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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O desejo também tem fronteiras...

Há encontros que finalizamos, mas não por falta de desejo... Terminam porque, em algum momento, o desejo leva duas pessoas até uma fronteira e elas descobrem que não estão olhando para o mesmo lado.

 

Talvez seja essa uma das coisas que menos admitimos quando falamos de liberdade sexual. Gostamos de pensar que ser livre significa aceitar, experimentar, não julgar, ultrapassar a moral estreita que durante séculos decidiu quais corpos podiam desejar e de que maneira. Mas liberdade não é ausência de limite. Liberdade também é poder dizer: até aqui eu consigo caminhar com você. Daqui em diante, não.

 

E isso não faz de ninguém conservador, covarde ou menos livre.

 

Durante muito tempo confundimos maturidade com tolerância absoluta. Como se uma pessoa emocionalmente sofisticada tivesse obrigação de compreender tudo, acolher tudo, experimentar tudo. Não tem. Compreender uma coisa não significa desejá-la. E talvez esse seja um dos grandes equívocos do nosso tempo.

 

Há desejos que conseguimos observar com curiosidade. Outros nos provocam. Alguns nos assustam e, justamente por isso, nos atraem. Existem ainda aqueles que pertencem ao outro e podem permanecer no outro sem causar qualquer problema. Até que alguma coisa muda. O desejo atravessa uma fronteira que não sabíamos que existia.

 

E o corpo percebe antes da razão.

 

Freud compreendeu cedo que a sexualidade humana jamais foi uma estrada reta. O desejo guarda resíduos, símbolos, deslocamentos, objetos que recebem significados que nem sempre sabemos explicar. Aquilo que excita uma pessoa pode ser absolutamente indiferente para outra.

 

Bataille foi mais fundo nesse desconforto. Percebeu que existe no erotismo uma atração pelo limite, pelo interdito, por aquela região em que desejo e proibição quase se tocam. Talvez seja justamente por isso que certas experiências sejam tão intensas. Não porque sejam necessariamente belas, mas porque chegam perto demais daquilo que aprendemos a não atravessar.

 

Só que há uma diferença fundamental entre reconhecer a existência do interdito e desejar atravessá-lo.

 

Nem todo abismo precisa ser explorado. Alguns precisam apenas ser reconhecidos.

 

O problema começa quando duas pessoas confundem cumplicidade com equivalência. Uma revela alguma coisa íntima. A outra escuta. Depois vem outra revelação. E outra. A intimidade cresce. O território vai ficando mais profundo, mais estranho, mais verdadeiro. Até que aquele que revela começa a acreditar que ser acolhido significa ser compreendido exatamente como gostaria. E aquele que escuta começa a acreditar que compreender exige permanecer.

 

Não exige.

 

Há um momento curioso nas relações humanas em que conhecer mais alguém não aumenta a proximidade. Diminui.

 

Criamos uma literatura inteira sobre descobrir alguém e se apaixonar ainda mais. Pouco falamos sobre o contrário. Sobre descobrir e perder o encanto. Não porque o outro tenha se tornado uma pessoa pior, mas porque alguma informação reorganizou tudo aquilo que víamos nele.

 

Uma frase. Uma história. Um comportamento. Uma fronteira moral. Uma forma de compreender intimidade.

 

E então acontece uma coisa silenciosa. A pessoa continua fisicamente a mesma. A voz é a mesma. O rosto é o mesmo. Aquilo que antes despertava desejo continua objetivamente ali. Mas alguma coisa desapareceu.

 

Não houve necessariamente traição, briga ou acontecimento espetacular. Houve percepção.

 

E percepção também encerra histórias.

 

Jung provavelmente nos lembraria de que ninguém deseja apenas a pessoa real. Desejamos também aquilo que projetamos nela. Preenchemos espaços vazios, inventamos coerência, construímos uma personagem com fragmentos verdadeiros. Até que a própria pessoa começa a ocupar os espaços que havíamos preenchido.

 

Às vezes gostamos do que encontramos. Às vezes não.

 

E existe uma questão ainda mais delicada: o limite.

 

O limite frequentemente aparece como sinônimo de repressão. Não é. Um limite saudável não diz: “Você não pode desejar isso.” Ele diz: “Eu não quero participar disso.”

 

São frases completamente diferentes.

 

A primeira tenta governar o desejo alheio. A segunda governa a própria presença.

 

Talvez uma das formas mais maduras de liberdade seja justamente permitir que o outro seja aquilo que é sem transformar essa permissão numa obrigação de permanecer ao lado dele. Você pode compreender alguém e partir. Pode respeitar e não desejar. Pode não condenar e ainda assim dizer não.

 

Não é julgamento. É discernimento.

 

Existe uma arrogância escondida na ideia de que toda diferença precisa ser superada. Algumas diferenças precisam apenas ser respeitadas. De longe. Porque nem toda incompatibilidade é um problema a ser resolvido. Algumas são informação. E informação serve justamente para decidir.

 

Talvez seja por isso que certas relações terminem sem que ninguém tenha feito nada exatamente errado. Duas pessoas chegaram suficientemente perto para descobrir alguma coisa verdadeira uma sobre a outra. E a verdade não produziu aproximação. Produziu distância.

 

Há dignidade em perceber isso antes de transformar curiosidade em obrigação, desejo em dependência ou tolerância em violência contra si mesmo. Porque existe um instante em que permanecer deixa de ser abertura. Passa a ser abandono de si.

 

O desejo pode ser vasto, contraditório, incômodo. Pode gostar do escuro. Pode brincar perigosamente perto das fronteiras. Pode até nos apresentar partes de nós mesmos que preferiríamos não conhecer.

 

Mas desejo não é contrato.

 

Às vezes duas pessoas se encontram justamente para chegar até determinada porta. Uma quer abrir. A outra olha para a maçaneta e percebe que não quer saber o que existe depois.

 

Então não abre.

 

Não acusa. Não precisa destruir aquilo que existiu antes daquela porta. Apenas reconhece:

 

Daqui eu não passo.

E vai embora.

Talvez isso também seja liberdade.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 22/08/2026
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