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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Excesso de amor também paga conta...

Existe um tipo de amor que custa caro. E eu não estou falando em sentido figurado.

 

É aquele amor que vai pagando pequenas coisas pelo caminho porque pode. Uma mensalidade aqui. Uma conta ali. Um problema financeiro que não era seu, mas que você resolveu porque, naquele momento, tinha condições. Você empresta o carro. Facilita uma situação. Assume uma despesa. Usa aquilo que construiu para deixar a vida de alguém um pouco menos pesada.

 

No começo parece simples. “Mês que vem eu te pago.” E você acredita. Não necessariamente porque esteja precisando daquele dinheiro imediatamente, mas porque acredita na palavra da pessoa. E existe uma diferença enorme entre ajudar alguém e descobrir depois que aquela pessoa sequer estava levando a sério a ideia de devolver.

 

Talvez o problema comece justamente aí. Quem tem facilidade para ganhar dinheiro costuma ser tratado como se também tivesse facilidade para perdê-lo. Como se trabalhar muito, produzir, se organizar, correr atrás e conseguir ganhar mais tirasse daquele dinheiro o valor que ele tem. Afinal, “ela consegue de novo”. Mesmo quando ninguém fala isso em voz alta, a frase começa a existir dentro da relação.

 

E você vira aquela pessoa que pode esperar. A que pode pagar agora. A que pode emprestar. A que pode resolver. A que pode compreender mais uma vez.

 

Mas eu fico pensando... por que quem pode acaba sempre sendo a pessoa que deve?

 

Existe uma coisa curiosa nesse nosso excesso de amor por todo mundo. Esses “todos” sabem muito bem encontrar a gente quando precisam. Quando aperta, quando falta, quando não conseguem resolver, quando a situação fica difícil, você aparece quase naturalmente no primeiro lugar da lista. Só que quando chega a hora de dividir responsabilidade, prejuízo ou dinheiro, a matemática muda.

 

Aquilo que era “nosso problema” enquanto faltava passa a ser “seu problema” quando chega a conta.

 

E talvez seja isso que machuque mais.

 

Não é exatamente a mensalidade que nunca voltou. Não é o carro que você colocou à disposição. Não é aquela despesa que carregou por algum tempo. Dinheiro se recupera. Carro se troca. Algumas coisas materiais a gente reconstrói.

 

O que incomoda é perceber a lógica por trás disso.

 

Você olha para trás e começa a entender que certas pessoas talvez nunca tenham dividido verdadeiramente a vida com você. Elas dividiram as dificuldades delas com você.

 

As suas continuaram suas.

 

E aí, quando aparece uma oportunidade melhor, uma nova estrutura, uma vantagem, um dinheiro inesperado ou simplesmente a possibilidade de seguir sem precisar tanto da sua ajuda, ninguém abre aquela contabilidade afetiva que você ingenuamente imaginava existir.

 

Ninguém pergunta espontaneamente: e ela?

 

Ninguém lembra daquela época em que você pagou. Daquilo que você resolveu. Da situação que você segurou para evitar que tudo desmoronasse.

 

E isso talvez tenha a ver com uma verdade meio desagradável: gratidão não aparece automaticamente junto com melhora financeira.

 

Tenho pensado bastante sobre a minha disponibilidade. Sobre essa mania de resolver. Talvez porque eu saiba ganhar dinheiro. Talvez porque eu tenha aprendido cedo demais que, se alguma coisa precisa ser feita, eu provavelmente vou lá e faço. Talvez porque durante muito tempo eu tenha confundido capacidade com responsabilidade.

 

E não são a mesma coisa.

 

Eu poder pagar não significa que eu tenha obrigação de pagar. Eu conseguir ajudar não transforma o problema de alguém em responsabilidade minha. Eu ter mais dinheiro naquele momento não dá a ninguém o direito de considerar o meu dinheiro menos importante do que o próprio.

 

Aliás, existe uma coisa bastante incômoda nisso: quando alguém cuida com extremo zelo do que é seu, mas usa aquilo que é seu com uma tranquilidade que jamais teria usando o próprio dinheiro.

 

Por que o dinheiro do outro parece sempre mais fácil de gastar?

 

Demorei para enxergar isso porque sempre olhei primeiro para as pessoas e só depois para os números. Achava feio fazer conta demais dentro de relações. Parecia frio. Parecia mesquinho. Parecia que afeto e dinheiro deveriam permanecer separados.

 

Só que os números também contam histórias.

 

Eles mostram quem prometeu e cumpriu. Quem prometeu e esqueceu. Quem recebeu ajuda e lembrou. Quem recebeu e passou a tratar aquilo como obrigação. Quem apareceu quando precisava. Quem continuou presente quando já não precisava mais.

 

E talvez olhar para isso não seja frieza. Talvez seja apenas parar de fingir que determinadas atitudes não significam nada.

 

Eu não quero deixar de ser generosa. Seria uma perda muito maior do que qualquer dinheiro que já deixei pelo caminho. Não quero me transformar em alguém que mede cada gesto, calcula cada carinho ou desconfia de todo mundo.

 

Mas talvez eu precise aprender que generosidade também precisa de limite.

Porque ajudar uma pessoa num momento difícil é uma coisa.

Virar a solução financeira permanente da vida dela é outra.

 

Amor pode acolher. Pode ajudar. Pode emprestar. Pode carregar alguém durante um trecho complicado. Pode até perder dinheiro algumas vezes porque a vida não é uma planilha perfeita.

 

Mas amor não deveria transformar ninguém em recurso disponível.

 

Muito menos fazer de uma pessoa o caixa eletrônico emocional e financeiro de todos enquanto, quando chega a vez dela precisar, cada um cuida muito bem da própria conta.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 13/09/2026
Alterado em 21/09/2026
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