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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Conheci um homem que lia filosofia! Ou, pelo menos, dizia ler

Falava de autores, citava ideias, tinha opiniões definitivas sobre política, sociedade, mulheres, Estado, comportamento, moral. Quase nunca havia dúvida. Para quase tudo existia uma resposta. E geralmente uma resposta dada com aquela segurança particular de quem acredita ter compreendido o mundo antes mesmo de ter se permitido conhecê-lo.

 

Durante algum tempo eu confundi aquilo com inteligência.

 

Hoje sei que não era.

 

Não conto essa história para discutir escolaridade. Conheço gente extraordinariamente inteligente que nunca entrou numa universidade e conheço gente diplomada incapaz de sustentar cinco minutos de pensamento crítico.

 

Também não se trata de direita ou esquerda como certificado de inteligência.

 

O que me interessa é outra coisa.

 

É a incapacidade de perceber as próprias contradições.

 

Esse homem defendia uma ideia quase absoluta de independência, força individual e responsabilidade pessoal. Depois sofreu um acidente. Precisou do SUS.

 

E isso não tem absolutamente nada de errado.

 

O SUS existe exatamente para isso. A saúde é um direito constitucional e não pergunta ideologia antes de atender alguém.

 

A contradição não está em utilizar o serviço público.

 

Está em usufruir de uma construção coletiva e continuar incapaz de reconhecer que ninguém atravessa a vida completamente sozinho.

 

Nem o empresário...

Nem o trabalhador...

 

Nem o sujeito que passa horas construindo músculos numa academia.

Nem quem acredita que venceu exclusivamente pelo próprio mérito.

 

Existe estrada... hospital... Universidade. Existe escola.... saneamento. Existe fiscalização. Existe a previdência.... A  segurança pública, em fim, existem milhares de pessoas invisíveis sustentando o cotidiano que cada um de nós chama de “minha vida”.

 

E foi somente a partir de 2020 que comecei a observar essas contradições com mais atenção.

 

Também mudei.

 

Passei a estudar mais. Trabalhar com contratos, governança, licitações, orçamento, obras e políticas públicas colocou uma camada diferente sobre aquilo que eu entendia como política.

 

Política deixou de ser somente discussão de rede social.

 

Eu comecei a enxergá-la numa planilha mal elaborada, num termo de referência inconsistente, numa obra atrasada, numa contratação bem feita, numa escola entregue, num recurso federal que chegou ou não chegou ao município.

 

Quando você começa a acompanhar como o Estado funciona por dentro, algumas discussões deixam de caber em meme.

 

E talvez esse tenha sido um dos meus maiores aprendizados nesses últimos anos: informação não é conhecimento.

 

Ler também não é necessariamente compreender.

 

É perfeitamente possível atravessar centenas de páginas procurando apenas frases que confirmem aquilo em que você já acreditava.

 

Pensar é mais incômodo.

 

Pensar exige admitir: talvez eu esteja errado.

 

Exige ouvir uma pessoa de quem você discorda e, por alguns minutos, considerar seriamente a hipótese de que ela possa ter percebido alguma coisa que você não percebeu.

 

Isso vale para quem está à direita.

 

Vale para quem está à esquerda.

 

Vale para mim.

 

Estamos novamente diante de uma eleição. O primeiro turno será neste domingo, 4 de outubro. E mais de 158 milhões de brasileiros estão aptos a votar.

 

Talvez, portanto, a discussão mais importante destes dias não seja apenas em quem cada um vai votar.

 

Talvez seja perguntar que tipo de cidadão estamos nos tornando enquanto defendemos aquilo em que acreditamos.

 

Porque envelhecer acontece sozinho.

 

Amadurecer intelectualmente, não.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 30/09/2026
Alterado em 30/09/2026
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