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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Quinta-feira e a mania de não aceitar a primeira resposta

Quinta-feira sempre me parece um dia meio sem identidade.

 

Não tem mais a arrogância da segunda-feira, quando todo mundo acredita que vai reorganizar a vida inteira até sexta. Também não tem ainda a irresponsabilidade gostosa da sexta. Quinta fica ali... no meio do caminho... olhando para tudo aquilo que a gente jurou que resolveria durante a semana e perguntando baixinho:

 

E aí?

 

Talvez por isso hoje eu tenha acordado pensando em respostas.

 

Não nas respostas que eu ainda não tenho. Nas que chegaram rápido demais.

 

Tenho uma certa dificuldade com respostas muito prontas. Daquelas que encaixam perfeitamente, fecham o assunto, colocam um ponto final bonito e ainda deixam a sensação de que tudo foi resolvido.

 

Desconfio.

 

Às vezes leio alguma coisa e concordo. Dois minutos depois estou pensando: mas será?

 

Aí começa.

 

De onde saiu isso?

Vale para todo mundo?

Em que situação não vale?

Quem pensa diferente?

O que eu não estou enxergando?

E se estiver errado?

 

É cansativo... Principalmente para quem convive comigo.

 

Provavelmente até para uma inteligência artificial.

 

Porque descobri que faço com ela exatamente aquilo que faço com quase tudo: pergunto até a resposta começar a reclamar da minha presença.

 

Ela responde.

 

Eu volto...

“Tem certeza?”

 

Ela explica...

“Mas vc está considerando isso?”

 

Ela reorganiza...

“Não... ainda não me convenceu.”

 

E seguimos... rs

 

Talvez seja uma característica minha. Talvez tenha relação com AH/SD. Talvez seja apenas essa minha velha incapacidade de passar por uma ideia sem abrir a porta e olhar o que tem atrás.

 

Só sei que, quanto mais tenho acesso a ferramentas capazes de responder quase qualquer coisa em segundos, menos interessada fico na velocidade da resposta.

 

Comecei a me interessar pela qualidade da pergunta.

 

Porque resposta todo mundo tem.

 

A internet tem!

O especialista tem!

O influenciador tem!

O colega do LinkedIn tem!

A IA certamente tem!?

 

E aquele parente que ninguém perguntou também tem.

 

O que anda raro é alguém permanecer alguns minutos diante de uma ideia sem precisar imediatamente escolher um lado.

 

Talvez pensar seja justamente suportar esse pequeno desconforto.

 

Não saber ainda.

Mudar de opinião.

 

Descobrir que uma certeza nossa tinha uma rachadura.

 

Admitir que alguém que pensa completamente diferente pode ter percebido uma parte que nós não percebemos.

 

Voltar.

Ler novamente...  Perguntar melhor.

 

Eu tenho gostado disso... Inclusive quando me irrita.

 

Talvez porque tenha entendido uma coisa meio tarde: inteligência não está em ter resposta para tudo.

 

Às vezes está justamente naquela pergunta inconveniente que aparece depois que todo mundo já decidiu que o assunto terminou.

 

E talvez seja por isso que quinta-feira combine tanto comigo.

 

Ela também não conclui nada.

 

Só fica ali...

 

entre aquilo que a semana prometeu e aquilo que ainda pode acontecer...

 

fazendo uma pergunta silenciosa: "tem certeza de que acabou?"

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 27/08/2026
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