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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


ANTES DO MACHADO: O QUE LIZZIE BORDEN ESCONDIA DENTRO DA CASA

Terminei de assistir à história de Lizzie Borden e, curiosamente, não foi o machado que ficou na minha cabeça. Foi a casa. Aquela casa cheia de cômodos, regras, silêncios, portas e gente convivendo perto demais, enquanto aparentemente ninguém sabia direito o que estava acontecendo dentro do outro.

 

Talvez porque assassinatos sejam mais fáceis de organizar depois que acontecem. Existe sangue, existe vítima, suspeito, investigação, versões. A gente pega os fatos e tenta montar alguma lógica. O difícil mesmo é entender o que existia antes. O que uma pessoa pensa enquanto ainda está sentada normalmente à mesa? O que ela deseja? O que odeia? O que reprime? O que fantasia enquanto responde educadamente a alguém que talvez já não suporte mais? A Lizzie da série vive muito nesse lugar.

 

Não estou falando da Lizzie Borden histórica como se soubéssemos exatamente quem ela era. Não sabemos. A mulher real foi julgada e absolvida. A série cria sua própria Lizzie, acrescenta relações, conflitos, desejos e interpretações para construir uma narrativa. É essa personagem que me interessa, porque ela parece estar o tempo inteiro em atrito com alguma coisa. Com a família, com o corpo, com aquilo que esperam dela, com aquilo que deseja, com a religião, com a ideia de ser uma mulher respeitável dentro de uma sociedade que já tinha decidido de antemão o que uma mulher respeitável deveria ser.

 

Freud provavelmente não começaria pelo machado. Começaria muito antes. Talvez perguntasse o que foi sendo reprimido, escondido, deslocado, transformado até encontrar outra forma de aparecer. E isso não quer dizer que repressão transforme alguém em assassino. Seria simplificar demais Freud e, principalmente, simplificar demais o ser humano. Mas existe uma coisa incômoda aí: aquilo que a gente proíbe dentro de si não necessariamente desaparece. Às vezes muda de lugar. Ganha outro nome. Se esconde. Outras vezes volta.

 

Bataille talvez olhasse para aquela casa com ainda mais curiosidade, porque ele entendia que o erotismo tem uma relação estranha com a proibição. Existe alguma coisa no limite que também provoca vontade de atravessá-lo. A proibição não apenas impede. Ela cria a fronteira. E tem gente que passa a vida inteira olhando justamente para essa fronteira. Talvez por isso exista tanta tensão sexual e moral em histórias como essa. Não porque todo desejo proibido seja destrutivo, mas porque nós temos uma relação bastante complicada com aquilo que nos dizem que jamais deveríamos desejar.

 

Foucault provavelmente puxaria uma cadeira e faria outra pergunta: quem decidiu o que aquela mulher poderia ser? Porque quando falamos de sexualidade, comportamento e normalidade, às vezes esquecemos que essas coisas também são moldadas pela época, pela religião, pela família, pela medicina, pela justiça e pela sociedade. Sempre existe alguém dizendo qual desejo é aceitável, qual comportamento merece vergonha, qual mulher é respeitável, qual mulher é perigosa. E quem deu a essas pessoas o poder de decidir isso?

 

Existe alguma coisa especialmente perturbadora em Lizzie Borden porque ela rompe várias expectativas ao mesmo tempo. Ela é filha, mulher, branca, de família conhecida, com posses, vivendo dentro de uma casa aparentemente organizada. Não é exatamente o tipo de pessoa que a sociedade daquela época queria imaginar segurando um machado. Talvez por isso ela continue provocando tanto fascínio. É mais fácil imaginar violência quando ela vem de alguém que já chamamos de monstro. Quando ela aparece dentro de uma sala de jantar, usando vestido, pertencendo a uma família conhecida, a coisa fica muito menos confortável.

 

A psicanálise também fala muito da nossa dificuldade em aceitar a ambivalência. Gostamos de imaginar que amamos ou odiamos, como se os sentimentos fossem organizados desse jeito. Só que não são. Dá para amar alguém e querer distância. Depender e ressentir. Querer aprovação e, ao mesmo tempo, desejar que aquela pessoa simplesmente desapareça da nossa vida. Família talvez seja um dos lugares onde essas contradições aparecem com mais força, justamente porque também é ali que aprendemos afeto, limite, autoridade, vergonha, desejo e pertencimento. Tudo misturado.

 

A série exagera, claro. É televisão. Mas talvez seja justamente no exagero que algumas coisas ficam visíveis. Lacan provavelmente perguntaria algo ainda mais desconfortável: quanto daquela mulher pertence realmente a ela e quanto foi construído pelo desejo dos outros sobre ela? A filha que deveria obedecer. A mulher que deveria se comportar. A família que deveria parecer respeitável. A moral que deveria controlar o corpo. A religião dizendo onde começava o pecado.

 

E aí eu fico pensando: existe um momento em que alguém passa tanto tempo tentando corresponder ao olhar dos outros que já não sabe mais onde termina aquilo que esperam dela e onde começa aquilo que ela própria deseja? Acho essa pergunta muito mais interessante do que simplesmente chamar alguém de estranho, desviado ou perverso.

 

Aliás, tenho resistência a essa palavra quando ela é usada de qualquer jeito. Hoje chamamos de perverso quase tudo aquilo que nos provoca desconforto sexual ou moral. Uma fantasia estranha. Uma relação diferente. Uma prática sexual que não entendemos. Uma pessoa desejando alguma coisa que nós não desejaríamos. Só que, psicanaliticamente, não é tão simples. Desejo incomum não transforma automaticamente ninguém em perverso. Fantasia não é crime. Pensamento não é ato.

 

E talvez seja aí que comece a conversa que quase nunca temos: o que uma pessoa faz com aquilo que deseja?

 

Porque talvez o problema não esteja em possuir uma fantasia que ninguém entenderia. O problema pode começar quando o outro deixa de existir como sujeito. Quando desejo vira imposição. Quando prazer exige sofrimento de alguém que não consentiu. Quando uma fantasia sai do território íntimo e precisa transformar outra pessoa em objeto para existir.

 

Essa diferença importa. E muito.

 

Talvez seja por isso que Lizzie Borden tenha ficado comigo depois que os créditos acabaram. Não por causa do machado. Machado é fácil de identificar. O difícil é reconhecer aquilo que acontece antes dele. Uma mulher sentada dentro de casa. A família funcionando como tantas outras. Conversa comum. Jantar. Silêncio. E dentro de alguém existe uma vida inteira que ninguém naquela mesa imagina.

 

Freud talvez chamasse parte disso de pulsão. Bataille encontraria a transgressão. Foucault perguntaria quem construiu aquelas regras. Lacan procuraria o desejo escondido atrás do próprio desejo.

 

Eu fico com uma coisa mais simples.

 

A gente conhece muito pouco das pessoas. Conhece aquilo que elas conseguem, ou escolhem, colocar do lado de fora.

 

O resto fica dentro da casa.

 

E algumas casas têm cômodos que ninguém visita.

 

Esta crônica parte da representação ficcional apresentada

na série sobre Lizzie Borden e dialoga com

conceitos filosóficos e psicanalíticos.

Não pretende estabelecer diagnóstico psicológico

nem tratar como fato histórico elementos

dramatizados pela produção.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 20/09/2026
Alterado em 21/09/2026
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