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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


RENDA SOBRE CARNE

Vestiu a renda.

Negra. Fina. Justa.

E a renda soube onde ficar:

na curva da cintura,

na força das coxas,

no pelo, na pele, no homem.

 

Homem.

Era isso que ardia.

A barba continuava escura,

o peito continuava largo,

a mão continuava firme,

mas havia renda.

 

Renda sobre carne,

renda sobre pelo,

renda onde disseram: não.

E era bonito.

Bonito de um jeito sujo

para uma moral limpa demais.

 

Porque ensinaram que homem olha,

homem tira, homem rasga.

Homem deseja a renda

quando a renda veste outra pele.

Mas ele quis sentir.

 

Quis o tecido roçando o corpo,

a transparência desenhando a pele,

a delicadeza cometendo

seu pequeno desacato.

Vestiu. Devagar.

 

Primeiro uma perna.

Depois a outra.

Subiu a renda até onde o espelho

já não permitia mentira.

E olhou.

 

Não havia mulher.

Não havia disfarce.

Não havia outro homem.

Era ele. Inteiro.

Só que agora com o proibido

colado ao corpo.

 

E o corpo respondeu

com aquele silêncio quente

que antecede certas verdades.

A renda apertava.

O espelho devolvia.

A carne sabia.

 

E ele gostava.

 

Gostava porque era belo.

Gostava porque era seu.

Gostava porque durante anos

disseram que não podia.

 

Há proibições que passam tanto tempo

encostadas no desejo

que acabam aprendendo

o seu cheiro.

 

Por isso a renda queimava.

Não pelo tecido.

Pela fronteira.

Pelo gosto quase indecente

de atravessá-la sem pedir licença.

 

Olhei aquela imagem e compreendi:

não havia fragilidade alguma ali.

Havia um homem suficientemente homem

para não precisar provar.

 

Barba. Peito. Pelo. Coxa. Renda.

Tudo no mesmo corpo.

Tudo respirando no mesmo ritmo.

E quanto mais masculina era aquela carne,

mais insolente ficava a renda.

 

Era essa a sedução:

o encontro impossível acontecendo

diante do espelho.

A força vestindo delicadeza.

A pele recusando o código.

O desejo dizendo: eu quero.

 

E basta.

 

Porque existem desejos

que não nasceram para ser explicados.

Nasceram para arrepiar a pele,

para bagunçar a moral,

para fazer alguém olhar duas vezes...

 

e, na segunda,

já não saber

se está julgando

 

ou desejando.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 16/08/2026
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