google.com, pub-2061508496645724, DIRECT, f08c47fec0942fa0


O que exatamente um pedaço de renda ameaça em um homem?
crônica reflexiva de matriz filosófica
A conversa começou com um desejo. Nada dramático, nenhuma grande confissão. Apenas um homem me dizendo o que gostaria de vestir. Renda. Preta, de preferência. E enquanto ele falava, eu tentava construir mentalmente aquela imagem: a renda sobre um corpo masculino, barba, pelos, pernas de homem, mãos de homem... nada precisaria desaparecer para que aquela delicadeza pudesse existir ali.
Foi exatamente isso que me interessou. Não a lingerie em si, mas tudo o que ela poderia provocar quando colocada naquele corpo.
Porque basta imaginar um homem usando determinadas peças para começar uma espécie de interrogatório que ninguém faria se estivéssemos falando de uma mulher.
— Mas ele gosta de mulher? — Isso significa alguma coisa sobre a sexualidade dele? — Ele quer parecer feminino? — Continua sendo um homem másculo?
Olha que coisa curiosa... de repente, um pedaço de renda ganhou poderes extraordinários.
Uma mulher pode vestir uma camisa masculina, usar terno, gravata, cueca boxer, coturno, perfume masculino. Pode entrar numa loja e comprar tudo isso sem precisar explicar a própria sexualidade ao vendedor. Mas coloque renda, cinta-liga ou meia-calça em um homem e imediatamente queremos saber o que ele é.
Talvez tenha sido aí que aquela conversa começou a ficar realmente interessante para mim.
Porque existia uma fronteira. E certas fronteiras têm uma relação muito íntima com o desejo.
A gente também deseja aquilo que aprendeu que não deveria desejar. O proibido não fica necessariamente do lado de fora do desejo... às vezes entra nele, participa, alimenta, dá forma. Talvez seja justamente por isso que algumas fantasias percam parte da força quando deixam de ser proibidas.
Então aquela renda já não era apenas renda.
Carregava feminino, masculino, vergonha, segredo, curiosidade, excitação... carregava a possibilidade de alguém olhar. Talvez carregasse principalmente aquilo que ninguém deveria saber.
E comecei a pensar em outra coisa: o erotismo não mora necessariamente no corpo nu. Muitas vezes está justamente no que colocamos sobre ele. Na meia, na renda, na transparência, naquilo que cobre sem realmente esconder. Há uma contradição deliciosa nisso: vestimos alguma coisa justamente para tornar o corpo ainda mais visível.
Só que, naquele caso, havia outra camada.
Era um homem.
E homens ainda recebem muito cedo um pequeno manual invisível sobre aquilo que podem desejar sem colocar a própria masculinidade sob suspeita.
Pode isso. Isso não.
Pode desejar aquela mulher. Pode tocar daquele jeito. Pode usar determinada roupa. Aquela outra, não. Pode até ter fetiche... desde que seja um fetiche suficientemente reconhecível como masculino.
Mas quem escreveu esse manual?
E por que seguimos obedecendo?
Foi nesse ponto que percebi que eu não queria descobrir o que aquela fantasia dizia sobre ele. Queria entender o que nossa reação diante daquela fantasia dizia sobre nós.
Por que precisamos tanto classificar o desejo alheio?
Por que diante de uma coisa que não compreendemos perguntamos primeiro “o que ele é?” e quase nunca “o que ele sente quando faz isso?”
São perguntas muito diferentes.
A primeira procura uma gaveta. A segunda procura uma pessoa.
Talvez ele não quisesse parecer uma mulher. Talvez quisesse apenas sentir a renda na pele. Talvez gostasse da imagem no espelho. Da inversão. Da delicadeza sobre um corpo masculino. Talvez houvesse excitação justamente em permanecer homem enquanto vestia alguma coisa que disseram durante toda a vida que um homem não deveria vestir.
Ou talvez fosse simplesmente gostoso.
E pronto.
Por que o desejo teria sempre que apresentar uma justificativa intelectualmente aceitável para existir?
Nem todo desejo precisa prestar depoimento.
Foi aí que aquela conversa deixou de ser, para mim, uma conversa sobre lingerie. Passou a ser sobre interdito. Sobre o estranho prazer que pode existir em atravessar uma linha sem necessariamente abandonar quem se é.
E fiquei com uma pergunta que ainda acho mais interessante do que qualquer resposta que eu pudesse dar:
se aquele homem continuava com o mesmo corpo, a mesma voz, a mesma história, o mesmo desejo e continuava se reconhecendo como homem depois de vestir renda...
— o que exatamente aquela renda ameaçava?
Talvez nada nele.
Talvez ameaçasse apenas a ideia que os outros haviam construído sobre como um homem deveria ser. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 16/08/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|