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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Sobre o cancelamento da campanha de Renan Santos

O dia em que uma mulher discorda e vira “criança”

Eu gosto de debate. Gosto mesmo.

 

Principalmente daquele que me obriga a parar, voltar no que eu disse e pensar: será que eu estou errada? Não tenho problema nenhum com isso. Aliás, acho uma delícia intelectual encontrar alguém que me faça rever uma certeza.

 

O que eu não gosto é dessa mania de algumas pessoas de confundirem discordância com ignorância. E ontem eu assisti a isso acontecendo quase didaticamente. Começamos falando de Constituição, limites do Judiciário, interpretação, competência, proporcionalidade... assunto bom, daqueles que poderiam render horas. Eu dizia uma coisa, ele dizia outra. Até aí, perfeito. Só que em algum momento deixou de ser suficiente discordar de mim. Era preciso me explicar.

 

Depois me ensinar. Depois sugerir que eu lesse. Depois me mandar procurar no YouTube. Depois oferecer uma Constituição, como se eu jamais tivesse visto uma. E, claro, chegamos ao inevitável de 2026: “vc escreveu isso ou usou IA?”. Eu quase ri.

 

Hoje uma mulher escreve duas frases articuladas na internet e já aparece alguém desconfiado de que deve existir uma máquina escondida atrás dela. Talvez seja a versão tecnológica de uma desconfiança bem mais antiga: será que foi ela mesma que pensou isso?

Foi. E continuou pensando. O mais curioso veio depois. Como eu não aceitei a interpretação dele como verdade revelada, virei “criança”. Criança. Aos 45+ que ótimo!

 

E ainda veio a explicação de que era “com carinho”. Ah, o carinho... essa embalagem maravilhosa onde cabe tanta condescendência...

 

Não, meu senhor, eu não queria carinho... Eu queria argumento... Eu não estava ali procurando pai, professor, tutor, orientador nem alguém que me dissesse o que ler antes de dormir... Eu estava debatendo com um homem adulto e esperava apenas a reciprocidade básica de ser tratada como uma mulher adulta capaz de sustentar aquilo que pensa.

 

E talvez seja justamente aí que essa história deixe de ser sobre mim e sobre ele. Quantas vezes uma mulher entra numa discussão e, enquanto concorda, é inteligente, interessante, articulada... mas basta sustentar uma divergência com firmeza para começarem a procurar alguma deficiência nela?

Não leu.

Não entendeu.

Está nervosa.

Está esbravejando.

Precisa estudar.

Usou IA.

É menina.

É criança...

 

Percebam que, aos poucos, ninguém mais está respondendo ao argumento. Estão reposicionando a mulher. Colocando-a alguns degraus abaixo para que a conversa volte a ficar confortável.

 

E isso me incomoda profundamente porque esse mecanismo não vive só nos comentários do Instagram. Está em reunião de trabalho, universidade, casamento, política, mesa de bar, conselho administrativo, repartição pública. Está em todo lugar onde alguém prefere diminuir o interlocutor a correr o risco de admitir: talvez ele tenha um ponto. E é assim também que debates públicos adoecem.

 

Primeiro eu paro de considerar legítimo o que você pensa. Depois passo a duvidar da sua capacidade de pensar. Depois atribuo má-fé à sua discordância. Daí em diante já não existe conversa, existe trincheira.

 

As grandes rupturas humanas não começam necessariamente com gritos. Muitas começam nesse gesto aparentemente pequeno de decidir que o outro não merece mais ser reconhecido como interlocutor.

 

No fim da nossa discussão veio uma pequena ironia que eu adorei. Depois de Constituição, YouTube, IA, “criança” e tudo mais, ele escreveu que tinha gostado de mim, que eu sabia escrever e que seria uma boa conversa.

 

Eu sorri. Olha só... no final descobriram que a criança sabia falar. Talvez eu sempre tenha sabido. Talvez o problema nunca tenha sido a minha capacidade de compreender o que ele dizia... Talvez tenha sido apenas a minha inconveniente capacidade de compreender... e ainda assim não concordar.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 31/08/2026
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