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NO MEU ÚLTIMO VOO, EU NÃO PRECISO PERDOAR PORRA NENHUMAExiste uma conversa muito bonita sobre o último voo. Dizem que, quando a hora chegar, a gente vai querer abraçar todo mundo, pedir perdão, esquecer as brigas e fazer as pazes com quem deixou feridas pelo caminho.
Pois eu não sei se quero.
Talvez, no meu último voo, eu não queira perdoar porra nenhuma.
Talvez eu queira apenas fechar os olhos sabendo exatamente quem fui. Sem precisar limpar a consciência de ninguém. Sem transformar abandono em mal-entendido. Sem chamar de amor aquilo que só funcionava quando eu era útil.
Porque eu aguentei muita coisa sozinha.
Eu resolvi problemas que nem eram meus. Ajudei pessoas que hoje têm muito mais condições de me ajudar e não ajudam. Pessoas que receberam dinheiro, apoio, presença, cuidado e oportunidades. Algumas encontraram em mim e na minha mãe a saída que precisavam quando a vida apertou. Mas agora esperam que eu abaixe a crina para merecer alguma aproximação.
Esperam que eu engula.
Que eu esqueça a dorzinha.
Que eu trate como bobagem aquilo que me feriu.
Que eu apague as conversas difíceis que ouvi naquela mesa. Que eu esqueça as palavras ditas à minha mãe e as vezes em que ela chorou depois que certas pessoas foram embora. Como se o choro dela tivesse evaporado junto com o café. Como se eu não tivesse visto. Como se eu não me lembrasse.
Eu me lembro.
E não existe morte capaz de tornar bonito o que foi cruel.
As pessoas gostam de falar sobre perdão porque o perdão alivia principalmente quem feriu. É muito confortável aparecer no final, pedir um abraço e imaginar que tudo foi resolvido. Difícil é ter estado presente quando o outro adoeceu, perdeu, precisou, caiu ou simplesmente cansou de carregar tudo sozinho.
Não me cobrem grandeza no último minuto se faltou humanidade durante anos.
Também não me interessa quantas pessoas estarão no meu velório. Velório cheio nunca foi prova de amor. Às vezes, é apenas curiosidade, culpa, costume ou vontade de conferir se a pessoa morreu mesmo. Amor se prova enquanto a gente está vivo. Quando ainda dá tempo de atender ao telefone, dividir um problema, pagar uma conta, fazer uma visita, segurar uma mão e dizer: “Dessa vez, deixa que eu te ajudo.”
Depois que eu morrer, podem contar a versão que quiserem. Quem nunca me escutou não terá o direito de explicar meus silêncios. Quem não esteve comigo não poderá transformar ausência em afeto tardio. Quem me abandonou também não poderá usar meu caixão para representar o papel de família.
No meu último voo, se eu tiver alguns segundos de consciência, não quero gastá-los revisando mágoas nem distribuindo absolvição.
Quero lembrar das vezes em que ri até perder o ar. Dos lugares que conheci. Das loucuras que tive coragem de viver. Dos corpos que desejei. Dos prazeres que não neguei a mim mesma. Das pessoas conhecidas e desconhecidas que me deram instantes verdadeiros de felicidade. Dos poucos que foram leais quando não havia nada para ganhar com isso.
Quero lembrar de mim.
Da mulher que caiu e levantou sem plateia. Que chorou escondida e, no dia seguinte, resolveu o que precisava ser resolvido. Que ajudou muita gente e descobriu, da maneira mais amarga, que gratidão não acompanha transferência bancária, mensalidade paga nem porta aberta.
Ainda assim, eu vivi. Eu me permiti.
Eu fiz o que quis com quem quis. Conheci o desejo sem pedir desculpas. Busquei prazer mesmo quando esperavam de mim apenas sacrifício. Continuei inteira, embora muita gente tenha se acostumado a me querer disponível, obediente e emocionalmente endividada.
Então, se eu puder dizer alguma coisa a mim mesma antes de partir, não será “você perdoou todo mundo”.
Será:
“Tu foste foda. Tu aguentaste o que quase ninguém viu. Tu deste muito mais do que recebeste. Tu não viveste para parecer boa no final. Tu viveste de verdade.” E isso me basta.
O perdão não vai na minha bagagem. E só eu que vou. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 22/09/2026
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