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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Minha Maria de olhos cor de céu

Hoje tomei um sorvete de ameixa por ela. Era o sabor que minha mãe escolhia... e hoje foi o que eu quis também.

 

Já são seis meses sem a presença física da minha Maria. Setembro, que era o mês do aniversário dela, agora também me faz contar esse tempo. Em vários momentos do dia, fechei os olhos e disse obrigada. Obrigada, mãe... obrigada pela pessoa que a senhora me ajudou a ser.

 

A rotina continua. Saio cedo para trabalhar, chego tarde, arrumo alguma coisa em casa e vou dormir. Tem compromisso, tem problema para resolver, tem o dia seguinte esperando. Às vezes olho para tudo isso e penso que, friamente, pouca coisa mudou. A falta dela está no meio dessa vida que continua exigindo de mim a mesma disposição.

 

Mamãe esperava eu chegar de viagem para a gente sair. Tomar um sorvete, comer um peixe, visitar quem ela queria ver. Eu voltava e nós ainda tínhamos essas coisas para fazer juntas. Hoje sinto saudade até dessa possibilidade... de poder chegar e combinar um passeio com minha mãe.

 

Mas foi do olhar dela que senti mais falta hoje.

 

Eu vinha tentando entender isso. Por que, mesmo continuando a trabalhar e a fazer minhas coisas, alguma coisa em mim sente tanto a falta de ser vista por ela? Acho que descobri uma parte da resposta: era o olhar da minha mãe que me fazia sair pelo mundo. Era o olhar dela que me fazia ser livre.

 

Eu podia morar longe, mudar de trabalho, começar outra vez. Ela sabia de mim. Sabia onde eu estava, o que andava fazendo. E muita coisa sobre a minha vida chegava aos outros pela voz dela. Mamãe sempre foi ponte... de notícias, de recados, de pedidos. A gente se acostumou tanto a isso que talvez nem percebesse quantas conversas deixava nas mãos dela.

 

Algumas distâncias já existiam. Agora há quem espere que a ausência resolva tudo, que a gente se aproxime e deixe para trás o que doeu. Eu continuo precisando respeitar a minha história. Tenho paz pelo que fiz pela minha mãe e pelo que vivemos juntas. Essa paz também me permite escolher as relações que quero manter, sem transformar minha saudade numa obrigação de convivência.

 

Olho a foto dela de óculos vermelhos. O cabelo, as marcas do rosto, aquele jeito de olhar... minha Maria de olhos cor de céu. Na imagem está escrito: “Dia de cuidar desse zoio azul de céu!”. Um dia de cuidar dela, registrado ali. Hoje volto àquela foto querendo demorar um pouco mais nesses olhos que conheci a vida inteira.

 

Hoje comi o sorvete de ameixa, mãe. Fechei os olhos algumas vezes e agradeci. Tenho tanta coisa da senhora em mim... e sinto tanta falta de ter a senhora aqui, me olhando.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 24/09/2026
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