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Diretor/Roteirista: Quenti TarantinoHá filmes que envelhecem...Outros ficam parados no mesmo lugar enquanto nós envelhecemos diante deles... Quando voltamos, encontramos o mesmo filme, mas já não somos a mesma pessoa que sentou diante daquela tela anos atrás.
Foi isso que aconteceu comigo ao rever Kill Bill: Volume 1 em 2026.
Da primeira vez, eu vi vingança. Vi a espada, o macacão amarelo, a estética impecável, a música, o sangue exagerado e aquela satisfação quase infantil de acompanhar uma mulher atravessando um exército de homens para chegar até aqueles que tentaram destruí-la.
Hoje eu continuo vendo tudo isso, mas alguma coisa mudou.
Comecei a olhar para as mulheres.
E, quando fazemos isso, Kill Bill fica bem menos confortável.
Porque são mulheres extraordinariamente fortes. O-Ren Ishii é poderosa, inteligente, disciplinada e chega ao topo de uma organização comandada por homens. Vernita Green sobrevive ao mundo dos assassinos e tenta construir uma vida completamente diferente. Elle Driver é habilidosa, ambiciosa, sexualmente segura e brutalmente consciente do próprio poder. Beatrix Kiddo atravessa a morte e volta.
Nenhuma delas é fraca.
Mesmo assim, quase todas estão, de alguma maneira, organizadas ao redor de Bill.
Foi isso que começou a me incomodar.
Bill nem precisa aparecer durante grande parte do primeiro filme para permanecer no centro da história. Ele é chefe, amante, referência, autoridade, memória, desejo, ameaça. Seu poder não depende exclusivamente da força física. É muito mais sofisticado do que isso. Ele construiu um universo no qual mulheres extremamente capazes se relacionam com ele e, em alguma medida, também passam a se relacionar umas com as outras através dele.
Talvez seja aí que Kill Bill tenha envelhecido melhor do que imaginávamos.
Porque 2026 ainda conhece esse mecanismo.
Mudamos o vocabulário. Mulheres chegaram a diretorias, conselhos, universidades, empresas, governos, canteiros de obra, operações industriais, tribunais. Administram contratos milionários, comandam equipes, tomam decisões técnicas, sustentam famílias, abrem empresas e ocupam lugares que durante muito tempo lhes foram negados.
Mas ocupar o espaço não significa necessariamente ter desmontado a lógica que existia dentro dele.
Às vezes entramos.
Sentamos à mesa.
E continuamos jogando segundo regras que não fomos nós que escrevemos.
É por isso que Elle Driver me interessa tanto.
Existe uma rivalidade evidente entre Elle e Beatrix. Há competência envolvida, naturalmente, mas existe também Bill. A escolhida. A preferida. A mulher que saiu. A mulher que ficou. A mulher que ocupou o lugar deixado pela outra.
Esse mecanismo é antigo.
Um homem não precisa necessariamente dizer a duas mulheres que elas devem competir. Basta existir um ambiente em que apenas uma delas possa ser reconhecida.
Então começa uma disputa silenciosa.
Quem é mais competente. Quem é mais bonita. Quem é mais desejada. Quem tem mais acesso. Quem recebe mais confiança. Quem senta mais perto do poder. Quem será ouvida primeiro. Quem será chamada para a reunião. Quem será promovida. Quem é “difícil”. Quem é “emocional”. Quem sabe “lidar melhor com os homens”.
Eu já não consigo assistir à relação entre Elle e Beatrix sem pensar nisso.
Porque são duas mulheres extremamente capazes disputando território dentro de uma estrutura cujo centro de gravidade continua sendo um homem.
E existe uma perversidade nisso.
Mulheres fortes gastando força umas contra as outras.
Talvez essa seja uma das formas mais eficientes de manutenção do poder.
Não impedir que mulheres sejam fortes.
Permitir que sejam fortíssimas, desde que permaneçam ocupadas disputando entre si.
Por isso O-Ren Ishii é tão interessante.
Ela aparentemente rompeu esse mecanismo. Não está mais pedindo lugar. Está no comando.
Só que o preço foi enorme.
Para ocupar aquele espaço, O-Ren precisou se tornar mais temida do que os homens ao redor dela.
Quando questionam sua autoridade, ela não pode demonstrar hesitação. Não pode simplesmente ser competente. Precisa produzir uma demonstração brutal de poder.
Decapita um homem diante dos demais.
É Tarantino, portanto tudo é excessivo.
