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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Queria vê-lo assim...

Não nu.

A nudez seria fácil demais.

 

Queria a renda negra

contra aquela pele de homem,

o desenho delicado atravessando as coxas,

o peito ainda coberto de pelos,

a barba escura,

as mãos grandes.

Era o contraste

que me tomava.

 

A brutalidade da carne

aceitando a delicadeza

sem perder um grama de força.

 

Eu olharia devagar.

 

Sem pudor de estar olhando.

Sem fingir distração.

Sem aquela educação inútil

que inventaram para mulheres

quando o desejo aparece nos olhos.

 

Eu queria olhar.

E queria que ele soubesse.

 

Porque havia qualquer coisa

de obsceno

na confiança daquele homem,

e não era a renda.

 

Era ele saber o que desejava

e colocar esse desejo

diante de mim.

Sem defesa.

— É assim que eu quero.

Pronto.

Isso me atravessava.

 

Porque um homem

pode oferecer o corpo

e continuar completamente

escondido.

 

Pode tirar a roupa,

abrir os braços,

mostrar cada centímetro de pele

e ainda não entregar nada.

 

Mas ele havia me dado

outra coisa...

O interdito.

 

Aquilo que escondia.

Aquilo que desejava em silêncio.

Aquilo que talvez tivesse imaginado sozinho

antes de ter coragem de dizer em voz alta.

 

E agora eu sabia.

Pior... Agora eu queria ver.

 

Queria assistir ao instante

em que ele deixasse de obedecer.

 

A renda subindo pela perna.

O tecido encontrando a pele.

A mão ajeitando aquilo

que ensinaram suas mãos apenas a retirar.

 

Eu ficaria em silêncio.

 

Há silêncios que são mais indecentes

do que qualquer palavra.

 

Meu olhar faria o resto.

Porque eu não queria feminilizá-lo.

Era justamente o homem

que me excitava naquela imagem.

 

Quanto mais homem,

mais perturbadora a renda.

 

Barba e renda.

Pelo e transparência.

Força e delicadeza.

O permitido encontrando o proibido

na mesma pele.

 

Era ali que o desejo mordia.

Não na peça.

Na contradição.

Na pequena violência

de vê-lo atravessar uma fronteira

que outros homens passariam a vida inteira

protegendo por medo.

 

E eu o desejaria mais por isso.

Não apesar disso.

Mais.

 

Porque há uma força quase animal

num homem que para de vigiar

a própria masculinidade.

 

Ele não precisava me provar nada.

 

Não precisava endurecer a voz.

Não precisava corrigir o gesto.

Não precisava explicar a fantasia.

 

Precisava apenas confiar.

 

E confiou.

 

Essa era a parte mais íntima.

Não o corpo diante de mim.

 

O segredo.

 

A possibilidade de eu feri-lo com aquilo

e a decisão de me entregar mesmo assim.

 

Então eu compreendi uma coisa

que nenhuma nudez havia me ensinado:

 

há homens que nos mostram a pele.

 

E há homens que, por um instante,

nos deixam entrar no lugar

onde o desejo ainda não aprendeu

a sentir vergonha.

 

Eu queria aquele lugar.

Queria o homem dentro dele.

Queria a renda.

Queria a barba.

Queria a contradição inteira

respirando diante dos meus olhos.

E queria que ele percebesse,

pela maneira como eu o olhava,

 

que naquele quarto

não havia absolutamente nada

para ser perdoado.

 

Havia desejo.

O dele.

O meu.

E entre os dois,

a deliciosa indecência

de não sentir vergonha.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 16/08/2026
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