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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Há fotografias que parecem registrar um instante... Esta, registra uma negociação.

Há fotos que mostram duas pessoas. Essa mostra duas presenças.

 

Ele de preto. Ela de branco. Tudo muito bem colocado, muito limpo, muito elegante. Só que o que chama atenção não está na roupa. Está no que parece escapar dela.

 

Tem um tipo de desejo que não precisa de nudez. Aliás, às vezes a nudez até estraga. Porque quando tudo está dado, a imaginação trabalha menos.

 

Nessa foto, o que interessa é justamente o que não se entrega inteiro.

 

Ele parece contido. Ela parece saber disso.

 

E eu acho bonito quando uma imagem deixa essa dúvida. Quem conduz quem? Quem está mais exposto? Quem está se protegendo? Quem já percebeu demais?

 

Bataille sempre me faz pensar que o desejo tem alguma coisa de perda de controle. Não no sentido vulgar. Falo daquela parte de nós que tenta viver de forma organizada, moral, compreensível... e de repente encontra alguém que bagunça essa ordem sem fazer muito esforço.

 

Klossowski iria um pouco mais fundo nisso. Talvez perguntasse quem são essas duas pessoas quando deixam de representar o que parecem ser.

 

Porque a gente representa muita coisa o tempo inteiro.

 

Homem seguro. Mulher elegante. Pessoa forte. Pessoa desejável. Pessoa que sabe o que quer.

 

Só que desejo de verdade começa quando esses personagens falham um pouco.

 

Quando a pessoa séria deixa aparecer uma vontade estranha.

 

Quando quem parece dominar também quer ser conduzido.

 

Quando alguém muito seguro revela uma fragilidade que não mostraria para qualquer um.

 

É aí que o outro deixa de ser bonito e começa a ser perigoso.

 

Não porque vá fazer alguma coisa contra você.

 

Mas porque pode fazer aparecer alguma coisa que já estava aí.

 

A mulher da foto me passa isso. Ela parece saber que o homem ao lado dela não é apenas o homem que aparece.

 

Talvez por isso sorria daquele jeito.

 

Não é sorriso de posse.

 

É sorriso de quem percebeu uma fresta.

 

E às vezes é por uma fresta que a gente entra na vida de alguém.

 

Não pelo corpo.

 

Pelo segredo.

 

Pelo desvio.

 

Pelo desejo que a pessoa ainda não sabe explicar.

 

Tem gente que atravessa nossa vida sem tocar em nada. E tem gente que mexe em zonas que a gente nem sabia que existiam.

 

Por isso eu nunca achei que intimidade fosse só proximidade física.

 

Às vezes alguém te conhece mais por uma frase que você soltou sem querer do que outra pessoa que dormiu anos ao seu lado.

 

Talvez essa foto seja sobre isso.

 

Sobre duas pessoas muito bem vestidas escondendo coisas demais.

 

E talvez o desejo seja exatamente essa vontade de descobrir o que existe quando a roupa, a postura, a educação e os personagens deixam de funcionar.

 

O corpo nu é fácil.

 

Difícil é encontrar alguém diante de quem a gente aceita ficar sem personagem.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 26/09/2026
Alterado em 26/09/2026
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