse ponto que surge uma questão particularmente desconfortável... "por que algumas pessoas procuram profissionais do sexo?"

 

Antes de responder, precisamos abandonar a ideia de que toda procura por sexo pago possui a mesma motivação. Existem razões diferentes, desde a busca por uma experiência sexual específica até a conveniência, a novidade, a solidão ou o desejo de evitar envolvimento afetivo.

 

Mas existe uma dimensão que merece atenção....

 

Em determinados encontros, o cliente encontra um ambiente no qual pode negociar uma fantasia sem precisar explicar toda a sua história!! Não precisa preservar a imagem do marido exemplar, do empresário respeitado, do homem viril que a família conhece... Pode simplesmente dizer o que procura, ouvir o que a profissional aceita oferecer e estabelecer os limites daquele encontro.

 

O serviço pode envolver muito mais do que contato físico... Às vezes, inclui escuta, discrição, acolhimento, representação de papéis e uma forma profissional de administrar a intimidade.

 

E talvez, para algumas pessoas, a possibilidade de falar sem receber imediatamente uma condenação seja parte importante daquilo que estão pagando.

 

Isso não significa que profissionais do sexo aceitem qualquer prática ou que sejam responsáveis por satisfazer todos os desejos de seus clientes. Elas possuem limites, vontade própria e direito de recusa... Há trabalho emocional envolvido, e não se pode confundir uma relação comercial com aceitação afetiva irrestrita. Ainda assim, existe algo que merece ser observado...

 

Uma pessoa pode pagar para viver, durante uma hora, uma liberdade que não consegue negociar em anos de convivência conjugal.

 

É perturbador pensar nisso.

 

Principalmente quando percebemos que o dinheiro não compra apenas acesso a uma experiência sexual... Em alguns casos, compra também discrição, previsibilidade e a possibilidade de interromper o encontro sem precisar enfrentar as consequências emocionais de uma revelação dentro do casamento!

 

E por que essa liberdade não existe em casa?... Talvez porque os relacionamentos sejam construídos sobre expectativas que se tornam cada vez mais rígidas.

 

A mulher deseja continuar admirando o homem por quem se apaixonou... O homem deseja preservar a imagem que o tornou desejável aos olhos dela... E ambos aprendem a desempenhar os papéis que acreditam sustentar a relação.

 

O problema é que as pessoas mudam...

 

Os desejos se modificam... A sexualidade não permanece necessariamente igual aos vinte, quarenta ou sessenta anos. E nem tudo aquilo que sentimos precisa fazer sentido para quem está ao nosso lado.

 

Talvez o amadurecimento amoroso envolva compreender isso...

 

O amor não exige que alguém participe de todas as fantasias do outro... Uma mulher não precisa desejar a submissão porque seu parceiro deseja dominar... Não precisa gostar de determinada prática para reconhecer que o companheiro pode sentir prazer nela e que também não precisa transformar a própria sexualidade em instrumento de satisfação permanente de outra pessoa.

 

O mesmo vale para os homens diante dos desejos femininos...

 

Existe uma diferença enorme entre reconhecer a existência de um desejo e concordar em realizá-lo.

 

Acolher não significa consentir!

 

Mas também existe uma diferença entre dizer "isso não é para mim" e fazer alguém sentir vergonha por ter confiado em nós...

 

Carl Rogers, ao desenvolver sua abordagem centrada na pessoa, valorizou a capacidade de compreender o outro sem reduzi-lo imediatamente a um julgamento. Penso que falta um pouco dessa disposição nas relações íntimas.

 

Falta curiosidade genuína.

 

✨️Falta capacidade de ouvir uma confissão sem transformá-la numa investigação policial sobre a personalidade de quem a fez.

 

✨️Falta maturidade para reconhecer que uma fantasia sexual não determina, sozinha, o caráter de uma pessoa.

 

E, sobretudo, falta compreender que o desejo humano não foi construído para obedecer integralmente às expectativas sociais.

 

Mas quero deixar algo muito claro... Nenhuma dessas reflexões absolve quem trai.

 

Há pessoas que traem porque desejam variedade, porque buscam reconhecimento, porque se sentem negligenciadas ou porque não assumem integralmente os compromissos que fizeram. Há quem queira preservar as vantagens do casamento e, simultaneamente, experimentar a liberdade de uma vida paralela. E há quem traia apesar de ter encontrado um parceiro disposto a conversar sobre sexualidade sem preconceitos.

