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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O QUE VOCÊ FARIA SE CONHECESSE AS SOMBRAS DE QUEM AMA?

Crônica reflexiva | Psicologia, erotismo e intimidade humana

 

Ontem, durante uma conversa com uma amiga, eu disse algo que venho pensando há bastante tempo... talvez os relacionamentos não terminem por falta de amor, mas pela incapacidade de suportarmos aquilo que descobrimos sobre quem amamos.

 

E não estou falando das incompatibilidades comuns, das diferenças de personalidade ou dos defeitos que aparecem na convivência. falo daquilo que uma pessoa carrega durante anos sem coragem de revelar... tipo, dos desejos que nunca confessou, das fantasias que aprendeu a esconder, das necessidades que não consegue explicar e dos pensamentos que jamais colocaria diante de alguém capaz de transformá-los em motivo de vergonha.

 

Todo ser humano possui uma vida interior que não corresponde inteiramente à imagem que apresenta ao mundo. Existe o homem respeitado, o marido dedicado, o profissional admirado, o pai presente... e existe também aquele outro homem, que ninguém conhece, às vezes nem ele próprio.

 

Carl Gustav Jung chamou de sombra essa dimensão da personalidade que reúne aspectos rejeitados, reprimidos ou pouco reconhecidos pela consciência. E há algo profundamente desconfortável nessa concepção... Que é da sombra que não pertence exclusivamente às pessoas que consideramos más. Ela pertence a todos nós. Inclusive àqueles que se orgulham de sua integridade, de sua disciplina e de sua aparente normalidade.

 

Penso nisso quando observo a facilidade com que a sociedade transforma comportamentos íntimos em julgamentos sobre o caráter de alguém.

 

Um homem pode passar a vida inteira desejando vestir uma peça delicada, experimentar uma expressão feminina do próprio corpo, sentir-se bonito em uma roupa que lhe disseram não pertencer ao seu sexo. Pode desejar ser dominado, receber ordens, experimentar a dor como parte do prazer ou abandonar, durante algumas horas, a autoridade que exerce diariamente.

 

E o que exatamente essas experiências dizem sobre ele?

 

Talvez muito... Talvez absolutamente nada daquilo que imaginamos!

 

Nem todo homem que deseja ser dominado está tentando compensar alguma culpa. Nem todo desejo de dor representa sofrimento psicológico. Nem toda fantasia incomum revela um transtorno. A sexualidade humana é mais complexa do que as explicações apressadas que costumamos oferecer quando encontramos alguma coisa que não compreendemos.

 

O problema começa quando acreditamos que compreender o desejo exige necessariamente classificá-lo.

 

A psiquiatria contemporânea reconhece uma diferença importante entre interesses sexuais atípicos e condições que envolvem sofrimento clinicamente significativo, prejuízo ou dano a outras pessoas. Ainda assim, no julgamento cotidiano, essa distinção costuma desaparecer. Basta que alguém confesse gostar de algo fora das expectativas sociais para que surjam as perguntas sobre sua masculinidade, sua sanidade, sua infância ou aquilo que supostamente lhe faltou.

 

Poucos perguntam se aquela pessoa está feliz. Menos ainda se ela sofre justamente porque nunca encontrou alguém com quem pudesse conversar.

 

Georges Bataille, ao investigar o erotismo, compreendeu que o desejo humano mantém uma relação profunda com os interditos. O proibido, o sagrado, a transgressão e a angústia atravessam nossa experiência erótica. Nem sempre desejamos apenas aquilo que conseguimos justificar. Há impulsos que antecedem nossas explicações e continuam existindo apesar delas.

 

Pierre Klossowski também explorou, em sua literatura e filosofia, as contradições entre desejo, identidade e representação. Seus personagens e suas reflexões nos colocam diante de uma questão perturbadora: até que ponto conhecemos alguém quando conhecemos apenas a personagem que essa pessoa aprendeu a representar?

 

É sobre isso que venho pensando.

 

Quantos homens dormem ao lado de mulheres que amam, mas não conseguem lhes contar o que verdadeiramente desejam? Quantas mulheres convivem com parceiros sem jamais revelar as próprias fantasias, temendo que a confissão destrua a imagem que construíram durante anos? Quantas pessoas procuram fora do relacionamento um espaço para viver aquilo que gostariam, antes de tudo, de conseguir conversar dentro dele?

 

Não estou justificando a infidelidade. Mentir, romper acordos e ferir a confiança de alguém continuam sendo escolhas pelas quais devemos responder. Mas me interessa compreender o que acontece antes da mentira. O momento em que uma pessoa considera sua verdade tão inaceitável que prefere inventar outra vida para abrigá-la.

 

Existe uma solidão muito particular em ser amado por alguém que não conhece partes importantes de nós.

 

E talvez exista uma solidão ainda maior em acreditar que, se essas partes fossem conhecidas, deixaríamos de ser amados.

 

Michel Foucault investigou como a sexualidade passou a ser submetida a diferentes mecanismos de vigilância, confissão e classificação. Aprendemos a falar sobre sexo, mas frequentemente sob a condição de que alguém interprete, autorize, condene ou estabeleça o significado daquilo que contamos.

 

Até nossa intimidade precisa prestar contas a uma ideia coletiva de normalidade.

 

E, no entanto, quando alguém decide revelar um segredo, sobretudo um segredo que envolve desejo, está entregando muito mais do que uma informação... Está colocando nas mãos de outra pessoa a possibilidade de ser ridicularizado, rejeitado ou tratado como alguém inferior.

