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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O homem que não beija, mas confessa tudo no escuro

Ouvi uma mulher explicar que alguns homens evitam um beijo de língua demorado porque foram feridos na infância. Segundo ela, o corpo recua antes de a cabeça entender, portanto a mulher não deveria cobrar.

Deveria apenas observar e compreender que ele nunca aprendeu que era seguro ficar perto.

 

É uma explicação bonita. Quase maternal. Também é perigosa.

 

Porque coloca outra vez a mulher diante de um homem fechado, ensinando-a a interpretar silêncio, ausência, recuo e desconforto como provas secretas de amor. Ele não beija, mas ama. Não toca, mas deseja. Não se entrega, mas sente. E ela, promovida a tradutora oficial de um afeto que nunca se apresenta por inteiro, deve ter paciência.

Pode existir medo de intimidade? Claro que pode. Há homens para quem um beijo demorado parece mais invasivo do que o sexo. O sexo permite desempenho. Permite personagem, técnica, comando, pressa e até uma certa distância. Já o beijo exige outra coisa.

 

No beijo não há muito onde esconder o rosto. A respiração denuncia, a boca perde a disciplina e, por alguns segundos, ninguém consegue parecer tão senhor de si.

 

Alguns homens transam com facilidade e beijam com dificuldade. Não porque sejam frios, necessariamente, mas porque o sexo pode ser executado, enquanto o beijo precisa ser habitado.

 

Também existem aqueles que não gostam de demonstração em público. Sentem-se observados, expostos, talvez policiados pela educação que receberam ou pela ideia estreita de masculinidade que aprenderam a representar. Num primeiro encontro, isso pode ser apenas reserva. Pode ser timidez, cuidado, preferência, desconforto com o ambiente ou falta de confiança suficiente. É comum.

 

Não é doença. E também não é uma declaração cifrada de amor.

 

O problema começa quando se tenta transformar um gesto isolado em diagnóstico. Nem todo homem que evita um beijo tem apego evitativo. Nem todo homem que beija pouco está apaixonado em segredo. Às vezes ele não gosta. Às vezes não quer. Às vezes quer outra forma de intimidade. Às vezes deseja muito, mas somente no território em que controla a luz, a distância e a saída.

 

Conheci homens assim. Econômicos no toque e excessivos na imaginação. Diante dos outros, o corpo comportado. No privado, uma mente capaz de atravessar todas as portas que a boca não atravessou.

 

Homens que evitam um beijo longo, mas confiam fantasias que jamais diriam em voz alta numa mesa de bar. Homens que não gostam de ser beijados em público, mas, protegidos por uma tela, uma madrugada ou um quarto fechado, revelam desejos que contradizem tudo o que representam durante o dia.

 

Não há necessariamente mentira nisso. Há divisão.

 

Klossowski entenderia essa divisão como a instabilidade entre a pessoa que sustentamos socialmente e as forças que nos atravessam sem pedir licença. O desejo não tem compromisso com a biografia oficial. Ele pode nascer justamente onde a identidade mais rígida começa a falhar. O homem correto, contido, másculo, previsível, talvez carregue uma vida imaginária feita de inversões, submissões, roupas, gestos ou corpos que não cabem no personagem que aprendeu a defender.

 

Bataille iria mais fundo. Para ele, o erotismo começa onde alguma coisa em nós corre o risco de perder a forma. Talvez por isso o beijo assuste mais do que certas fantasias. A fantasia pode ser narrada à distância. Pode ser desligada com a tela. Pode terminar quando ele decide. O beijo verdadeiro não. Um beijo prolongado bagunça o controle, mistura respiração, saliva, cheiro e presença. Não é apenas uma preliminar. É uma pequena desordem do indivíduo.

 

E há homens que suportam imaginar o abismo, mas não gostam quando alguém chega perto o suficiente para vê-los tremendo diante dele.

 

Leiris provavelmente desconfiaria da coragem dessas confissões. Dizer uma fantasia íntima pode parecer uma exposição radical, mas nem toda confissão é entrega. Às vezes, contar o segredo é outra maneira de controlar a cena. Eu revelo o que quero, escolho as palavras, observo a reação e continuo protegido. A pessoa conhece meu desejo, mas ainda não me toca onde sou vulnerável. Mostrei o quarto proibido, porém fiquei segurando a chave.

 

Ballard talvez percebesse algo ainda mais contemporâneo: a tecnologia transformou a intimidade num laboratório. Há homens que se revelam com mais facilidade pela imagem, pelo áudio e pela conversa que desaparece em vinte e quatro horas. A tela permite uma proximidade sem corpo e uma ousadia sem testemunha. Nela, o homem pode ser tudo o que a vida pública não autoriza. Fecha o aplicativo e volta ao personagem bem-arrumado de sempre.

 

Bettelheim, ao pensar a fantasia como lugar onde medos e impulsos encontram forma, lembraria que imaginar não é necessariamente adoecer.

 

A fantasia pode ser uma tentativa de elaborar aquilo que a consciência ainda não consegue organizar. O problema não está em desejar o estranho. O problema começa quando o outro é obrigado a carregar, interpretar ou realizar esse estranho sem que exista confiança, reciprocidade e consentimento.

 

Por isso, sim, é possível que um homem ame e ainda tenha dificuldade com beijos, toques ou demonstrações públicas. É possível que precise de tempo até sentir segurança. Também é possível que sua sexualidade privada seja muito mais criativa, contraditória e transgressora do que sua aparência permite imaginar. O ser humano quase nunca coincide perfeitamente com a versão que apresenta aos outros.

 

Mas compreender essa complexidade não significa inventar sentimentos para ele. Muito menos transformar a mulher em clínica de recuperação afetiva.

 

Não é preciso cobrar um beijo como quem cobra uma dívida. Mas é possível perguntar. É possível dizer que percebeu o recuo, que deseja entender seus limites e que também possui necessidades. O homem tem direito ao próprio ritmo. A mulher tem direito de não viver apenas de interpretações.

 

Talvez o beijo não revele tudo. Mas revela alguma coisa. Não necessariamente uma infância ferida, como decretou a mulher do vídeo. Pode revelar medo, vergonha, preferência, controle, falta de desejo ou apenas um modo diferente de se aproximar. A resposta não está pronta numa teoria. Está na conversa que os dois conseguem ou não sustentar depois que as bocas se afastam.

 

Alguns homens mostram o corpo e escondem a pessoa. Outros escondem o corpo e entregam uma parte perturbadora da imaginação. Há ainda os que confessam tudo no escuro e, quando a luz volta, recolhem cada palavra como se nunca tivessem estado ali.

 

Talvez nunca tenham temido o beijo.

Talvez tenham temido ser reconhecidos dentro dele.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 22/09/2026
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