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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Roteirista/Direção: Quenti Tarantino 

Kill Bill: Volume 2 é o filme da consciência...

Se Kill Bill: Volume 1 é um filme sobre fúria, o segundo me parece muito mais difícil. É um filme sobre vínculo.

 

No primeiro, o sangue ocupa quase tudo. No segundo, Tarantino diminui o ruído e começa a abrir os personagens por dentro.

 

Talvez por isso eu considere Kill Bill: Volume 2 ainda mais cruel. Já não basta olhar para aquilo que fizeram com Beatrix. Precisamos olhar para quem fez, por que fez e, sobretudo, admitir uma coisa bastante desconfortável: Bill não é apresentado como um homem incapaz de amar. Ele ama. Esse é o problema.

Porque talvez uma das confusões mais perigosas das relações humanas seja acreditar que amor e violência não conseguem habitar a mesma pessoa. Conseguem. E os números de 2026 tornam impossível tratar isso apenas como exercício filosófico.

 

Os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025, o maior número da série histórica. Entre os casos com autoria identificada, 96,4% dos autores eram homens. Em 60,9% dos casos, o assassino era parceiro íntimo da vítima; em outros 18,9%, ex-parceiro. Mais de 62% das mulheres foram mortas dentro da própria residência. Não estamos falando prioritariamente de homens desconhecidos atacando mulheres em ruas escuras. Estamos falando de homens que conheciam aquelas mulheres, dormiram com elas, conheciam suas famílias, talvez tenham dito que as amavam e, em muitos casos, tiveram filhos com elas. Isso muda muito a maneira como vejo Bill. E muda também a pergunta sobre Kill Bill: o que acontece quando o homem que ama uma mulher não suporta descobrir que ela possui uma vontade que não depende dele?

 

Bill não manda matar Beatrix porque ela fracassou. Também não porque deixou de valorizá-la. Ela fez algo muito mais ameaçador para alguém acostumado a ocupar o centro de uma relação: decidiu sem ele. Beatrix engravidou e resolveu ir embora. Ela não pediu autorização. Aí começa a verdadeira história do Volume II. O massacre na igreja deixa então de ser apenas um evento extraordinário de um universo de assassinos. Debaixo do exagero de Tarantino existe uma estrutura conhecida demais: uma mulher encerra uma relação e um homem entende essa decisão como algo que ele tem o direito de contestar.

 

No Brasil real, essa passagem da relação para a ruptura continua sendo território de risco. A pesquisa Visível e Invisível, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Datafolha, mostrou em 2025 que 40,7% das brasileiras com 16 anos ou mais disseram já ter sofrido alguma forma de violência por parceiro ou ex-parceiro ao longo da vida. Quando incluídas violência física, sexual, psicológica, isolamento e controle, a estimativa mínima chega a 23,4 milhões de mulheres. Então não consigo assistir a Bill em 2026 apenas como vilão cinematográfico. Ele me interessa como problema. Porque ele não parece acreditar que esteja simplesmente torturando uma mulher. Em sua lógica, foi traído. E talvez seja justamente aí que a filosofia precise entrar.

 

Simone de Beauvoir escreveu O Segundo Sexo investigando algo que continua desconfortavelmente atual: a histórica construção do homem como sujeito e da mulher como “Outro”. O homem aparece como medida, centro, referência; a mulher passa a existir em relação a ele. Bill parece amar Beatrix enquanto consegue compreendê-la dentro do universo que ele conhece: assassina, discípula, amante, mulher extraordinária. Mas ainda situada dentro de sua órbita. Quando Beatrix escolhe algo que não cabe nessa órbita, a relação muda. Ela deixa de ser apenas objeto do desejo de Bill e se torna sujeito da própria decisão. E talvez seja isso que ele não suporta. Beauvoir me ajuda a entender por quê. Não basta admirar uma mulher para reconhecê-la como livre. São coisas diferentes. É perfeitamente possível admirar sua inteligência, desejar seu corpo, respeitar sua competência e, ainda assim, não reconhecer inteiramente sua autonomia.

 

Essa contradição atravessa Bill. Ele admira Beatrix profundamente. Talvez ninguém no filme compreenda tão bem a capacidade dela quanto ele. Mas existe uma diferença entre reconhecer capacidade e reconhecer liberdade. Hegel já havia colocado o reconhecimento no centro de uma das grandes questões da filosofia. Em sua tradição, a autonomia humana não se estabelece plenamente por uma relação em que um sujeito domina e o outro apenas confirma sua importância. Reconhecimento real precisa ser recíproco: eu reconheço o outro como sujeito justamente porque aceito que ele também possui vontade própria.

