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HÁ HOMENS QUE SÓ FICAM NUS QUANDO ESTÃO VESTIDOSTem uma coisa sobre os homens que sempre me intrigou...
Desde muito cedo eles recebem um manual que ninguém admite ter escrito. Um conjunto de regras meio absurdas sobre como um homem deve andar, falar, desejar, tocar, sentir.
Pode isso...Não pode aquilo. Chorar pouco... Demonstrar menos ainda.
Gostar de mulher, claro, mas gostar do jeito certo. Desejar também tem regra. Prazer, então, parece que vem com manual de instrução.
E o mais curioso é que muitos passam a vida inteira obedecendo.
Até que um dia não obedecem.
E não precisa acontecer nada extraordinário.
Às vezes é só uma peça de roupa.
Uma renda preta ou cetim... Uma meia com cinta liga ou um body.
De repente, aquele corpo que sempre esteve perfeitamente enquadrado naquilo que chamamos de masculino experimenta alguma coisa que, segundo o tal manual, não deveria experimentar.
E gosta... Pronto! Agora temos um problema.
Mas problema para quem?
Porque o homem continua sendo exatamente o mesmo.
A barba continua no rosto. Os pelos continuam no peito. A voz não muda. A história não muda. A masculinidade não evapora misteriosamente porque uma renda encostou na pele.
Então por que isso ainda provoca tanto incômodo?
Talvez porque seja muito mais fácil lidar com um homem previsível.
O homem que cumpre o papel esperado não nos obriga a pensar.
Já aquele que diz “eu gosto disso” desmonta alguma coisa.
Não necessariamente nele. Em nós.
E eu acho curioso como tentamos imediatamente encontrar uma explicação.
Será que ele é isso? Será que ele é aquilo? Será que significa alguma coisa?
Talvez signifique apenas que ele gosta.
Parece pouco, eu sei. Nós adoramos complicar o desejo.
Queremos transformar cada fantasia em diagnóstico, cada prazer em identidade, cada comportamento em uma explicação sobre quem aquela pessoa é.
Mas talvez algumas coisas não precisem de tribunal.
Talvez precisem apenas de liberdade.
E é aí que Georges Bataille começa a ficar interessante.
Porque Bataille entendeu que nós temos uma relação muito particular com aquilo que é proibido.
O limite não serve apenas para impedir.
Às vezes ele provoca.
Basta alguém dizer “isso não pode” para nascer aquela pergunta quase inevitável:
Por quê? E depois vem outra: E se puder?
É nesse pequeno espaço que mora uma parte enorme do desejo humano.
Não estou falando de violência. Não estou falando de ultrapassar o limite do outro. Isso é outra coisa.
Estou falando daqueles limites que colocaram dentro da nossa cabeça.
Aquilo que aprendemos a desejar escondido.
Aquilo que fazemos e depois olhamos para os lados.
Aquilo que talvez tenhamos vontade de contar para alguém, mas não contamos porque existe uma pergunta muito mais assustadora por trás:
Se você soubesse disso sobre mim, ainda me olharia da mesma maneira?
Para mim, essa pergunta é muito mais íntima do que tirar a roupa.
Qualquer pessoa pode ficar nua.
Nudez é fácil... Difícil é dizer: - Eu gosto disso... Ou - Tenho vontade disso... Já fiz isso.! Ou Quero experimentar isso com você e permanecer ali... Sem saber o que o outro vai fazer com aquela informação.
Vai rir? Vai julgar? Vai se afastar? Vai tentar colocar um nome? Ou simplesmente vai olhar e dizer: Tudo bem. Talvez até: Gostei.
Aí muda tudo.
Porque existe uma diferença enorme entre alguém aceitar o nosso corpo e alguém aceitar aquilo que existe dentro dele.
É por isso que eu penso que há homens que só ficam verdadeiramente nus quando estão vestidos.
Pode ser de renda. Pode ser de cetim.
Pode ser com uma peça que ninguém imaginaria encontrar naquele corpo barbudo, peludo, masculino.
Não importa.
O que interessa é o momento em que ele deixa de representar.
Quando já não precisa provar que é homem.
Quando não precisa explicar o próprio desejo.
Quando pode simplesmente existir dentro daquela contradição sem pedir desculpas.
E talvez a liberdade seja justamente isso.
Não precisar escolher entre força e delicadeza.
Entre masculino e sensível. Entre controle e entrega.
Entre aquilo que esperam de nós e aquilo que, secretamente, nos dá prazer.
No fim das contas, talvez a verdadeira nudez nunca tenha tido muita coisa a ver com roupa.
Há gente que tira tudo e continua completamente escondida.
E há quem permaneça vestido, olhe para alguém e diga:
“É isso. Isso também sou eu.”
Quando alguém consegue dizer isso sem medo...
a roupa já não importa.
Porque não existe nudez maior do que ser visto por inteiro e, ainda assim, não sentir vontade de se esconder. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 14/08/2026
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