google.com, pub-2061508496645724, DIRECT, f08c47fec0942fa0

... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Carta às pessoas que dediquei à minha vulnerável...

Talvez vocês nunca tenham entendido exatamente o que eu permiti que conhecessem de mim. E talvez eu mesma só tenha entendido isso agora. Durante muito tempo achei que vulnerabilidade fosse apenas falar de sentimentos, confessar medo, dizer que sentia falta, admitir que alguém me tocava de um jeito diferente. Hoje eu sei que fui vulnerável de formas muito mais profundas. Fui vulnerável quando permiti que alguém conhecesse meu corpo para além do comum, quando confiei a ponto de me colocar em situações em que eu precisava acreditar que aquela pessoa saberia até onde podia ir. Houve momentos em que eu entreguei mais do que prazer. Entreguei confiança. Entreguei controle. Entreguei uma parte de mim que, naquele instante, dependia da responsabilidade do outro.

 

Também fui vulnerável quando deixei alguém realizar em mim aquilo que mais desejava, mesmo sabendo que no outro dia provavelmente iria embora. Eu sabia. Não houve promessa, não houve ilusão construída por ninguém. Ainda assim, houve entrega. E existe uma espécie de coragem estranha nisso, em viver algo sabendo que não será permanente. Permitir o toque, o desejo, a intimidade, mesmo sabendo que aquilo talvez acabasse antes de começar de verdade. Às vezes a vulnerabilidade não está em acreditar que alguém ficará. Às vezes está justamente em saber que não ficará e, mesmo assim, decidir viver.

 

Fui vulnerável também de outra forma, quando alguém me mostrou aquilo que não mostra para qualquer pessoa. Desejos, fantasias, loucuras, coisas que talvez não fossem ditas num primeiro momento para alguém qualquer. E ali eu percebi que intimidade não acontece só quando alguém tira a roupa. Às vezes uma pessoa se despe diante da gente sem tirar absolutamente nada. Quando alguém revela aquilo que esconde, aquilo que teme que seja julgado, aquilo que talvez nem saiba explicar direito sobre si, também está entregando alguma coisa. E eu sei reconhecer o peso disso.

 

Talvez por isso hoje eu entenda melhor o que significa ter sido vulnerável com algumas pessoas. Não significa que todas me amaram. Não significa que todas quiseram permanecer. Não significa sequer que compreenderam o tamanho do acesso que tiveram. Mas tiveram. Algumas conheceram meu corpo profundamente. Outras conheceram minhas fraquezas. Algumas conheceram meus desejos. E houve também aquelas que colocaram nas minhas mãos partes delas mesmas que provavelmente escondiam do resto do mundo.

 

Eu não me arrependo de ter sido vulnerável. Posso me arrepender de algumas escolhas, de alguns excessos, de algumas pessoas, talvez até de ter ultrapassado limites que hoje eu observaria melhor. Mas não tenho vergonha da mulher que confiou. Não quero olhar para ela como uma mulher fraca ou ingênua. Ela estava vivendo. Desejando. Experimentando. Às vezes apaixonada, às vezes apenas curiosa, às vezes querendo sentir alguma coisa que não cabia dentro da rotina. E isso também sou eu.

 

O que eu aprendi é que me entregar não significa pertencer. Permitir que alguém conheça meu corpo não dá a essa pessoa propriedade sobre mim. Permitir que alguém veja minhas fragilidades não significa aceitar qualquer coisa em nome da intimidade. E receber os segredos de alguém também não cria uma dívida entre nós. Cada pessoa que passou por mim teve acesso a uma parte. Algumas chegaram muito perto. Outras talvez tenham chegado mais longe do que deveriam. Mas nenhuma delas levou o todo.

 

Hoje eu consigo olhar para essas histórias de outro jeito. Meu coração pode até ter ficado exposto algumas vezes, mas continuou sendo meu. Meu corpo também. Minha história também. Talvez essa seja a diferença entre vulnerabilidade e perda de si. Eu posso baixar a guarda, posso desejar, posso confiar, posso experimentar, posso amar, posso permitir que alguém chegue muito perto. Mas preciso continuar sabendo quem eu sou quando essa pessoa vai embora.

 

E eu sei.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 01/10/2026
Alterado em 01/10/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras