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Depois de assistir Devil in Disguise: John Wayne Gacy, fiquei com uma coisa na cabeça. E, na verdade, talvez nem seja exatamente sobre ele. É mais sobre nós. Sobre aquilo que passa pela cabeça quando ninguém está olhando. Quando não tem plateia, não tem julgamento, não tem a necessidade de parecer certo, equilibrado, moral, bonito ou normal.
Eu tenho muita curiosidade sobre isso. Sobre o que as pessoas pensam quando estão sozinhas. Sobre as fantasias que nunca contaram. Sobre desejos que talvez nem elas saibam explicar direito. E quanto mais eu leio sobre perversão, desejo, fantasia, interdito, mais cuidado eu tenho com essa palavra: perversão. Porque a gente coloca coisa demais dentro dela. Um desejo diferente? Perversão. Uma fantasia estranha? Perversão. Uma prática sexual fora do que a maioria considera comum? Perversão. Uma lembrança antiga que ficou ligada ao prazer e reaparece anos depois? Também já tem alguém querendo dar nome, diagnóstico e sentença. Mas será que é tão simples assim?
Talvez seja justamente por isso que tanta gente cale. Porque falar de desejo é se colocar na mão do julgamento alheio. E o julgamento alheio pesa. Freud já tinha bagunçado essa conversa há muito tempo quando mostrou que a sexualidade humana não nasce organizada, limpa e coerente como a sociedade gostaria. Ela se mistura com memória, corpo, medo, curiosidade, vergonha, prazer, infância, adolescência, fantasia. Uma coisa encosta na outra. Uma imagem fica. Uma sensação fica. Alguma experiência ganha um significado que a própria pessoa talvez passe décadas sem conseguir entender. E um dia aquilo volta. Às vezes em forma de fantasia. Às vezes de desejo. Às vezes de uma curiosidade que a pessoa nem sabe de onde veio.
Bataille talvez seja um dos autores que mais me incomoda, no bom sentido, quando penso nisso. Porque ele não trata o erotismo como uma coisa limpinha. Para ele, desejo também encosta no proibido, no excesso, na transgressão. E talvez isso esteja mais perto do ser humano real do que essa ideia bonitinha de que desejamos apenas aquilo que conseguimos explicar numa conversa civilizada. Não conseguimos.
Só que existe uma linha aí que precisa ficar muito clara. Fantasia não é violência. Desejo não é crime. Pensamento não é ação. E uma prática sexual incomum, entre adultos conscientes e de acordo, não transforma automaticamente ninguém em perverso. Então onde começa o problema? Talvez quando o outro deixa de ser alguém. Quando vira só instrumento. Quando o consentimento não interessa. Quando o limite do outro não importa. Quando alguém precisa ser usado, enganado, ferido, humilhado ou destruído para que aquele desejo aconteça.
Foi isso que me atravessou vendo a história de Gacy. Não eram simplesmente as fantasias. Não era apenas o fato de existir uma sexualidade que, naquele contexto, pudesse ser considerada fora da norma. Era outra coisa. Em algum momento, o outro deixou de existir como pessoa. E isso muda completamente a conversa.
Talvez seja exatamente por isso que eu procure tanto entender essas histórias. Não para justificar. Não para passar a mão na cabeça. Muito menos para transformar horror em romantização. É porque eu tenho necessidade de separar coisas que a gente insiste em misturar. Existe gente carregando fantasias estranhíssimas há quarenta anos e que nunca machucou ninguém. Existe gente que sente vergonha do que pensa. Vergonha do que gostaria de experimentar. Vergonha até de colocar determinadas coisas em palavras. E, às vezes, talvez quisesse apenas falar. Ser ouvida sem que alguém arregalasse os olhos e decidisse, em cinco minutos, quem ela é.
Porque esse também é outro problema. A gente fala muito de sexo. Mas escuta muito pouco quando alguém fala de desejo. Sexo é mais fácil. Sexo a gente comenta, brinca, pergunta, conta história. Desejo é outra coisa. Desejo bagunça a imagem que construímos de nós mesmos. Às vezes ele não combina com aquilo que a pessoa pensa sobre si. Não combina com o papel social que ocupa. Não combina com a orientação que ela acreditava ter. Não combina com a moral que aprendeu. E aí? O que a pessoa faz com aquilo? Finge que não existe? Enterra? Transforma em culpa? Talvez seja daí que venha tanto silêncio.
Nietzsche provavelmente provocaria justamente essa moral que tantas vezes nasce do medo do que escapa da regra. Klossowski talvez olhasse para as máscaras. Para o personagem social que todo mundo precisa sustentar enquanto certas coisas acontecem por baixo. Leiris talvez entendesse a vontade de confessar. Aquela necessidade estranha de dizer algo muito íntimo e, ao mesmo tempo, continuar se protegendo. E Blanchot talvez ficasse justamente onde quase ninguém quer ficar. No silêncio. Naquilo que não foi dito. Naquela coisa que ronda a cabeça durante anos e nunca encontra palavra.
E eu fico pensando... Quanta gente não está vivendo uma guerra dentro da própria cabeça simplesmente porque não encontrou um lugar onde pudesse dizer: “Eu penso nisso.” Sem que alguém imediatamente respondesse: “Então você é isso.” Porque não é tão simples. Pensamento não é identidade. Fantasia não é caráter. Desejo não resume ninguém. Também não estou dizendo que tudo precisa ser acolhido, normalizado ou tratado como inofensivo. Não. Existem fantasias perigosas. Existem comportamentos violentos. Existem situações que exigem limite, responsabilidade e até intervenção.
Mas compreender não é absolver. Isso parece óbvio, mas talvez a gente tenha esquecido. Compreender é conseguir olhar para alguma coisa desconfortável sem precisar correr imediatamente para o tribunal moral. Às vezes é só perguntar: de onde isso veio? Quando começou? O que essa fantasia significa para essa pessoa? Ela fica apenas no pensamento? Existe consentimento? Existe sofrimento? Existe risco para alguém? Talvez essas perguntas revelem muito mais do que simplesmente chamar alguém de doente, perverso ou estranho.
E é isso que essas histórias acabam mexendo em mim. Não é exatamente o monstro que me interessa. O monstro já é o fim da história. O que me inquieta é o que existia antes. O pensamento. A fantasia. A vergonha. O silêncio. As pequenas permissões internas. Os limites que foram mudando. E principalmente essa pergunta que talvez ninguém consiga responder completamente: o que uma pessoa contaria sobre si mesma se tivesse certeza de que, por alguns minutos, ninguém iria julgá-la? Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 20/09/2026
Alterado em 21/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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