Mas retire a espada da cena.
Quantas mulheres ainda entram numa reunião sabendo que precisam chegar mais preparadas?
Quantas sabem que um erro que seria tratado como erro quando cometido por um homem pode se transformar em julgamento de competência quando cometido por elas?
Quantas endureceram a voz?
Quantas aprenderam a não demonstrar dúvida?
Quantas passaram a controlar cuidadosamente roupa, postura, expressão, emoção, idade, maternidade, sexualidade, aparência e até a maneira de discordar?
Em algum momento chamamos isso de força.
Nem sempre é... Às vezes é adaptação!
O-Ren não nasceu daquela maneira. Existe uma menina antes daquela mulher. Uma criança que viu os pais morrerem e aprendeu cedo que estar vulnerável era perigoso.
Ela não curou essa menina.
Construiu um império para que ninguém jamais conseguisse colocá-la novamente debaixo daquela cama.
Talvez por isso eu tenha algum cuidado com essa expressão tão repetida atualmente: mulher forte.
Eu gosto de mulheres fortes. Mas comecei a perguntar quanto custou.
Porque às vezes estamos elogiando como força aquilo que foi necessário desenvolver simplesmente porque não havia ninguém para dividir o peso.
Uma mulher aguenta tudo e alguém diz:
“Ela é forte.”
Talvez fosse melhor perguntar por que ela precisou ser tanto.
Existe uma violência escondida na romantização da mulher que suporta tudo.
A mulher que trabalha, resolve, cuida, administra, antecipa, protege, organiza e ainda encontra algum espaço para parecer emocionalmente equilibrada.
Ela dá conta.
Então continuamos entregando coisas para ela dar conta.
Até que sua capacidade de suportar se transforma na justificativa perfeita para que ninguém precise ajudá-la.
O-Ren me faz pensar nisso.
Beatrix também.
Beatrix literalmente precisa acordar sozinha.
Seu corpo foi destruído. Sua história foi interrompida. Sua maternidade lhe foi arrancada. Ela abre os olhos e não encontra uma estrutura esperando para reconstruí-la.
Então começa pelo próprio corpo.
Mover um dedo. Depois outro. Voltar a andar. Voltar a lutar. Voltar a decidir.
É uma imagem poderosa de resistência feminina, mas existe alguma coisa triste quando resistência se torna obrigação.
Porque ninguém deveria precisar ser indestrutível para ter direito a continuar existindo.
Talvez seja aqui que minha leitura de 2026 se afaste daquela que eu tinha anos atrás.
Hoje não quero apenas saber se Beatrix conseguirá matar Bill.
Quero saber por que aquelas mulheres precisaram chegar até ali.
E principalmente por que não conseguiram reconhecer umas nas outras aquilo que eu, como espectadora, consigo reconhecer.
Veja O-Ren e Beatrix.
Quando finalmente ficam frente a frente, existe algo raro.
Reconhecimento.
O-Ren percebe que subestimou Beatrix e admite.
É um instante pequeno, mas talvez seja uma das cenas mais femininas do filme para mim.
Não porque exista amizade. Não existe. Não porque uma perdoe a outra. Também não.
Mas porque uma mulher consegue olhar para outra e reconhecer sua capacidade.
Isso deveria ser simples... Não é?
Existe uma educação feminina silenciosa para comparação.
Aprendemos muito cedo a olhar para outra mulher e procurar diferença.
Ela é mais bonita. Mais jovem. Mais magra. Mais desejada. Mais bem-sucedida. Mais inteligente. Mais segura. Mais próxima do chefe. Mais próxima daquele homem.
E raramente alguém nos ensina o exercício contrário: olhar para uma mulher extraordinária e não sentir que sua existência diminui a nossa.
Talvez uma das maiores maturidades femininas seja justamente essa.
A capacidade de admirar outra mulher sem desaparecer diante dela.
Reconhecer competência sem sentir ameaça.
Defender uma mulher numa sala em que ela não está.
Não participar da desqualificação apenas para permanecer aceita pelo grupo.
Não usar contra outra mulher aquilo que sabemos que seria usado contra nós.
Não transformar vulnerabilidade confidenciada em munição.
Isso, para mim, é estar do lado de outra mulher.
Não significa concordar sempre. Não significa proteger erro.
Muito menos criar uma solidariedade automática baseada apenas no sexo.
Mulheres erram. Mulheres são cruéis. Mulheres abusam de poder. Mulheres podem destruir outras mulheres.