 

A psicanalista Jessica Benjamin levou esse problema diretamente para as relações afetivas. Em The Bonds of Love, ela trabalha a tensão entre amor, reconhecimento, dominação e submissão. Para Benjamin, a relação se deteriora quando um sujeito precisa transformar o outro em extensão de si, objeto de aprovação ou instrumento de sua própria afirmação. Relação adulta exige suportar uma coisa psicologicamente difícil: o outro existe para além de mim. Talvez Bill não consiga suportar exatamente isso. Beatrix existe além dele. E a gravidez deixa isso evidente.

 

Há alguma coisa extraordinária na decisão dela de abandonar aquela vida. Ela não começa a questionar seu passado porque repentinamente se tornou moralmente pura. Também não deixa de saber matar. O que acontece é muito mais elementar. Existe uma criança. E, de repente, aquilo que ela aceitava para si torna-se intolerável como herança. Isso me interessa muito porque talvez amadurecer seja também começar a perguntar o que estamos transmitindo. Não apenas aos filhos, mas às pessoas que trabalham conosco, às mulheres mais jovens, às relações seguintes, àqueles que entram em nossa vida depois de nós. Beatrix percebe que não quer que a filha cresça dentro daquele sistema. E decide interromper.

 

Quando penso no Volume I, vejo mulheres reproduzindo violência umas contra as outras. Quando chego ao Volume II, começo a perceber que a verdadeira ruptura de Beatrix não acontece quando ela empunha uma espada. Acontece quando decide não transmitir. Isso é muito maior. Freud percebeu cedo uma característica inquietante da vida psíquica: seres humanos possuem tendência a repetir. Repetimos vínculos, padrões e situações dolorosas mesmo quando racionalmente sabemos que nos fazem mal. Sua noção de compulsão à repetição surgiu justamente da tentativa de compreender por que experiências traumáticas retornam em atos, sonhos e relações. Hoje talvez utilizemos vocabulários diferentes para explicar algumas dessas dinâmicas, mas a pergunta permanece: por que reproduzimos aquilo que nos feriu?

 

Kill Bill está cheio disso. O-Ren viu os pais serem mortos e tornou-se assassina. Beatrix sofreu violência e passou o primeiro filme produzindo violência. Vernita tentou escapar, mas o passado chegou à sua cozinha. Elle permaneceu inteiramente dentro daquele universo. Bill praticamente o administra. Alguém precisava interromper. Talvez seja por isso que a maternidade de Beatrix não possa ser reduzida a uma questão sentimental. Ela vê B.B. como possibilidade de quebra da repetição. Só que Bill interpreta sua saída de outra maneira: como abandono, como traição, como algo feito contra ele.

 

É aqui que aparece uma diferença fundamental entre amor e posse. Erich Fromm passou grande parte de sua obra discutindo justamente o equívoco entre amar e possuir. Amar, para Fromm, exige reconhecer o outro como existência separada, não como objeto destinado a suprir nossas necessidades. Há uma diferença brutal entre dizer “eu amo você” e pensar “você é minha”. Bill parece atravessar essa fronteira. E homens reais também atravessam. Talvez por isso seja necessário cuidado com determinadas expressões que romantizamos: “ele tem ciúme porque ama”, “ele quer saber onde ela está porque se preocupa”, “ele não aceita o término porque ama demais”. Controle não se transforma em amor apenas porque utiliza o vocabulário do amor.

 

A Organização Mundial da Saúde inclui explicitamente comportamentos controladores dentro da definição de violência por parceiro íntimo. E os dados globais mostram a dimensão do problema: cerca de 840 milhões de mulheres e meninas, aproximadamente uma em cada três, já sofreram violência física ou sexual de parceiro ou violência sexual de não parceiro ao longo da vida. É por isso que a cena de Bill falando calmamente me incomoda talvez mais agora do que anos atrás. Porque aprendemos durante muito tempo a procurar violência no grito. Mas poder não precisa gritar.

