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RENDA SOBRE CARNEVestiu a renda. Negra. Fina. Justa. E a renda soube onde ficar: na curva da cintura, na força das coxas, no pelo, na pele, no homem.
Homem. Era isso que ardia. A barba continuava escura, o peito continuava largo, a mão continuava firme, mas havia renda.
Renda sobre carne, renda sobre pelo, renda onde disseram: não. E era bonito. Bonito de um jeito sujo para uma moral limpa demais.
Porque ensinaram que homem olha, homem tira, homem rasga. Homem deseja a renda quando a renda veste outra pele. Mas ele quis sentir.
Quis o tecido roçando o corpo, a transparência desenhando a pele, a delicadeza cometendo seu pequeno desacato. Vestiu. Devagar.
Primeiro uma perna. Depois a outra. Subiu a renda até onde o espelho já não permitia mentira. E olhou.
Não havia mulher. Não havia disfarce. Não havia outro homem. Era ele. Inteiro. Só que agora com o proibido colado ao corpo.
E o corpo respondeu com aquele silêncio quente que antecede certas verdades. A renda apertava. O espelho devolvia. A carne sabia.
E ele gostava.
Gostava porque era belo. Gostava porque era seu. Gostava porque durante anos disseram que não podia.
Há proibições que passam tanto tempo encostadas no desejo que acabam aprendendo o seu cheiro.
Por isso a renda queimava. Não pelo tecido. Pela fronteira. Pelo gosto quase indecente de atravessá-la sem pedir licença.
Olhei aquela imagem e compreendi: não havia fragilidade alguma ali. Havia um homem suficientemente homem para não precisar provar.
Barba. Peito. Pelo. Coxa. Renda. Tudo no mesmo corpo. Tudo respirando no mesmo ritmo. E quanto mais masculina era aquela carne, mais insolente ficava a renda.
Era essa a sedução: o encontro impossível acontecendo diante do espelho. A força vestindo delicadeza. A pele recusando o código. O desejo dizendo: eu quero.
E basta.
Porque existem desejos que não nasceram para ser explicados. Nasceram para arrepiar a pele, para bagunçar a moral, para fazer alguém olhar duas vezes...
e, na segunda, já não saber se está julgando
ou desejando. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 16/08/2026
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