Kill Bill deixa isso muito claro.
Estar ao lado de uma mulher também pode significar confrontá-la.
O que muda é não aceitar que ela seja diminuída simplesmente porque é mulher.
E talvez Vernita Green seja quem torna essa questão mais dolorosa.
Porque quando Beatrix chega à sua casa já não encontra apenas uma assassina.
Encontra uma mãe.
Há uma menina naquele ambiente. Há uma geração seguinte observando tudo.
Quando Beatrix mata Vernita e a filha presencia a morte, alguma coisa terrível acontece.
A violência passa de uma mulher para outra através de uma menina.
E Beatrix sabe.
Quando diz à criança que poderá procurá-la no futuro caso continue ressentida, ela reconhece uma verdade que nenhuma espada consegue resolver: vingança produz continuidade.
Uma menina viu a mãe morrer.
O-Ren também.
E naquele instante Kill Bill fecha um círculo assustador.
Talvez aquela criança possa crescer, aprender a lutar e um dia procurar Beatrix.
Depois outra criança poderá assistir à morte de outra mãe.
E continuaremos chamando isso de acerto de contas.
É por isso que a ideia de mulheres ao lado de mulheres precisa ser mais séria do que uma frase bonita de rede social.
Não se trata de dizer “mulheres apoiam mulheres” enquanto continuamos reproduzindo exatamente os mecanismos que nos colocam umas contra as outras.
Trata-se de interromper transmissão.
Alguém precisa decidir que determinada violência termina nela.
Essa talvez seja uma força muito maior do que a capacidade de devolver.
E aqui Beatrix me coloca diante de uma contradição.
Eu compreendo sua raiva. Compreendo seu desejo de vingança. Em muitos momentos torço por ela.
Mas compreender não significa conceder razão moral absoluta.
Ela sofreu violência e também produz violência.
Foi vítima e consegue transformar outras pessoas em vítimas.
Foi desumanizada e, em determinados momentos, desumaniza.
Isso não diminui aquilo que fizeram contra ela.
Apenas impede que sua dor seja usada como autorização para tudo.
Essa distinção me parece especialmente necessária em 2026.
Estamos vivendo uma época que gosta de escolher lados rapidamente.
Queremos saber quem é vítima e quem é agressor, quem é bom e quem é ruim, quem deve ser defendido e quem deve ser destruído.
Só que seres humanos são mais inconvenientes do que essas classificações.
Uma mulher pode ter sido vítima ontem e agir violentamente hoje.
Um homem pode exercer poder sem levantar a voz.
Uma relação pode parecer consensual e ainda assim existir dentro de uma desigualdade profunda.
Uma mulher pode ocupar um cargo elevado e continuar submetida a mecanismos de poder que não aparecem no organograma.
E outra mulher pode participar disso.
Essa talvez seja a parte que precisamos ter coragem de discutir.
O poder masculino não se mantém apenas por homens.
Muitas vezes mulheres também aprendem a reproduzi-lo porque sobreviver dentro da estrutura parece mais seguro do que enfrentá-la.
É possível aprender a linguagem do poder, ocupar uma posição dentro dele e depois utilizá-lo contra outras mulheres.
Elle faz isso.
O-Ren faz isso de outra maneira.
Beatrix também... Nenhuma delas é moralmente pura.
Ainda bem... Porque mulheres reais também não são.
Não precisamos transformar mulheres em criaturas moralmente superiores para defender sua dignidade.
Essa expectativa também é uma prisão.
Uma mulher não precisa ser perfeita para merecer respeito.
Não precisa ser delicada para ser ouvida.
Não precisa ser agradável para ser competente.
Não precisa estar certa em tudo para estar certa sobre aquilo que fizeram contra ela.
E não deveria precisar se tornar cruel para ser considerada forte.
Talvez seja exatamente isso que eu encontre hoje em Kill Bill.
Durante muito tempo confundimos força feminina com capacidade de suportar.
Depois começamos a confundi-la com capacidade de enfrentar.
Talvez esteja chegando a hora de entender uma terceira forma de força.
A capacidade de não reproduzir.
Não reproduzir a violência que recebemos.
Não reproduzir a humilhação que sofremos quando finalmente chegamos ao lugar de quem pode humilhar.
Não reproduzir sobre mulheres mais jovens aquilo que mulheres mais velhas fizeram conosco.
Não disputar migalhas de reconhecimento masculino como se fossem poder.
