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Meu amor, eu cairia outra vezNão foi o demônio que me tentou. Fui eu que me inclinei.
Havia muito tempo que o céu já não me servia. Lá em cima, ninguém sangrava, ninguém tremia, ninguém precisava do corpo para dizer que amava.
Era tudo tão limpo que chegava a ser cruel.
Então você apareceu com a noite nos olhos e uma fome antiga na boca. Não prometeu eternidade. Não pediu minha alma. Apenas tocou meu rosto como se soubesse o peso de ser santa quando tudo em mim queria ser mulher.
Eu ainda tinha asas quando te beijei.
Lembro porque elas se abriram atrás de mim, enormes, brancas, inúteis… como se tentassem salvar alguém que já havia escolhido ficar.
Você me segurou pela cintura. Não havia força em suas mãos, havia cuidado. E foi isso que me perdeu.
O inferno, eu descobri, não começa no fogo.
Começa quando alguém nos toca no lugar exato onde escondemos a falta. Quando o desejo encontra a ferida e, em vez de curá-la, beija devagar ao redor.
Deus deve ter visto.
Talvez tenha virado o rosto. Talvez tenha compreendido, pela primeira vez, por que inventou a carne e depois passou tantos séculos condenando-a.
Naquela noite não fui anjo, você não foi demônio e nenhum de nós pediu perdão.
Havia bocas, mãos, respiração… e aquele silêncio estranho de quando dois corpos já disseram tudo e ainda assim continuam se procurando.
Minhas asas tocaram o chão. Não caíram. Não foram arrancadas.
Eu apenas não precisava mais delas.
Porque há amores que não nos levam ao céu. Eles nos devolvem ao corpo. E isso, às vezes, é uma salvação muito maior.
Se você me chamasse novamente, eu não pediria luz, não procuraria saída, não esconderia de Deus o meu desejo.
Meu amor…
eu cairia outra vez. Mas desta vez, de olhos abertos.
Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 27/09/2026
Alterado em 27/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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