 

Michel Foucault talvez seja particularmente útil aqui. Para ele, poder não é apenas algo que alguém possui. Ele circula nas relações, nas instituições, nos comportamentos cotidianos, na produção de normas e até na maneira como aprendemos a perceber a nós mesmos. Poder não aparece somente quando alguém proíbe. Ele também organiza possibilidades. Bill faz exatamente isso. Ele sabe, ensina, seleciona, organiza, define missões, conhece cada integrante da equipe e ocupa uma posição afetiva e hierárquica ao mesmo tempo. Não precisa estar presente em todas as cenas para continuar sendo centro gravitacional daquele universo.

 

No primeiro filme, as mulheres se enfrentam. No segundo, compreendemos melhor quem estruturou o espaço no qual elas aprenderam a se enfrentar. Isso não absolve nenhuma delas. Também não transforma Bill em origem de todo mal. Seria intelectualmente preguiçoso. Mulheres possuem responsabilidade sobre suas próprias escolhas. O-Ren mata porque escolhe matar. Elle é cruel porque escolhe ser cruel. Beatrix decide se vingar. Vernita tenta matar Beatrix. Reconhecer a existência de estruturas de poder não significa retirar agência individual. Aliás, uma análise adulta precisa conseguir sustentar as duas coisas ao mesmo tempo: existe estrutura e existe escolha.

 

Talvez Foucault seja novamente útil justamente porque onde existe poder também existe possibilidade de resistência. Beatrix resiste. Só que sua resistência precisa atravessar algo muito mais profundo do que Bill. Ela precisa atravessar aquilo que Bill ajudou a formar dentro dela. É por isso que o caixão de Budd é tão importante. Budd é um homem aparentemente derrotado. Vive num trailer, trabalha numa condição humilhante, perdeu o prestígio, não parece representar ameaça comparado ao exército que Beatrix enfrentou no primeiro filme. E ainda assim consegue vencê-la. Enterra-a viva.

 

Essa cena retira tudo dela: espada, espaço, movimento, luz, imagem. Ali não existe “mulher empoderada”. Existe uma mulher dentro de uma caixa tentando respirar. E talvez força real apareça justamente quando todos os símbolos externos de força desaparecem. Ela retorna então à memória de Pai Mei. Pai Mei também é um personagem incômodo: autoritário, arrogante, misógino, cruel. Mas existe uma diferença fundamental entre ele e Bill. Pai Mei transmite uma técnica. Bill deseja pertencimento. Um impõe disciplina ao treinamento. O outro tenta determinar a vida.

 

Essa distinção é importante porque existe uma tendência contemporânea de chamar qualquer desconforto de violência e qualquer autoridade de opressão. Não é assim. Cobrança não é necessariamente abuso. Hierarquia não é automaticamente dominação. Discordância não é violência. A questão ética está nos limites, na autonomia, na possibilidade de sair e naquilo que acontece quando o outro diz não. Talvez aí exista um teste bastante simples para qualquer relação de poder: o que acontece quando a pessoa subordinada deixa de obedecer? O que acontece quando a mulher decide sair? O que acontece quando o funcionário discorda? O que acontece quando o filho cresce? O que acontece quando o parceiro diz que não quer mais? É frequentemente no momento da recusa que descobrimos se existia relação ou propriedade.

 

Beatrix diz não. Bill responde destruindo. Pai Mei a desafia, humilha, treina e testa, mas aquilo que ela aprende com ele acaba sendo exatamente o que permite escapar da sepultura. Ela rompe a madeira, cava a terra e volta. Poucas imagens me parecem tão filosóficas quanto aquela mulher saindo do chão. Porque existem experiências que realmente nos enterram: relacionamentos, lutos, fracassos, humilhações, doenças, demissões, traições, perdas. Há momentos em que ninguém aparece com uma espada para nos tirar dali. Existe apenas aquilo que aprendemos antes de cair.

 

Beatrix sai porque possui recurso interno. Isso me parece mais importante do que qualquer ideia superficial de força feminina. Força não é nunca cair. É possuir alguma coisa que continue sendo sua quando tudo aquilo que sustentava sua identidade externa desaparece. Depois existe Elle. A velha rivalidade retorna, mas no segundo filme algo mudou. Beatrix já está atravessando aquele sistema. Elle continua presa nele. Duas mulheres treinadas dentro do mesmo mundo ainda gastam energia destruindo uma à outra. É brutal e extremamente contemporâneo porque estruturas de poder continuam funcionando melhor quando aqueles que estão abaixo competem horizontalmente em vez de questionarem verticalmente.

