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crônica lírico-filosófica de erotismo e transgressão:O QUE A GENTE DESEJA QUANDO NINGUÉM ESTÁ OLHANDOTalvez tenha começado pelo corpo. Quase sempre começa. O corpo é menos covarde que a palavra, não precisa explicar por que quer, não precisa traduzir intenção, não pede currículo moral antes de sentir. Depois vieram as pequenas transgressões. Renda onde eu esperava encontrar dureza. Delicadeza onde me ensinaram que deveria haver homem. Barba, desejo, feminino, masculino, tudo misturado sem pedir autorização a ninguém. E eu, que já havia passado tempo demais lendo Bataille para acreditar na inocência dos interditos, fiquei olhando. Não exatamente para o que ele mostrava, mas para o lugar onde aquilo me levava.
Existe uma parte do desejo que só aparece quando alguma fronteira é tocada. Não necessariamente atravessada. Às vezes basta chegar perto. O proibido tem essa arrogância de achar que existe sozinho, quando na verdade depende profundamente da vontade de ultrapassá-lo. Bataille sabia disso. O sagrado também. Talvez por isso certas coisas me causem simultaneamente curiosidade e recuo. Meu corpo diz venha. Minha história pergunta até onde. E minha cabeça, essa desgraçada que nunca desliga, quer compreender o mecanismo inteiro enquanto alguma coisa dentro de mim já está pegando fogo.
Ele parece não ter esse problema. Ou talvez tenha e esconda melhor. Há nele uma liberdade que às vezes me encanta e às vezes me assusta. Como se vergonha fosse apenas mais uma roupa que se pode tirar quando começa a incomodar. Eu não sou assim. Minha liberdade foi construída em cima de ruínas, portanto conheço o preço dela. Posso atravessar muita coisa, mas preciso saber quem segura minha mão quando a brincadeira deixa de ser brincadeira.
Foi justamente aí que quase nos perdemos.
Não por sexo. Sexo seria fácil demais. Nos perdemos tentando dar significado ao que cada um mostrava. Duas línguas, duas culturas, dois repertórios, dois corpos desejando e duas cabeças entendendo coisas completamente diferentes. Ele me dava imagens. Eu procurava frases dentro delas. Eu fazia perguntas. Ele provavelmente escutava acusações que eu nunca fiz. Houve silêncio. Houve um tchau. Houve aquele instante ridículo em que duas pessoas que se desejam resolvem fingir que podem simplesmente apagar uma conversa e, junto com ela, apagar o que sentiram.
Não apagou.
Depois ele voltou a existir na minha tela. Ou fui eu. Já nem importa tanto. Importa que alguma coisa continuava ali, inconvenientemente viva.
E dessa vez comecei a prestar atenção em outras coisas. Numa fotografia olhando o horizonte. Numa paisagem. Numa frase pequena. No homem que existe antes da provocação e depois dela. Descobri que talvez minha curiosidade mais perigosa não seja vê-lo sem roupa. Isso eu já conheço. O que realmente começou a me inquietar foi querer saber quem ele é quando não está tentando provocar ninguém.
Talvez essa seja minha verdadeira perversão.
Eu quero o que existe depois do corpo.
Quero saber se sobra conversa. Quero descobrir se aquele homem capaz de brincar com tantas fronteiras consegue também permanecer quando nenhuma delas precisa ser atravessada. Quero saber do que ele ri, o que teme, onde se reconhece, por que olha uma montanha e decide fotografá-la, que espécie de silêncio existe dentro dele quando o desejo finalmente se cala.
Porque carne, por mais deliciosa que seja, acaba aprendendo o caminho.
O difícil é encontrar alguém que ainda provoque curiosidade depois que a gente já sabe onde tocar.
E talvez eu esteja começando a desconfiar que transgressão mesmo não seja tirar a roupa, misturar gêneros, brincar com interditos ou confessar desejos que fariam os bem-comportados atravessarem a rua.
Talvez a maior transgressão ainda seja outra.
Deixar alguém entrar... Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 04/09/2026
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