 

Não podemos transformar a falta de diálogo em uma desculpa universal para a infidelidade... Seria injusto, principalmente com tantas mulheres que já passaram anos tentando compreender homens que jamais demonstraram a mesma disposição para compreendê-las.

 

O que estou questionando é outra coisa! É o por que ainda confundimos intimidade com posse? Por que imaginamos que amar alguém significa conhecer, controlar ou aprovar todos os seus pensamentos? Por que a descoberta de uma fantasia inesperada pode ser recebida como uma ameaça ao relacionamento, mesmo quando não envolve mentira, violência ou desrespeito?

 

E por que algumas pessoas preferem perder um casamento inteiro a permitir que o parceiro conheça determinada parte de sua existência?

 

Consigo compreender porque ser desejado seja muito mais fácil do que ser conhecido.

 

O desejo permite representar! Podemos escolher a roupa, a postura, as palavras, a versão mais interessante de nós mesmos. O conhecimento profundo retira parte desse controle. Ele nos expõe à possibilidade de que alguém descubra aquilo que passamos a vida tentando esconder.

 

E essa descoberta pode mudar tanta coisa... 

 

Olho para a imagem de uma mulher deitada ao lado de uma criatura de chifres enormes... Os dois dividem a cama e um livro... Há uma tranquilidade estranha na cena.! Ele não esconde sua aparência... Ela não parece empenhada em transformá-lo em outra coisa.

 

O que mais me impressiona não é a figura monstruosa....É a possibilidade de que aquela mulher já saiba com quem está dividindo a cama.

 

E que ambos tenham encontrado uma forma de conviver com esse conhecimento.

 

Não sei se isso representa amor!! Talvez represente uma intimidade rara, construída a partir de conversas que a maioria dos casais evita durante toda a vida.

 

Também não sei se essa mulher seria capaz de acolher tudo o que aquele homem pudesse revelar... Ninguém deveria prometer uma aceitação sem limites.

 

Mas gosto de imaginar que, naquela cama, exista espaço para uma pergunta que quase nunca fazemos com verdadeira disposição de ouvir a resposta.

 

"Existe alguma coisa sobre você que ainda tem medo de me contar?"

 

Penso nos casais que envelhecem juntos sem nunca fazer essa pergunta. Nos homens que passam a vida escondendo seus desejos. Nas mulheres que aprenderam a silenciar suas fantasias para continuar sendo consideradas respeitáveis. Nas pessoas que procuram desconhecidos porque acreditam que a intimidade com alguém próximo se tornou perigosa demais para certas verdades.

 

E penso, principalmente, em quantas relações poderiam ser diferentes se a sinceridade não fosse tratada como uma ameaça.

 

Não afirmo que os casamentos acabem porque desconhecemos as sombras dos nossos parceiros. Casamentos também terminam por desamor, violência, desgaste, incompatibilidade, escolhas individuais e uma infinidade de acontecimentos que não cabem numa explicação única.

 

Mas desconfio que alguns relacionamentos sobrevivem durante anos sustentados por uma ignorância cuidadosamente preservada...

 

Duas pessoas continuam juntas porque sabem exatamente o que não devem perguntar! rss

 

E, enquanto isso, a parte mais escondida de cada uma permanece procurando um lugar onde possa existir...

 

O ponto mais importante aqui não seja descobrir se você está casada com um homem bom, um homem difícil ou um homem cheio de segredos... Mas, seja descobrir se você conhece suficientemente aquele homem para compreender quem ele é quando não está tentando corresponder às suas expectativas.

 

E se ele também conhece a mulher que existe em você quando já não precisa representar o papel de esposa, companheira ou amante ideal.... Porque ninguém chega inteiramente transparente a um relacionamento.

 

Sempre carregamos alguma coisa que ainda não sabemos como revelar...

 

A questão é o que fazemos quando alguém finalmente encontra coragem para abrir essa parte de sua vida diante de nós.

 

E, principalmente, o que essa pessoa faz com a confiança que recebeu.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 11/10/2026
Alterado em 11/10/2026
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