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Quando um homem pede para deixar de ser forte
Há homens que passam o dia inteiro decidindo.
Decidem valores, rotas, contratos, horários, destinos. Entram num aeroporto e parecem saber exatamente para onde estão indo. Trocam de país com a mesma facilidade com que outros atravessam uma rua. São homens treinados para não hesitar. O mundo espera deles resposta, domínio, cálculo e alguma frieza.
Provavelmente seja por isso, que alguns desejos só apareçam quando a porta se fecha.
Não estou falando de todos os homens. Nem saberia.
A sexualidade ainda é um território onde quase todo mundo mente um pouco, principalmente quando responde a pesquisa... Falo daqueles que, depois de controlar o dia inteiro, desejam encontrar alguém diante de quem possam baixar as armas sem precisar explicar a guerra.
Alguns pedem ordens. Outros procuram dor. Há os que desejam ser imobilizados, humilhados ou tratados de maneira incompatível com o lugar que ocupam fora do quarto. E existem aqueles que atravessam um limite ainda mais desconfortável, se excitam com aquilo que o corpo elimina... (sem essa de novinho, vai..m)
Urina. Fezes. Cheiros que a civilização ensinou a esconder.
O primeiro impulso de quem escuta costuma ser o nojo... haha. Logo depois vem o julgamento.
É mais fácil chamar de perversão do que admitir que o desejo humano nem sempre escolhe aquilo que fica bonito quando contado...
Georges Bataille sabia disso. Em História do olho, aproximou urina, sexo, religião, morte e profanação até que já não fosse possível separar prazer de perturbação. O corpo, em Bataille, não se comporta. Ele derrama, excede, invade. Talvez por isso sua literatura ainda incomode tanto e seja perturbadora, para mentes frágeis... Porque ela não nos deixa fingir que o erotismo é limpo, pois não é!
Julia Kristeva chamou de abjeto aquilo que já pertenceu ao corpo e, depois de expulso, ameaça nossas fronteiras. Sangue, saliva, urina, fezes. Coisas nossas que deixam de ser reconhecidas como parte de nós. O nojo surge para restabelecer a distância. Só que, em algumas pessoas, justamente essa distância rompida provoca excitação.
Mary Douglas escreveu que a sujeira não é apenas uma substância. É também algo que apareceu no lugar errado. A urina dentro da bexiga não ofende ninguém. As fezes dentro do intestino seguem silenciosamente sua função.
""O escândalo começa quando saem, quando ficam visíveis, quando chegam à cama, à pele ou ao rosto.""
O problema não está somente no que são... Está no lugar que passaram a ocupar.
Creio que o desejo comece exatamente ali... quando alguma coisa abandona o lugar permitido.
Freud viu nas fezes uma das primeiras moedas do corpo. A criança aprende cedo que pode entregar ou reter aquilo que os adultos esperam dela. Descobre um pequeno poder: dar, negar, controlar, fazer esperar. Mais tarde, Freud aproximou simbolicamente retenção, ordem, propriedade e dinheiro.
Isso não quer dizer que um homem rico deseje fezes porque tem dinheiro. A mente não funciona como uma equação tão obediente. Mas é difícil não perceber a ironia...
""aquilo que o homem acumula, protege e controla durante o dia pode encontrar, no sexo, uma imagem invertida.""
O dinheiro deixa de comprar poder e passa a comprar a possibilidade de perdê-lo. A ordem procura a sujeira. A autoridade procura alguém diante de quem possa ajoelhar.
Em Billions, Chuck Rhoades enfrenta homens poderosos, conduz investigações e ocupa um lugar de autoridade pública. Na intimidade, deseja a submissão. A série não torna esse desejo incompatível com seu poder. Mostra justamente o incômodo de perceber que ambos pertencem ao mesmo homem.
Em Babygirl, é uma mulher poderosa quem deseja abandonar o comando. Uma executiva acostumada a dirigir pessoas encontra excitação ao obedecer a um homem hierarquicamente abaixo dela. O filme troca o gênero, mas conserva a pergunta: o que procura alguém que já controla quase tudo?
Talvez procure descanso.
A submissão pode ser, para certas pessoas, o único lugar onde não precisam decidir nada. O corpo recebe uma ordem e, por alguns minutos, a cabeça se cala. Não há voo para organizar, contrato para fechar, reputação para defender ou personagem para sustentar.
Há apenas alguém dizendo o que fazer.
O filme: Secretária compreende essa intimidade de outra maneira...
A dominação não aparece somente como castigo. Aos poucos, transforma-se numa língua particular entre duas pessoas.
A dor passa a significar reconhecimento. A obediência deixa de ser apagamento e ganha a forma de uma escolha.
Mas existe uma linha tênue que não pode ser apagada pela beleza da entrega.
Em Salò, de Pasolini, também há corpos humilhados, excrementos e homens poderosos. Só que ali ninguém pode retirar o consentimento, porque consentimento sequer existe. Os corpos pertencem aos dominadores.
Não há entrega... Há captura!
Essa é a diferença entre transgressão e violência.
A transgressão precisa que o limite continue existindo. Precisa que alguém possa dizer “não”, “pare”, “agora chega”. Quando essa possibilidade desaparece, a submissão deixa de ser um gesto de confiança e se transforma em domínio real.
Pode ser por isso, que o desejo de certos homens se torne algo tão difícil de confessar. Não é somente o medo de revelar do que gostam. É o medo de perder a masculinidade construída durante uma vida inteira. O homem pode admitir que manda, que conquista, que ganha dinheiro e atravessa continentes. O mundo está preparado para admirar isso.
Mas quem escuta o homem que quer obedecer?... Quem acolhe o homem que deseja ser reduzido, molhado, sujo, conduzido ou exposto sem transformá-lo imediatamente em caricatura?
Há uma fragilidade profunda nessa confissão... Ele entrega ao outro não apenas o corpo, mas a informação capaz de desmontar sua imagem!
Dizer “isso me excita” pode ser mais íntimo do que ficar nu. A nudez mostra a pele. O fetiche mostra onde a armadura abre.
Ainda assim, fragilidade não é inocência.
Um homem pode revelar seu segredo e continuar manipulador. Pode confiar uma fantasia e, ao mesmo tempo, esconder as regras que pretende introduzir na experiência do outro. Pode ser vulnerável num instante e irresponsável no seguinte. Conhecer o desejo de alguém não significa conhecer seu caráter.
Meu conhecimento explorado por livros, filmes, podcast, séries e conversas profundas com alguns homens que toparam esse papo sem máscaras! Um papo nu para nu... E de tão revelador que escrevi esse ensaio como uma realidade possivel de humano e de mundo...
Talvez alguns homens não procurem a sujeira porque sejam menos civilizados. Mas a procurem porque passaram tempo demais obrigados a parecer impecáveis, e precisavam parecer que não desejem perder o poder para sempre... Mas que só desejem apenas colocá-lo no chão por algumas horas e confiar que alguém o guardará.
O fetiche, nesse caso, seria menos uma doença do desejo e mais uma negociação secreta com a própria masculinidade.
Durante o dia, ele controla. Na cama, pede licença para desabar...
E ai se revela algo essencialmente humano nisso! desde que o corpo sobre o qual ele desaba também tenha escolhido permanecer ali. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 24/09/2026
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