 

É por isso que considero a intimidade uma das experiências mais difíceis de construir.

 

Carl Rogers, ao desenvolver sua abordagem psicológica, deu enorme importância à empatia e à aceitação da pessoa sem julgamentos prévios. Essa disposição não significa concordar com todos os comportamentos, mas permitir que alguém exista diante de nós sem precisar se defender o tempo inteiro.

 

Imagino o que aconteceria se levássemos um pouco dessa compreensão para nossas relações amorosas.

 

Se, diante de uma confissão inesperada, nossa primeira reação não fosse perguntar o que há de errado com o outro... Se conseguíssemos escutar antes de interpretar... Se entendêssemos que um desejo não é necessariamente uma intenção, uma fantasia não é obrigatoriamente uma necessidade de realização e uma pessoa não se resume ao conteúdo de seus pensamentos mais secretos.

 

Talvez descobríssemos que muitos daqueles que chamamos de estranhos apenas tiveram menos disposição para mentir sobre si mesmos.

 

Mas há uma questão que considero indispensável... Que é a de acolher a sombra de alguém não significa participar de tudo o que essa pessoa deseja. Não significa transformar sofrimento em prova de amor, aceitar violência, abandonar limites ou assumir a responsabilidade de satisfazer fantasias que não nos pertencem.

 

Uma coisa é ouvir um homem dizer que deseja experimentar a submissão ou a dor em um encontro consentido. Outra, completamente diferente, é permitir que seu desejo ultrapasse a liberdade, a integridade ou a vontade de outra pessoa.

 

Compreensão não elimina responsabilidade...

 

O amor também precisa reconhecer a diferença entre o desejo que pode ser compartilhado e aquele que não deve ser realizado. Entre o segredo que pertence à intimidade individual e o segredo que encobre uma traição. Entre uma fantasia e uma conduta que produz dano.

 

Talvez essa seja a parte mais madura da experiência amorosa... que é conseguir conhecer o outro sem se sentir obrigado a aprovar tudo, e conseguir discordar sem transformar essa diferença em humilhação.

 

Volto, então, à imagem que acompanha este texto.

 

Uma mulher vestida de branco diante de uma criatura escura, de corpo imponente e chifres enormes. Seria fácil interpretar a cena como o encontro entre a inocência e o mal. Mas essa leitura me parece limitada demais para aquilo que somos.

 

Prefiro imaginar que aquela mulher está diante de alguém que finalmente encontrou coragem para abandonar a aparência que sustentava diante do mundo.

 

Ela não está ajoelhada. Não parece implorar. Aproxima a mão do rosto daquela criatura e permanece ali, suficientemente perto para enxergar o que antes talvez lhe causasse medo.

 

Não sabemos se ela ficará... Não sabemos se desejará conhecê-lo mais profundamente... E nem mesmo sabemos se aquilo que ele mostra é tudo o que existe dentro dele!

 

Mas aquele instante contém alguma coisa que me interessa muito mais do que as promessas tradicionais de amor eterno...

 

A possibilidade de alguém ser visto sem ser imediatamente condenado.

 

Porque é relativamente fácil amar o homem admirável, a mulher elegante, o companheiro equilibrado, a pessoa que corresponde às nossas expectativas. Difícil é descobrir que a pessoa que nos desperta ternura também possui desejos que nos desconcertam, pensamentos que contrariam nossas crenças e necessidades que jamais imaginamos.

 

Às vezes, a revelação modifica o desejo que sentimos por ela... Às vezes, aproxima... Em outras, estabelece uma incompatibilidade que não pode ser ignorada.

 

E tudo bem que isso aconteça.

 

A intimidade não promete que continuaremos juntos depois de conhecer a verdade. Ela oferece apenas a possibilidade de que nossa decisão seja tomada diante de alguém real.

 

Continuo acreditando que boa parte das relações fracassa porque aprendemos a exigir transparência sem desenvolver maturidade para recebê-la! Queremos sinceridade, desde que ela confirme aquilo que gostaríamos de ouvir! Queremos conhecer profundamente, desde que a descoberta não ameace a imagem que construímos...

 

Pedimos que o outro seja verdadeiro, mas nem sempre estamos preparados para a verdade que ele pode trazer.

 

Ontem, naquela conversa, percebi que talvez eu não estivesse falando apenas de relacionamentos. Estava falando da enorme quantidade de pessoas que atravessam a vida acompanhadas, casadas, desejadas, admiradas... e profundamente desconhecidas.

 

Pessoas que nunca tiveram a experiência de pronunciar seus pensamentos mais difíceis e encontrar, do outro lado, alguém disposto a escutá-los sem transformar a confissão em sentença.

 

Não sei se existe amor capaz de acolher todas as sombras. Desconfio até de quem afirma possuir tamanha capacidade.

 

Mas existe algo profundamente humano em não fazer do medo alheio uma oportunidade de julgamento.

 

E penso que, para algumas pessoas, o gesto mais íntimo que poderão experimentar durante toda a existência não será uma noite de sexo, uma declaração apaixonada ou uma promessa de permanência.

 

Será o dia em que finalmente conseguirem dizer quem são, o que desejam, o que escondem há tantos anos...

 

E, depois de tudo, encontrarem alguém que ainda consiga olhá-las nos olhos com admiração,  confiança, doçura e cumplicidade...

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 11/10/2026
Alterado em 11/10/2026
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