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Entre o fogo e o nome
Quero você antes do toque. Antes da boca, antes da cama, antes da coragem de despir qualquer coisa.
Quero o instante em que ainda somos dúvida e, mesmo assim, alguma coisa entre nós já perdeu a inocência.
Há desejos que começam no corpo. O meu, não. O meu começa na suspeita.
Na maneira como alguém entra devagar num pensamento que eu julgava meu, mexe nas coisas, abre gavetas, deixa uma frase onde antes havia silêncio.
Depois vem o resto.
O olhar. A voz. A geometria secreta de um rosto que corresponde exatamente a algum desenho antigo que eu nunca soube explicar.
Talvez eu tenha um tipo. Talvez seja pior: talvez eu reconheça certas pessoas antes mesmo de conhecê-las.
E quando isso acontece, o corpo vira consequência.
Porque não quero alguém apenas dentro da minha noite.
Quero alguém capaz de permanecer quando o desejo já tiver dito tudo e ainda houver duas pessoas ali, inteiras, estranhas, tentando descobrir o que fazer com aquilo que despertaram uma na outra.
Não sei chamar isso de amor.
Amor é uma palavra séria demais para quem ainda está aprendendo o rosto do outro.
Mas também não chamaria de desejo. Desejo sozinho é pequeno. Termina cedo. Resolve-se. O que me interessa é aquilo que não se resolve.
A pessoa que continua depois.
Depois do beijo imaginado, depois da fantasia, depois da pele, depois da versão bonita que construímos para suportar a distância.
Quero saber se você ainda me desejaria quando eu deixasse de ser mistério.
Quando conhecesse meus silêncios ruins, minha impaciência, as partes de mim que não seduzem ninguém.
Porque talvez a verdadeira nudez não seja tirar a roupa. Talvez seja ficar.
Ficar quando já não existe personagem algum para proteger o desejo.
E ainda assim olhar. E ainda assim querer. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 26/09/2026
Alterado em 26/09/2026 Comentários
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