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Queria vê-lo assim...Não nu. A nudez seria fácil demais.
Queria a renda negra contra aquela pele de homem, o desenho delicado atravessando as coxas, o peito ainda coberto de pelos, a barba escura, as mãos grandes. Era o contraste que me tomava.
A brutalidade da carne aceitando a delicadeza sem perder um grama de força.
Eu olharia devagar.
Sem pudor de estar olhando. Sem fingir distração. Sem aquela educação inútil que inventaram para mulheres quando o desejo aparece nos olhos.
Eu queria olhar. E queria que ele soubesse.
Porque havia qualquer coisa de obsceno na confiança daquele homem, e não era a renda.
Era ele saber o que desejava e colocar esse desejo diante de mim. Sem defesa. — É assim que eu quero. Pronto. Isso me atravessava.
Porque um homem pode oferecer o corpo e continuar completamente escondido.
Pode tirar a roupa, abrir os braços, mostrar cada centímetro de pele e ainda não entregar nada.
Mas ele havia me dado outra coisa... O interdito.
Aquilo que escondia. Aquilo que desejava em silêncio. Aquilo que talvez tivesse imaginado sozinho antes de ter coragem de dizer em voz alta.
E agora eu sabia. Pior... Agora eu queria ver.
Queria assistir ao instante em que ele deixasse de obedecer.
A renda subindo pela perna. O tecido encontrando a pele. A mão ajeitando aquilo que ensinaram suas mãos apenas a retirar.
Eu ficaria em silêncio.
Há silêncios que são mais indecentes do que qualquer palavra.
Meu olhar faria o resto. Porque eu não queria feminilizá-lo. Era justamente o homem que me excitava naquela imagem.
Quanto mais homem, mais perturbadora a renda.
Barba e renda. Pelo e transparência. Força e delicadeza. O permitido encontrando o proibido na mesma pele.
Era ali que o desejo mordia. Não na peça. Na contradição. Na pequena violência de vê-lo atravessar uma fronteira que outros homens passariam a vida inteira protegendo por medo.
E eu o desejaria mais por isso. Não apesar disso. Mais.
Porque há uma força quase animal num homem que para de vigiar a própria masculinidade.
Ele não precisava me provar nada.
Não precisava endurecer a voz. Não precisava corrigir o gesto. Não precisava explicar a fantasia.
Precisava apenas confiar.
E confiou.
Essa era a parte mais íntima. Não o corpo diante de mim.
O segredo.
A possibilidade de eu feri-lo com aquilo e a decisão de me entregar mesmo assim.
Então eu compreendi uma coisa que nenhuma nudez havia me ensinado:
há homens que nos mostram a pele.
E há homens que, por um instante, nos deixam entrar no lugar onde o desejo ainda não aprendeu a sentir vergonha.
Eu queria aquele lugar. Queria o homem dentro dele. Queria a renda. Queria a barba. Queria a contradição inteira respirando diante dos meus olhos. E queria que ele percebesse, pela maneira como eu o olhava,
que naquele quarto não havia absolutamente nada para ser perdoado.
Havia desejo. O dele. O meu. E entre os dois, a deliciosa indecência de não sentir vergonha. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 16/08/2026
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