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Kill Bill - Vol2: O quinto passoRevi Kill Bill: Volume 2 e fiquei pensando numa coisa que, anos atrás, provavelmente teria passado por mim sem o mesmo peso. Bill ensinou Beatrix a viver naquele mundo. Conhecia sua força, sua técnica, seus medos, seu corpo, o jeito como ela pensava. Foi chefe, mestre, amante e pai da filha dela. Durante muito tempo, era ele quem estava no centro, até que a mulher que ele ajudou a formar saiu do lugar previsto e voltou para caçá-lo. Há uma ironia quase cruel nisso: o homem que ensinou uma mulher a ser perigosa termina esperando que ela chegue. E Bill sabe que ela vai chegar. Ele não está sendo perseguido por uma mulher que desconhece. Sabe exatamente do que Beatrix é capaz. Aquilo que antes admirava nela agora vem em sua direção. O que antes fazia dela uma mulher extraordinária ao seu lado passa a ser uma ameaça quando ela já não está ao lado dele. Talvez seja aí que eu comece a olhar para Bill de outra maneira.
Eu não acho que Bill não tenha amado Beatrix. Acho que amou. E justamente por isso não gosto quando amor e violência são colocados como se um anulasse necessariamente a existência do outro. Ser humano não funciona com essa limpeza toda. Uma pessoa pode amar e ser ciumenta, possessiva, insegura, controladora. Pode sentir afeto verdadeiro e fazer alguma coisa terrível. O que não aceito é chamar a coisa terrível de amor. O massacre da capela não é amor. É violência. Pode ter vindo da raiva, do abandono, do orgulho ferido, da sensação de traição. Posso compreender tudo isso e ainda dizer que nada lhe dava o direito de fazer o que fez. Talvez seja essa uma diferença que a gente só aprenda de verdade depois de viver um pouco: compreender alguém não significa absolver.
Durante muito tempo romantizamos demais certas coisas. Homem ciumento era homem apaixonado. O que queria saber onde a mulher estava era cuidadoso. O que não aceitava o fim “amava demais”. O insistente era romântico. Não compro mais isso. Cuidado e controle podem até usar palavras parecidas, mas produzem sensações muito diferentes em quem está do outro lado. Quem cuida pergunta, enquanto quem controla precisa saber. Quem ama pode querer que você fique; quem se sente dono acredita que você não pode ir. É aí que Bill me incomoda, porque ele admira Beatrix. Talvez admire justamente aquilo que nela é indomável: sua inteligência, sua técnica, sua coragem, a capacidade de resolver, de matar, de sobreviver. Mas existe uma diferença enorme entre gostar de uma mulher forte e conseguir conviver com a força dela quando essa força se volta para uma decisão que não nos favorece.
Enquanto Beatrix é amante, discípula e assassina dentro do universo dele, sua força também engrandece Bill. É uma mulher excepcional ao lado de um homem excepcional. Existe quase uma vaidade nisso. O problema começa quando ela pega toda essa força e usa para ir embora. E aí eu trago para 2026 sem dificuldade nenhuma. Ainda vejo homens dizendo que gostam de mulheres independentes, inteligentes, resolvidas, sexualmente livres, bem-sucedidas. E acredito que muitos gostem mesmo. Só que independência é bonita enquanto é conceito. Quero ver quando ela ganha salário próprio, opinião própria, agenda própria, desejo próprio e a possibilidade concreta de não precisar ficar; quando ganha mais, discorda, não pede opinião para uma decisão que diz respeito a ela, não atende, estabelece limite ou diz que acabou. É nessas horas que eu começo a entender se aquele homem gostava de uma mulher inteira ou apenas gostava de uma mulher forte que continuasse disponível para ele.
E não transformo isso numa guerra contra homens porque não penso assim. Mulheres também controlam, manipulam, diminuem, traem, usam silêncio como punição, afeto como moeda e culpa como instrumento. Ser mulher não melhora caráter automaticamente. Nunca acreditei nessa santificação feminina. O que me interessa é o poder, e poder dentro de relação quase nunca se apresenta dizendo “eu sou poder”. Ele aparece em pequenas permissões que uma pessoa começa a acreditar que possui sobre a outra. Talvez só descubramos realmente quem acredita mandar quando alguém resolve sair.
Foi o que Beatrix fez. Ela engravidou e alguma coisa mudou. Aquela vida que servia para ela já não servia para a filha. Então desapareceu. Não acho que tenha feito isso da melhor maneira. Bill se sentiu traído e eu consigo compreender a dor dele. Só não transformo dor em direito. Ele tinha direito de sofrer, não tinha direito de puni-la. Essa frase resolve muita coisa para mim. E talvez seja aí que o caçador comece a produzir sua própria caçadora, porque antes do massacre Beatrix não queria Bill morto. Queria distância, queria outra vida. Foi a violência dele que mudou a direção. Bill tentou impedir que aquela mulher existisse fora dele e acabou criando uma mulher que passaria anos caminhando em direção a ele.
Isso é quase perversamente perfeito. Primeiro ela viveu em torno de Bill pelo amor. Depois, pela vingança. Nos dois casos, ele continuava no centro. E essa parte me incomoda muito mais hoje, porque às vezes pensamos que superamos alguém quando passamos do amor para o ódio. Nem sempre. Às vezes só mudamos a forma do vínculo. Continuamos olhando, respondendo mentalmente, querendo que veja, querendo que saiba, querendo que se arrependa, querendo provar que estamos melhores. Ainda é o outro organizando alguma coisa dentro de nós, só que agora chamamos de raiva.
