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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Poder depende de consentimento. E talvez esse seja o problema do Brasil.

 

“Política é sobre poder. Poder depende de consentimento.”

 

Fiquei presa nessa frase.

 

Porque talvez ela explique mais do Brasil de 2026 do que boa parte dos discursos que ouvimos durante esta eleição.

 

Quando pensamos em poder, quase sempre olhamos para Brasília. Presidente da República, Congresso, Supremo Tribunal Federal. Só que poder é muito maior do que cargo. Poder está em quem decide, em quem influencia quem decide, em quem controla dinheiro, em quem consegue produzir uma narrativa e, principalmente, em quem consegue fazer uma parcela da sociedade aceitar aquela narrativa como verdade.

 

Consentimento não é necessariamente concordância.

 

Às vezes é silêncio... é conveniência.... é medo! E muitas vezes é simplesmente a decisão de não questionar aquilo que favorece o lado que escolhemos defender.

 

Olhe o Brasil de agora.

 

Temos um Supremo que ocupa uma posição absolutamente central na vida política brasileira. Isso não começou nesta eleição. Nos últimos anos, inúmeras crises políticas, investigações e conflitos institucionais chegaram ao STF. Jair Bolsonaro foi condenado pela Corte na ação sobre a tentativa de golpe e permanece em prisão domiciliar; Eduardo Bolsonaro também foi condenado, em junho deste ano, por coação no curso do processo relacionado ao julgamento do pai.

 

Ao mesmo tempo, o próprio Supremo passou a enfrentar questionamentos públicos sobre as relações de alguns de seus integrantes com personagens envolvidos no caso Banco Master. Reportagens recentes revelaram viagens, encontros, contratos e relações pessoais envolvendo ministros, familiares ou pessoas próximas a eles e Daniel Vorcaro. Isso não significa automaticamente crime ou participação nas fraudes investigadas. Significa que existe uma questão institucional séria sobre confiança, aparência de imparcialidade, impedimento e transparência que não deveria ser tratada como torcida organizada.

 

Aliás, o caso Master talvez seja o melhor exemplo de como o poder brasileiro realmente funciona.

 

Não cabe numa camiseta vermelha nem numa camiseta verde e amarela...

 

A investigação da Polícia Federal aponta suspeitas de fraudes bilionárias no sistema financeiro. Em março, o STF determinou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro e de outros investigados diante do que foi descrito como risco de interferência nas investigações; posteriormente, a Segunda Turma manteve as prisões por unanimidade.

 

Mas quando as conexões políticas começam a aparecer, surge aquela dificuldade tipicamente brasileira: cada grupo procura desesperadamente descobrir de quem é o escândalo.

 

É da esquerda?

É direita?

É Centrão?

Ou é STF?

 

E não é esse o questionamento... Precisamos ir no incômodo real, de questionar... "como um centro de poder econômico consegue circular com tanta facilidade entre empresários, políticos, instituições, escritórios, autoridades e diferentes campos ideológicos?""

 

Porque dinheiro não precisa votar, ele precisa mesmo é de acesso... E acesso é poder!

 

O curioso é que a percepção pública nem sempre acompanha a distribuição real das relações políticas. Pesquisa citada pela Folha mostrou que muitos eleitores associaram o escândalo Master mais à esquerda, embora as conexões reveladas alcancem personagens de diferentes campos políticos, incluindo direita e Centrão.

 

Isso nos leva novamente ao consentimento...

 

Quem controla a interpretação de um fato muitas vezes exerce tanto poder quanto quem protagonizou o próprio fato.

 

E chegamos aos Bolsonaro! 

 

Poucas são as famílias que tenham compreendido tão bem a política contemporânea brasileira como um sistema de identidade, como eles...

 

Jair Bolsonaro deixou de ser apenas um político há muito tempo. Tornou-se uma identidade para milhões de brasileiros. Agora, em 2026, Flávio Bolsonaro tenta transformar essa identidade herdada em capital eleitoral próprio. A eleição ocorre com Jair Bolsonaro condenado e fora da disputa, enquanto Flávio carrega simultaneamente o sobrenome, a base política e os conflitos que acompanham essa herança.

 

Esse é um poder curioso...