 

Mulheres fazem isso com mulheres. Homens fazem isso com homens. Trabalhadores fazem isso com trabalhadores. Grupos disputam reconhecimento de quem controla a estrutura. Hegel já compreendia a dimensão do reconhecimento nessa luta. Jessica Benjamin posteriormente trouxe isso para o terreno afetivo: quando não conseguimos reconhecer o outro como sujeito independente, a relação pode se deslocar para uma lógica de dominador e dominado. Elle não consegue reconhecer Beatrix sem competir com ela. Por isso seu tapa-olho sempre me pareceu mais interessante do que um simples elemento estético. Elle enxerga pela metade e tem absoluta convicção daquilo que vê. Conheço poucas metáforas melhores para o orgulho.

 

Beatrix arranca seu outro olho. É grotesco, cruel e é exatamente a moral antiética de Kill Bill novamente. Não existe pureza. A caçadora também é capaz de monstruosidade. Até que finalmente sobra Bill. E Tarantino faz uma escolha brilhante. Não coloca os dois num templo, não cria uma arena, não organiza um grande duelo. Coloca-os dentro de uma casa. Há comida, conversas, uma criança, intimidade. É muito mais perigoso. Porque ali Beatrix precisa enfrentar não apenas o homem que tentou matá-la, mas o homem que conheceu sua intimidade, o homem com quem teve uma história, o pai de sua filha, o homem que talvez ainda consiga produzir alguma coisa dentro dela.

 

Bill mostra B.B. e Beatrix desmonta. A mulher que atravessou dezenas de homens com uma espada fica indefesa diante de uma criança. Isso diz tudo. Porque finalmente aparece aquilo que estava escondido debaixo da vingança: amor. Não o amor romântico, mas amor como responsabilidade. Então Bill e Beatrix conversam. Essa conversa é, para mim, o verdadeiro duelo final. A filosofia está inteira ali. Quem possui quem? Quem tinha direito de decidir? Até onde o amor cria obrigação? Uma história compartilhada produz algum tipo de propriedade sobre o futuro do outro?

 

Beatrix explica sua escolha. Bill explica sua dor. E existe algo incômodo em admitir que conseguimos compreender os dois. Mas compreensão psicológica não é absolvição moral. Esse talvez seja um dos erros do nosso tempo. Explicar por que alguém fez algo não significa justificar aquilo que fez. Bill pode ter sentido abandono, humilhação, amor, sofrimento. Nada disso transforma a tentativa de matar Beatrix em uma resposta aceitável. Dor não cria direito sobre o corpo alheio.

 

Talvez essa seja uma das frases que 2026 ainda precisa repetir. Os dados brasileiros mostram por quê. No levantamento de 2025, 40% das mulheres que relataram a violência mais grave sofrida nos doze meses anteriores apontaram o atual companheiro, namorado ou cônjuge como autor; ex-parceiros também responderam por parcela expressiva. Isso significa que, para muitas mulheres, o risco não está necessariamente fora da relação. Está dentro dela.

 

E aqui Bill deixa de ser apenas personagem. Ele se transforma numa pergunta ética: o que é amar alguém cuja liberdade pode levá-lo para longe de você? Talvez só exista amor realmente adulto quando conseguimos suportar essa possibilidade. Caso contrário, talvez exista dependência, necessidade, narcisismo, posse, medo, desejo, mas não exatamente reconhecimento. Jessica Benjamin coloca essa questão com uma precisão que combina assustadoramente com Bill e Beatrix: o problema da dominação começa quando não conseguimos sustentar a tensão entre afirmar a nós mesmos e reconhecer a existência independente do outro.

 

Bill ama Beatrix, mas não suporta completamente uma Beatrix que não o escolhe. Então chega o último movimento. E novamente Tarantino recusa aquilo que esperamos. Beatrix utiliza a técnica dos cinco pontos que fazem o coração explodir. Pai Mei ensinou a ela algo que não ensinou a Bill. Esse detalhe é extraordinário porque Bill acreditava conhecer Beatrix. Conhecia sua história, seu corpo, suas habilidades, seus afetos. Mas ainda existia algo nela que não pertencia a ele. Um conhecimento secreto. Uma parte inacessível. É justamente essa parte que o mata.

 

Bill pergunta se Pai Mei ensinou a técnica. Ela confirma. Ele compreende. Levanta. Caminha cinco passos. Morre. O homem que passou dois filmes exercendo poder sobre vidas alheias termina tendo apenas cinco passos sob seu controle. Talvez esse seja o momento em que o caçador finalmente compreenda que se tornou caça.

