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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A vulnerabilidade de partir...

Ir embora também exige entrega. Quando a gente sai de casa para ganhar o mundo, a gente não leva garantia nenhuma. Leva desejo, curiosidade, coragem, medo e a possibilidade de dar errado. A gente fica vulnerável ao desconhecido porque deixa para trás aquilo que já conhece. Mas existe uma segurança silenciosa nisso: saber que, se algo desabar, ainda existe um caminho de volta.

 

Nos relacionamentos acontece algo parecido. Quando a gente conhece alguém, a primeira aproximação é quase toda feita de superfície. O jeito de falar, os olhos, a boca, o cabelo, a forma de andar, de se vestir, de tocar. A gente percebe muita coisa, mas ainda não conhece o íntimo. Não sabe como aquela pessoa ama, como foge, como reage ao medo, como lida com ciúme, com ausência, com desejo, com liberdade. Isso só aparece depois. E até esse depois chegar, todo encontro é uma espécie de território novo.

 

Foi nisso que algumas experiências me ensinaram muito. Silvio Machado ou simplesmente Silroad saxman (in memoria) , por exemplo, me apresentou outra compreensão sobre monogamia e não monogamia. Não como teoria apenas, mas como experiência emocional. A ideia de que, em determinados momentos, você pode se permitir sentir algo verdadeiro por alguém sem necessariamente transformar esse sentimento em posse, promessa ou permanência. E isso exige vulnerabilidade, porque você se entrega ao que está sentindo naquele instante sem saber exatamente no que aquilo vai se transformar.

 

Mas existe um preço nisso. Quando você se permite viver um sentimento com liberdade, outras pessoas ao seu redor também ficam vulneráveis. Porque sentimento nunca acontece isolado. Ele atravessa quem ama, quem espera, quem deseja ficar. E, muitas vezes, quando você escolhe seguir, alguém pode interpretar essa partida como crueldade. Como se o fim invalidasse tudo que aconteceu antes.

 

Eu não vejo assim.

 

Às vezes uma pessoa entregou para você o que tinha de mais bonito naquele momento. E você recebeu. Cuidou enquanto pôde. Viveu aquilo. Talvez tenha feito aquela pessoa feliz por algum tempo. Talvez também tenha sido feliz. E depois precisou continuar.

 

Nem toda despedida significa que alguém foi usado. Nem toda relação que termina foi falsa. Nem todo amor precisa durar para ter sido verdadeiro.

 

A vulnerabilidade também está em aceitar isso. Em admitir que algumas pessoas entram na nossa vida para caminhar um trecho, não o caminho inteiro. E que receber o amor de alguém cria responsabilidade, sim, mas não uma obrigação de permanecer para sempre.

 

Talvez maturidade seja justamente aprender a partir sem destruir aquilo que existiu. Agradecer o que foi dado. Reconhecer o que recebeu. Não diminuir a história apenas porque acabou.

 

E, principalmente, entender que ir embora não significa necessariamente abandonar.

 

Às vezes, ir embora é só reconhecer que aquele lugar já cumpriu o que tinha para cumprir.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 01/10/2026
Alterado em 01/10/2026
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