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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Até onde vai a liberdade de um corpo?

 

 

Há quem passe a vida inteira com uma pessoa e encontre nessa escolha prazer, confiança e paz. Há quem ame alguém e continue desejando outras pessoas. O problema começa quando uma experiência é usada para medir a maturidade da outra. A monogamia pode ser uma escolha viva, feita e refeita por duas pessoas. Também pode ser apenas o costume que ninguém teve coragem de discutir. A não monogamia pode nascer de uma conversa honesta. Também pode servir de nome bonito para a conveniência de quem quer liberdade sem suportar a liberdade do parceiro.

 

O que me interessa é o instante em que o desejo deixa de ser uma ideia e entra na vida de um casal. Alguém sente atração por uma terceira pessoa. Conta ou esconde? Quer viver esse encontro ou prefere guardá-lo como fantasia? Se contar, encontrará curiosidade, medo, excitação, ciúme? Não há resposta universal para essas perguntas. Existe uma história anterior entre aquelas pessoas, e ela estará presente na conversa, mesmo quando ninguém a mencionar.

 

Bataille, em *O erotismo*, aproxima o desejo dos interditos e da transgressão. Sua obra ajuda a pensar por que um limite pode intensificar aquilo que sentimos. Não oferece, porém, uma receita para organizar relações afetivas. Posso me excitar imaginando alguém que amo nos braços de outra pessoa e, diante da possibilidade concreta, descobrir que preciso de cuidado, tempo ou até de um limite. A fantasia me pertence. Uma experiência compartilhada envolve vontades que não controlo.

 

Klossowski leva esse desconforto a um lugar ainda mais estranho em *Roberte esta noite*. O casamento, o convidado e o corpo desejado por outro entram em uma ficção que perturba a ideia de posse conjugal. Leio esse jogo com uma pergunta que me parece indispensável: quem, naquela cena, pode desejar e decidir por si? A transgressão pode ser fascinante no pensamento e cruel na vida quando uma pessoa vira personagem da fantasia de outra sem ter escolhido aquele papel.

 

Talvez por isso o ciúme mereça ser ouvido antes de ser julgado. Ele pode nascer do medo de substituição, de uma comparação que ninguém pediu para fazer ou da lembrança de uma confiança já quebrada. Às vezes, traz também uma ponta de prazer. Imaginar que outras pessoas desejam aquele corpo conhecido pode reacender o próprio desejo. Mas nenhuma dessas sensações obriga alguém a viver uma relação aberta. Sentir curiosidade não é consentir com tudo. Sentir ciúme não dá direito de vigiar.

 

E até que idade podemos nos permitir novas experiências? A pergunta parece estranha quando dita em voz alta. Ninguém estabelece uma idade máxima para ter uma vida íntima; o envelhecimento muda corpos, condições de saúde e circunstâncias, mas não apaga automaticamente o desejo. A pesquisa sobre sexualidade na vida adulta mais avançada mostra justamente a diversidade dessas experiências. Aos vinte, aos cinquenta ou aos setenta, a questão continua sendo se aquela experiência é desejada, possível e vivida com respeito. O corpo muda. A capacidade de decidir sobre ele permanece nossa.

 

Há, contudo, um ponto em que a palavra “liberdade” precisa descer do discurso. Quem deseja experimentar também precisa conseguir dizer não, mudar de ideia, pedir uma pausa. Precisa suportar a resposta do outro sem puni-lo por ela. Uma relação pode comportar mais de um vínculo; uma pessoa não precisa comportar qualquer arranjo para provar que é moderna. Estudos que comparam satisfação em relações monogâmicas e consensualmente não monogâmicas não sustentam uma superioridade geral de um modelo sobre o outro. Isso faz sentido para mim: a qualidade do que se vive depende menos do nome dado à relação do que das pessoas e das condições reais em que elas se encontram.

 

A saúde mental entra aí, no cotidiano. Como fico depois de um encontro? Consigo dormir, trabalhar, estar comigo mesma? Estou escolhendo por desejo ou tentando não perder alguém? Faço acordos que posso cumprir ou concordo com tudo e sofro em silêncio depois? Essas perguntas não servem para diagnosticar ninguém. Servem para perceber quando uma experiência que deveria ampliar a vida está consumindo toda a atenção e toda a paz de uma pessoa. Saúde sexual, na definição da OMS, inclui bem-estar físico, emocional, mental e social, além da possibilidade de experiências prazerosas e seguras, sem coerção.

 

Há ainda o cuidado material, muitas vezes esquecido quando se fala de liberdade do corpo: conversar sobre prevenção, usar métodos de proteção, conhecer o próprio estado de saúde e fazer exames conforme as práticas e os vínculos de cada um. Não há grandeza em deixar outra pessoa sem informação para decidir sobre a própria saúde.

 

Para quem ocupa uma posição de influência, outra pergunta se impõe: o que pertence à intimidade e o que pode afetar outras pessoas? Uma mulher em cargo de direção sabe que sua vida sexual pode ser julgada com uma severidade que não recai da mesma maneira sobre um homem. Esse julgamento existe e não deveria governar seu corpo. Ainda assim, discrição pode ser uma escolha de proteção da privacidade, sobretudo num meio em que comentários circulam depressa. E existe uma fronteira ética mais objetiva: relações com subordinados, fornecedores ou pessoas sobre as quais se tem poder profissional exigem atenção ao possível conflito de interesses e à liberdade real de consentimento. Vida íntima e responsabilidade profissional se encontram quando decisões de trabalho podem ser afetadas.

 

A reputação, afinal, não é só o que dizem de nós. Também é a confiança que construímos com nossas atitudes. Ninguém precisa expor a própria intimidade para demonstrar honestidade. Mas há uma diferença entre preservar a vida privada e usar o prestígio, o cargo ou o silêncio para escapar das consequências de uma escolha.

 

Continuo sem acreditar que o ser humano tenha de viver tudo o que é capaz de imaginar. Há fantasias que cumprem sua função justamente porque permanecem fantasias. Outras pedem corpo, encontro, risco e descoberta. Permitir-se experimentar pode ser um gesto de coragem. Reconhecer que algo não nos faz bem também pode ser.

 

Talvez eu queira perguntar a alguém em que país ele está e se outras mulheres desejam o corpo de que ainda me lembro. Talvez haja ciúme nessa pergunta, talvez haja apenas saudade e uma vontade de provocar. Antes de enviá-la, posso ao menos ser sincera comigo sobre o que espero ouvir. A liberdade começa a ficar mais difícil, e mais interessante, quando deixo de usá-la como resposta e passo a assumir as perguntas que ela abre.

 

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E aqui, nasce oficialmente um novo projeto em 189 paginas...

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 28/09/2026
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