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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Ele dizia que queria conhecê-la, mas talvez conhecer já fosse uma palavra inadequada.

 

Naquela noite, a cidade existia apenas como ruído atrás das cortinas e reflexo vermelho no vidro. Ela fumava devagar, o corpo imóvel, enquanto o telefone acendia sobre a mesa com pequenas declarações vindas de centenas de quilômetros de distância. Cada frase chegava como um objeto: bonita, maravilhosa, sensual, misteriosa. Palavras limpas demais para aquilo que pretendiam tocar.

 

Ela as lia com uma espécie de curiosidade clínica.

 

Não porque não gostasse.

Gostava.

O problema era outro.

 

Homens sempre acreditaram que o desejo diminuía a distância. Ela começava a suspeitar do contrário. Quanto maior a distância, mais perfeito o desejo se tornava. Nenhum cheiro. Nenhum silêncio desconfortável. Nenhuma impaciência. Nenhum corpo real ocupando espaço demais na cama, no banheiro, na vida.

 

Do outro lado da tela, ele podia desejá-la inteira porque ainda não precisava suportar nenhuma parte dela.

 

Isso a excitava mais do que deveria.

 

Ele dizia que gostaria de beijá-la. Que havia qualquer coisa inquieta em suas fotografias. Que talvez um dia atravessasse o país para vê-la.

 

Ela imaginou o encontro sem ternura.

 

Um aeroporto excessivamente iluminado. O constrangimento dos primeiros segundos. O homem finalmente diante da mulher que passara meses construindo dentro da própria cabeça. Talvez ele demorasse apenas três segundos para perceber que ela era menor, maior, mais velha, mais silenciosa ou simplesmente mais humana do que a criatura digital que aprendera a desejar.

 

E seria exatamente nesse fracasso que ela teria vontade de beijá-lo.

 

Não para confirmar a fantasia.

Para destruí-la.

 

A fumaça subiu diante do seu rosto e se dissolveu próxima ao teto.

 

Ela pensou que talvez todo desejo moderno fosse isso: duas pessoas tentando atravessar as versões imaginárias uma da outra antes que o corpo chegasse tarde demais.

 

Ele queria encontrá-la.

 

Ela queria descobrir quanto tempo levaria até que ele sentisse falta da mulher que nunca existiu.

 

E, curiosamente, era justamente essa possibilidade que começava a fazê-la desejar que ele viesse.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 25/09/2026
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