 

Porque quando uma liderança consegue fazer seu eleitor interpretar qualquer crítica como perseguição, qualquer investigação como conspiração e qualquer derrota como injustiça, ela já conquistou algo muito maior que um voto.

 

Conquistou o filtro pelo qual aquela pessoa enxerga a realidade... Mas seria confortável demais parar por aí.

 

Porque a esquerda brasileira também construiu os seus próprios mecanismos de consentimento.

 

Lula é provavelmente o exemplo mais extraordinário disso!

 

É impossível compreender sua força política olhando apenas para processos judiciais, índices econômicos ou campanhas eleitorais. Existe uma memória social ligada ao seu nome. Ascensão de renda, emprego, programas sociais, universidade, salário mínimo, Nordeste, sindicalismo, origem popular. Para milhões de pessoas, Lula não é somente um candidato. Ele representa uma trajetória do próprio país.

 

Só que memória política também cobra preço...

 

Depois de décadas no centro da política brasileira, seu nome carrega realizações, mas também o desgaste produzido pelos escândalos associados ao PT, pelas alianças feitas para governar e pela própria permanência de Lula como personagem praticamente insubstituível dentro de seu campo político.

 

Nesta eleição de 2026, Lula chegou às urnas enfrentando forte desgaste e rejeição, enquanto também tenta preservar a identificação histórica de parte do eleitorado com seus governos. Às vésperas da votação, pesquisas mostravam uma disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro, e diferentes institutos apontavam a possibilidade concreta de segundo turno.

 

E aqui encontramos talvez a questão central desta eleição... O brasileiro está escolhendo projetos de país ou está escolhendo qual história aceita acreditar?

 

Porque existe o poder institucional do STF... Existe o poder econômico revelado pelas relações do caso Master... E existe o poder familiar e simbólico dos Bolsonaro, assim como, existe o poder histórico e popular de Lula...

 

Além do poder do Congresso, que hoje controla parcela enorme do orçamento e da capacidade de negociação política... têm o poder da mídia, dos algoritmos, das igrejas... Dos empresários.

 

E existe um poder que quase nunca colocamos nessa lista....

O nosso!!

 

O eleitor também concede poder. Não apenas quando digita um número na urna.

 

Concede quando deixa de cobrar o político porque votou nele... Quando relativiza corrupção porque aconteceu no seu campo ideológico.

 

Quando chama decisão judicial de correta ou absurda dependendo apenas de quem foi atingido.

 

Quando aceita uma notícia sem conferir porque ela confirma aquilo em que já acreditava... Quando exige investigação sobre o adversário e silêncio sobre o aliado.

 

É aí que aquela frase retorna com uma força enorme:

 

"O poder depende de consentimento."

 

Nenhum sistema político consegue sobreviver sustentado somente pela força.

 

Ele precisa que uma quantidade suficiente de pessoas aceite suas regras, suas instituições e alguma legitimidade nas decisões tomadas.

 

Só que uma democracia exige uma coisa a mais... O consentimento precisa poder ser retirado! Como, o presidente precisa saber que pode perder eleição... Assim como, o parlamentar precisa saber que pode perder mandato... Ministro precisa saber que sua atuação estará sujeita a crítica e escrutínio institucional.

 

Da mesma forma, que um empresário precisa saber que relacionamento político não substitui conformidade... E eleitor precisa compreender que voto não é casamento.

 

O maior problema político brasileiro é ...

 

"Nós transformamos escolhas políticas em identidade pessoal."

 

E quando isso acontece, criticar um político deixa de ser analisar um agente público e passa a ser interpretado como atacar quem votou nele.

 

A partir daí fica muito fácil exercer poder.

Basta alimentar pertencimentos.

 

O Brasil chega às urnas neste 4 de outubro de 2026 em uma eleição marcada por polarização, preocupações econômicas, denúncias, investigações e disputas envolvendo justamente algumas das instituições e grupos mais poderosos do país.

 

Talvez por isso esta eleição não seja apenas sobre Lula ou Flávio Bolsonaro.

 

Há uma pergunta anterior.

 

A quem estamos dispostos a entregar poder sem continuar fazendo perguntas?

 

Porque escolher alguém é democracia.

Fiscalizar quem escolhemos também.

 

É exatamente aí que comece a diferença entre eleitor e cidadão.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 04/10/2026
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