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Há uma parte da sexualidade humana que não cabe na cama.E esses dias eu fiquei pensando numa coisa que talvez seja muito mais comum do que a gente imagina, só que quase ninguém fala com naturalidade. A gente fala de sexo, relacionamento, traição, aplicativo, fetiche, desejo... Mas quando a conversa desce um pouco mais fundo, quando deixa de ser sobre o que fazemos e começa a ser sobre aquilo que imaginamos, guardamos ou nunca tivemos coragem de contar, o clima muda. E muda rápido.
Não estou falando de crime. Nem de violência. Estou falando daquilo que uma pessoa deseja, imagina, fantasia, guarda por anos e talvez nunca diga em voz alta para ninguém.
Ao longo da vida eu já ouvi homens me contando coisas que, se fossem ditas numa roda comum, provavelmente fariam alguém levantar a sobrancelha. Um deles me contou uma situação da adolescência envolvendo a mãe. Outro associava determinadas peças íntimas femininas à figura materna. Outro fantasiava uma relação sexual com uma mulher trans muito feminina, mas numa posição em que ele também seria penetrado. E basta uma pessoa contar alguma coisa assim para começar imediatamente aquela necessidade quase desesperada de classificar. É gay? É perverso? É doente? Tem trauma? É isso? É aquilo?
Mas será que tudo precisa virar rótulo? Não é tão simples assim.
Freud já falava, há mais de cem anos, que a sexualidade humana não nasce organizada daquele jeito arrumadinho que a sociedade gostaria. Desejo não segue manual. Ele se mistura com memória, curiosidade, culpa, medo, proibição, prazer, infância, adolescência, corpo, vergonha e fantasia. Às vezes uma experiência fica guardada lá atrás e reaparece anos depois de uma forma que nem a própria pessoa consegue explicar direito.
E é justamente aí que Bataille me interessa. Ele falava muito sobre erotismo, limite e transgressão. Não naquela leitura rasa de que tudo o que é proibido se torna automaticamente desejável, mas na ideia de que o limite também produz tensão. Existe alguma coisa na fronteira que chama atenção justamente porque existe uma fronteira. E o ser humano sempre teve uma relação estranha com aquilo que não deveria querer.
Só que fantasia não é plano de ação. E essa talvez seja uma das diferenças mais importantes dessa conversa.
Uma pessoa pode imaginar alguma coisa e jamais querer vivê-la. Pode gostar de ocupar determinada posição sexual sem que isso determine quem ela é fora dali. Pode gostar de submissão na cama e comandar uma empresa. Pode gostar de dominar sexualmente e ser uma pessoa tranquila na vida cotidiana. Pode gostar de roupa feminina sem desejar ser mulher. Pode gostar de sexo anal sem que isso defina sua orientação sexual. Só que a gente gosta de rótulo porque rótulo dá sensação de ordem. Coloca cada coisa numa gaveta. O problema é que o desejo humano não respeita muito essas gavetas.
Talvez por isso séries como *Monstro*, da Netflix, provoquem tanto. Eu comecei a perceber uma coisa nessas histórias: nunca é só sobre o crime. Quase sempre existe alguma coisa atravessando família, repressão, segredo, sexualidade, culpa, vergonha, relação com pai ou mãe, identidade. Ed Gein talvez seja um dos exemplos mais extremos dessa mistura, mas não é o único.
E o que me chama atenção nessas histórias não é olhar e pensar “olha o perverso”. É perceber como determinadas experiências podem se instalar dentro de uma pessoa e ficar ali durante décadas. Algumas mudam de forma. Outras ficam silenciosas. Outras só aparecem em determinadas situações. Isso acontece com violência? Às vezes. Mas acontece também com pessoas absolutamente comuns que nunca fizeram mal a ninguém.
A gente é rápido demais para condenar aquilo que não entende. E também consegue ser rápido demais para romantizar aquilo que deveria ser condenado. As duas coisas são perigosas.
Porque uma fantasia estranha não transforma automaticamente alguém em monstro. Da mesma forma, compreender de onde determinado comportamento pode ter vindo não absolve ninguém quando existe violência, abuso ou ausência de consentimento.
Existe uma linha importante aí.
Talvez o problema não esteja simplesmente no desejo. O problema começa quando o desejo do outro deixa de importar. Quando uma fantasia precisa usar alguém que não consentiu. Quando a excitação depende de ferir, humilhar ou submeter uma pessoa que não escolheu participar daquilo. Quando o limite do outro passa a ser irrelevante.
Fora disso existe um território enorme da sexualidade humana que ainda tratamos com uma mistura bastante estranha de curiosidade, medo e vergonha.
E acho que é isso que me incomoda e me faz pensar tanto sobre o mundo interno das pessoas.
A gente assiste a tudo. Serial killer, incesto, violência, fetiche, sadismo, dominação, sexo, abuso. Está tudo disponível numa tela. A gente passa horas vendo histórias assim. Só que se uma pessoa sentada na nossa frente contar uma fantasia que lembre qualquer coisa daquela ficção, imediatamente muda a forma como olhamos para ela.
Não é curioso? Na televisão vira entretenimento. Na vida real vira julgamento.
Talvez porque seja confortável imaginar que certas coisas pertencem somente aos personagens. Aos criminosos. Aos estranhos. Aos outros.
Mas a mente humana não funciona assim. Ela é muito mais contraditória do que a imagem social que cada um constrói.
E é justamente isso que me interessa. Não descobrir quem é perverso. Não sair procurando diagnóstico para cada desejo estranho. Mas tentar entender o que uma pessoa guarda naquela parte da cabeça que quase ninguém conhece.
Porque todos nós temos uma versão social. A pessoa que trabalha, conversa, sorri, resolve problema, responde mensagem, senta numa mesa e parece absolutamente previsível. E existe uma outra parte muito mais íntima, quase subterrânea, que aparece quando a porta se fecha. Aquela que talvez só caminhe livremente quando não existem olhos importantes nos observando.
Talvez seja por isso que conhecemos tão pouco uns aos outros.
A gente conhece rosto, voz, comportamento, rotina. Conhece aquilo que a pessoa consegue colocar do lado de fora. Mas não necessariamente conhece aquilo que mora atrás dos olhos, no silêncio, na vergonha, no desejo, na lembrança, no pensamento que nunca virou palavra.
Freud talvez chamasse parte disso de pulsão. Bataille enxergaria a transgressão. Foucault provavelmente perguntaria quem decidiu aquilo que deveríamos considerar normal.
Eu fico com uma pergunta bem mais simples: Quanto da pessoa que conhecemos é realmente aquela pessoa? E quanto dela permanece guardado justamente porque ela sabe muito bem o que aconteceria se resolvesse contar?
Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 20/09/2026
Alterado em 21/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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