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O ciúme também senta à mesaHá casais que se amam e desejam outras pessoas. Há casais que se amam e não desejam viver isso. Nenhum dos dois precisa apresentar sua escolha como sinal de evolução.
A pergunta que me interessa é mais difícil: o que acontece com a liberdade de cada um quando o desejo aparece?
A não monogamia costuma entrar na conversa cercada de palavras bonitas. Autonomia, honestidade, liberdade afetiva. Eu gosto dessas palavras, mas elas não resolvem a noite em que alguém sai para encontrar outra pessoa e quem fica em casa descobre que o acordo, tão claro durante o jantar, tem outro peso quando chega a hora de dormir.
O ciúme pode aparecer ali... Às vezes ele fala de insegurança; às vezes aponta para um limite que a pessoa ainda não sabia nomear. Também pode surgir porque um combinado foi descumprido... Tratar qualquer ciúme como atraso emocional é uma forma conveniente de deixar de ouvir quem está sofrendo.
Também não acho justo fazer do ciúme uma autorização para vigiar. Mexer no celular, exigir detalhes íntimos, contar curtidas e transformar outra mulher ou outro homem em adversário não protege relação alguma. Produz uma rotina de investigação.
E viver sob investigação, amando ou sendo amado, é exaustivo!
Liberdade afetiva exige conversa concreta... O que podemos viver com outras pessoas? O que contamos um ao outro? O que preferimos preservar na intimidade de cada encontro? Como cuidamos da saúde, do tempo e dos compromissos que já assumimos? Um acordo precisa poder ser revisto quando a experiência mostra que ele machuca. Ninguém deveria aceitar algo apenas para parecer livre, nem prometer exclusividade por medo de perder quem ama.
Talvez o ponto mais delicado seja admitir que podemos desejar coisas diferentes. Uma pessoa pode se sentir bem numa relação aberta; a outra, não... As duas podem estar falando a verdade. Amar alguém não cria, por si só, um jeito de viver que sirva para ambos.
Eu desconfio das certezas fáceis sobre esse assunto. Já vi gente chamar de liberdade o direito de fazer o que quer sem escutar a pessoa ao lado. Já vi gente chamar de amor o medo de deixar o outro sair de casa...
Entre uma coisa e outra existe uma conversa longa, por vezes desconfortável, que cada casal terá de sustentar por conta própria.
O ciúme pode sentar à mesa. Pode dizer o que teme, ouvir o que de fato aconteceu e até descobrir que aquele acordo já não serve... O que ele não pode é conduzir a vida inteira do casal.
E a liberdade, se quiser continuar sendo compartilhada, também precisa aprender a escutar. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 28/09/2026
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