Beatrix passa dois filmes assim. Ela caça Bill, mas Bill continua sendo o destino. Cada pessoa da lista é um caminho até ele. Por isso acho que Bill é a caça mais difícil, não porque seja o melhor lutador, mas porque Beatrix precisa chegar até um homem que ainda significa alguma coisa. O-Ren era uma adversária, Elle era rival, Budd era obstáculo. Bill era história. E história é muito mais difícil de matar.
Quando finalmente os dois ficam frente a frente, Tarantino poderia fazer uma luta gigantesca. Não faz. Coloca os dois para conversar. Acho isso muito mais violento porque agora não existem espadas suficientes para esconder o que houve entre eles. Existe uma filha, desejo antigo, ressentimento, a memória do que foram, a violência que ele cometeu e existe alguma coisa que talvez ainda possa ser chamada de amor. Uma coisa não limpa a outra. Isso, para mim, é fundamental. Não preciso dizer que Bill nunca amou Beatrix para condenar aquilo que fez. Também não preciso dizer que Beatrix deixou de sentir qualquer coisa para compreender por que precisava terminar aquela história.
Às vezes houve amor e acabou mal. Às vezes houve amor e houve violência, não porque violência seja uma forma de amor, mas porque seres humanos conseguem carregar coisas contraditórias dentro de si. Essa diferença é importante. Eu posso reconhecer o que alguém representou para mim e ainda assim saber que não quero mais aquela pessoa na minha vida. Posso sentir falta e não voltar. Posso guardar uma memória boa sem transformar isso em convite. Posso amar alguma coisa que existiu e saber que ela não existe mais. Talvez amadurecer seja parar de precisar transformar todo mundo que saiu da nossa vida em monstro para justificar por que não voltamos.
E então chegamos aos cinco pontos. Pai Mei ensinou a Beatrix uma técnica que Bill conhece, mas não sabe que ela aprendeu. Isso me fascina porque Bill conhecia quase tudo sobre aquela mulher. Quase. E foi justamente o “quase” que o matou. Há alguma coisa muito feminina nisso para mim. Talvez porque mulheres passem a vida sendo definidas pelo olhar dos outros: filha de alguém, mulher de alguém, mãe, amante, competente, difícil, bonita, velha, forte, frágil, independente demais, carente demais. Sempre existe alguém disposto a concluir quem somos.
Eu mesma já fui mulheres muito diferentes dentro da mesma vida e espero continuar sendo. Não quero pertencer para sempre nem à mulher que fui dez anos atrás. Isso também seria uma prisão. Quero ter direito de mudar de opinião, mudar de desejo, querer companhia e depois querer silêncio, ser forte numa situação e admitir que não dou conta de outra. Quero poder saber muito e ainda dizer “não sei”. Quero chegar a lugares importantes sem precisar virar pedra para permanecer neles. Talvez esse seja o meu “quase”, a parte que ninguém termina de conhecer porque eu também ainda estou conhecendo.
E é por isso que a morte de Bill me parece tão bonita dentro de toda aquela crueldade. Ele entende o golpe, olha para Beatrix, levanta e caminha cinco passos. O homem que durante tanto tempo comandou pessoas, decisões e mortes agora não consegue negociar nem o sexto passo. Acabou. Mas a cena que realmente me interessa vem depois. Beatrix não ocupa o lugar dele, não assume o império, não vira uma versão feminina de Bill. Vai embora com a filha.
Isso me pega porque passei muito tempo ouvindo que mulher forte era aquela que aguentava tudo. Depois veio a mulher que conquistava tudo. Hoje penso diferente. Não quero aguentar tudo e também não quero conquistar tudo. Quero saber o que vale a pena. Quero mulheres em posições de poder, claro. Quero mulheres comandando empresas, obras, contratos, governos, dinheiro, equipes. Quero mulheres entrando em todas as salas das quais foram excluídas. Mas não quero que cheguemos lá apenas para repetir o mesmo modelo. Não quero ouvir de uma mulher “eu sofri, então ela também precisa sofrer”. Não quero crueldade chamada de liderança. Não quero mulher destruindo mulher para provar que é forte o suficiente para permanecer numa mesa de homens. Se fizermos isso, trocamos o nome na porta e deixamos a sala exatamente como estava.
Talvez por isso eu não queira Beatrix no lugar de Bill. Quero que ela vá embora. Quero que descubra quem é quando não precisa mais ser amante dele, discípula dele, vítima dele ou caçadora dele, porque todas essas identidades ainda têm Bill no centro. Talvez a verdadeira saída seja justamente quando ele deixa de ser referência. Não quero o homem de joelhos para colocar a mulher de pé. Não é essa a inversão que me interessa. Quero o homem inteiro ao lado de uma mulher inteira. E, quando isso não for possível, quero que ambos tenham maturidade suficiente para entender que o fim de uma relação não transforma ninguém em propriedade perdida.
Bill não conseguiu. Por isso virou caça. Beatrix também precisou de muito tempo para perceber que caçá-lo ainda a mantinha ligada a ele. Talvez seja por isso que os cinco passos tenham ficado comigo. Ele precisou de cinco para morrer. Ela precisou de dois filmes para conseguir sair daquela história. E hoje, olhando para os dois, não é Bill morto que mais me interessa. É Beatrix depois dele, porque talvez chegue uma idade em que vencer já não seja fazer alguém perder. É simplesmente conseguir continuar sem precisar olhar para trás para conferir se a outra pessoa está vendo. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 12/09/2026
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