Não aceitar que outra mulher precise ser diminuída para que possamos nos sentir maiores.
Não transformar dor em identidade permanente.
Isso não é passividade... Exige uma força absurda. Porque devolver costuma ser instintivo.
Interromper exige consciência!
Talvez seja por isso que o sangue de Kill Bill precise ser tão exagerado. Aquele sangue não é realista porque aquela raiva também não pretende ser medida. Braços voam, cabeças são cortadas, corpos se acumulam. O excesso quase transforma a violência em abstração.
Eu vejo ali uma raiva feminina ocupando toda a tela.
E gosto que ela exista.
Mulheres foram autorizadas durante séculos a sofrer de determinadas maneiras. Podiam chorar, esperar, enlouquecer de amor, perdoar, suportar, morrer de tristeza.
A mulher furiosa sempre incomodou mais.
Porque uma mulher triste pode ser consolada.
Uma mulher com raiva começa a fazer perguntas.
Por que comigo? Por que aceitei? Por que fiquei? Por que ninguém falou? Por que ele podia? Por que eu precisava provar duas vezes?
Por que outra mulher me atacou quando poderia ter entendido exatamente o que estava acontecendo?
Talvez seja essa mulher que me interessa em 2026.
Não aquela que pega a espada.
Aquela que finalmente faz a pergunta.
Porque depois de certa idade começamos a entender que nem toda batalha precisa terminar com alguém no chão para que tenhamos vencido.
Às vezes vencer é sair. Às vezes é dizer não. Às vezes é não competir. Às vezes é indicar outra mulher para uma oportunidade. Às vezes é dizer numa reunião: “Ela ainda não terminou de falar.” Às vezes é recusar uma conversa em que outra mulher está sendo destruída sem estar presente para se defender. Às vezes é reconhecer que fomos nós que erramos.
O-Ren consegue fazer isso segundos antes de morrer.
Talvez não precisemos esperar tanto.
Hoje, quando olho para Beatrix, O-Ren, Vernita e Elle, já não vejo apenas quatro mulheres perigosas.
Vejo quatro formas de sobrevivência. Uma transformou trauma em poder.
Outra tentou esconder o passado dentro de uma vida normal.
Outra transformou rivalidade em identidade.
E outra decidiu que só conseguiria continuar depois de devolver ao mundo toda a violência que recebeu.
Nenhuma encontrou exatamente paz. Talvez isso diga alguma coisa.
Porque força sem consciência pode apenas nos tornar mais eficientes dentro da mesma estrutura que nos feriu.
E poder sem elaboração pode transformar a vítima de ontem na pessoa que machucará alguém amanhã.
Talvez a mulher de 2026 precise ser forte, sim... Não tenho nenhuma ingenuidade sobre isso.
Ainda existem salas em que precisamos chegar mais preparadas. Ainda existem homens que confundem autoridade com propriedade. Ainda existe assédio disfarçado de admiração, controle disfarçado de cuidado, condescendência disfarçada de gentileza. Ainda existem espaços nos quais uma mulher competente incomoda simplesmente porque não pede autorização para saber o que sabe.
Precisamos de força.
Mas talvez não daquela força solitária que nos ensinaram a admirar.
Porque existe algo profundamente conveniente para qualquer estrutura de poder em mulheres que acreditam que precisam resolver tudo sozinhas.
Uma mulher isolada pode ser extraordinariamente forte.
Duas mulheres que reconhecem a força uma da outra começam a mudar a estrutura.
E talvez seja justamente essa possibilidade que não existe em Kill Bill.
Elas se encontram. Medem forças. Reconhecem-se por alguns segundos.
E se destroem.
Hoje, mais do que saber quem Beatrix conseguirá matar, é isso que me incomoda.
Fico imaginando o tamanho daquelas mulheres se não tivessem aprendido que para uma existir plenamente a outra precisava sair do caminho.
Talvez essa seja minha leitura mais feminina de Kill Bill em 2026.
Não quero mulheres menos perigosas.
Quero mulheres menos disponíveis para serem usadas umas contra as outras.
Não quero que abandonem a raiva. Algumas coisas merecem nossa raiva.
Quero apenas que saibamos identificar para onde ela realmente deveria estar olhando.
Porque talvez o gesto mais radical de uma mulher não seja aprender a empunhar a espada.
Talvez seja perceber quem colocou a espada em sua mão, quem apontou a outra mulher como inimiga e quem permaneceria no poder depois que uma das duas estivesse no chão.
Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 12/09/2026
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