 

Mas Beatrix não ocupa seu lugar. Isso, para mim, é o ponto decisivo. Ela não assume a organização. Não se torna uma nova versão de Bill. Não transforma a vitória em sucessão. Vai embora com a filha. E talvez exista aí algo que nem sempre discutimos quando falamos sobre mulheres e poder. Liberdade feminina não pode significar apenas conquistar o direito de ocupar a cadeira que anteriormente pertencia a um homem. Às vezes liberdade é poder perguntar se queremos aquela cadeira.

 

Simone de Beauvoir insistia numa concepção de liberdade em que a mulher precisa deixar a posição de existência relativa e assumir a condição de sujeito de seu próprio projeto. Beatrix faz exatamente isso. Sua vitória não está apenas em conseguir derrotar Bill. Está em recusar que Bill continue sendo a medida de sua existência. E essa diferença é imensa.

 

Talvez por isso a última Beatrix me interesse mais do que aquela que matou dezenas de pessoas no primeiro filme. Depois da vingança ela vai para um banheiro, desaba, chora, ri, abraça um brinquedo. Não existe glória. Existe descarga. Durante anos, o ódio forneceu direção. Agora acabou. E surge uma pergunta assustadora que todo processo de vingança esconde: o que fazer com a vida quando já não existe ninguém para odiar?

 

Talvez seja aí que começa a verdadeira liberdade. Não quando o inimigo morre, mas quando ele deixa de organizar nossas decisões. Porque também podemos continuar presos a alguém depois que essa pessoa foi embora. Podemos continuar respondendo mentalmente, provando coisas, disputando, demonstrando sucesso, desejando arrependimento, querendo que veja, querendo que sofra, querendo que reconheça. Isso também é vínculo. Só mudou de forma.

 

Talvez matar Bill seja, simbolicamente, interromper essa relação psíquica. Não permitir que aquele homem continue ocupando o centro mesmo como inimigo. Em 2026, portanto, minha leitura de Kill Bill: Volume 2 já não é apenas a história de uma mulher que caça um homem. É a história de uma mulher que percebe que, para realmente deixar de ser caça, precisará retirar aquele homem do lugar de referência da própria existência.

 

E isso é muito mais difícil do que matá-lo.

 

Porque homens não exercem poder sobre mulheres apenas pela força. Exercem através do amor, do dinheiro, da aprovação, do medo, da dependência, da hierarquia, da culpa, da intimidade, da expectativa, da promessa e, às vezes, da proteção. Às vezes simplesmente pela crença de que possuem direito de participar de decisões que não são suas. Os números demonstram que essa discussão não terminou. Em 2025, o Brasil alcançou novo recorde de feminicídios. Globalmente, quase uma em cada três mulheres já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida.

 

Mas transformar todos os homens em Bill seria uma leitura tão pobre quanto transformar todas as mulheres em Beatrix. O problema não é o homem. É a relação que não consegue suportar liberdade. É o amor que precisa de submissão. É o poder que não tolera contestação. É o sujeito que só consegue existir plenamente se transformar alguém em objeto.

 

É aí que filosofia, psicanálise e Kill Bill se encontram. Hegel chama nossa atenção para a necessidade do reconhecimento recíproco. Beauvoir pergunta o que acontece quando a mulher é constituída como Outro. Foucault nos mostra que o poder não vive apenas nas grandes instituições, mas atravessa relações, corpos e comportamentos cotidianos. Jessica Benjamin leva essa tensão para dentro dos laços de amor e pergunta como reconhecimento pode se transformar em dominação.

 

E Beatrix responde de uma maneira menos elegante.

 

Ela vai embora.

 

Talvez seja isso que Bill nunca conseguiu aceitar. No começo da história, ele está acima dela. Ela está caída. Ele possui a arma. Ela recebe o tiro. No final, estão sentados frente a frente. Ele já não decide. Cinco passos depois, Bill desaparece.

 

E Beatrix continua.

 

Talvez seja essa a imagem que mais me interessa. Não a mulher que matou o homem. A mulher que sobreviveu ao poder que aquele homem exercia sobre ela e, principalmente, decidiu não herdar o lugar dele. Porque talvez a forma mais profunda de vencer uma estrutura não seja tomar o seu comando.

 

É conseguir viver sem precisar dela.

 

E talvez seja justamente aí que a caçadora finalmente deixa de ter uma caça.

 

Ela volta a ter uma vida.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 12/09/2026
Alterado em 13/09/2026
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