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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O nome do teu tédio...

Eu nunca te disse, mas sempre soube reconhecer o horário em que você sentia minha falta.

 

Era tarde. Quase sempre tarde demais.

 

Você aparecia quando a noite já tinha perdido o movimento, quando as outras conversas acabavam, quando o mundo ficava pequeno dentro do quarto e o silêncio começava a te fazer companhia. Então vinha aquela pergunta curta, quase inocente, como quem bate à porta sem querer admitir que conhece o caminho:

 

“Viva?”

 

Eu estava.

 

Sempre estive.

 

Talvez esse tenha sido o meu erro. Você aprendeu que podia desaparecer sem grandes explicações e, ainda assim, me encontrar do outro lado. Viva, disponível, curiosa… querendo saber o que existia por trás daquele retorno repentino.

 

Durante algum tempo, confundi essas chegadas com saudade. Depois percebi que saudade tem memória. Lembra dos detalhes, pergunta pelos dias, carrega alguma delicadeza. Você chegava com poucas palavras e deixava para mim todo o trabalho de transformar aquilo em conversa.

 

Era como se bastasse me tocar com a ponta dos dedos para que eu despertasse inteira.

 

E eu despertava.

 

Não por falta de lucidez. Eu via as ausências, os silêncios, as pequenas fugas. Via também que você nunca chegava completamente. Havia sempre uma parte tua do lado de fora, pronta para partir assim que a madrugada terminasse ou aparecesse alguma coisa mais interessante.

 

Mesmo assim, eu ficava.

 

Talvez porque você me despertasse curiosidade. Talvez porque eu tenha esse hábito perigoso de procurar profundidade em homens que só vieram molhar os pés. Talvez porque alguma parte de mim gostasse da ilusão de ser lembrada justamente quando as defesas caíam e o corpo já não conseguia mentir tão bem.

 

Hoje entendo que existe uma diferença cruel entre sentir falta de alguém e sentir falta do que esse alguém nos provoca.

 

Não sei se você sentia a minha falta.

 

Talvez sentisse falta da mulher que te ouvia. Da mulher que sustentava a conversa, provocava, acolhia teus silêncios e ainda conseguia enxergar alguma coisa onde você entregava quase nada. Talvez você sentisse falta do modo como eu fazia você se perceber interessante.

 

Pode ser que o teu tédio sempre tenha tido o meu nome.

 

E isso não deixa de ser uma forma de importância… embora seja uma importância triste. Porque ninguém deveria ser lembrado apenas quando falta assunto, sono, coragem ou companhia. Ninguém deveria existir somente nas horas vazias de outra pessoa.

 

Eu não queria ocupar teus intervalos. Queria existir também quando o dia estivesse cheio.

 

Nunca te disse isso porque sabia que você poderia negar. Dizer que não era bem assim, que eu pensava demais, que nossas conversas eram apenas leves, soltas, sem obrigação. E talvez fossem mesmo.

 

Mas eu não escrevo esta carta para descobrir tua versão.

 

Escrevo porque precisei entender a minha.

 

Eu estava viva quando você perguntou. Continuo viva agora. Só não estou mais no mesmo lugar, esperando que uma saudade mal explicada se transforme em presença.

 

Há perguntas que chegam tarde demais.

 

E há mulheres que, depois de algum tempo, aprendem a não responder.

 

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 27/09/2026
Alterado em 27/09/2026
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