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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


(Envelhecer) Quando a solitude deixa de ser uma escolha...

 

A minha geração aprendeu a se virar.

 

Talvez por necessidade, talvez porque ninguém tivesse muito tempo para perguntar como estávamos nos sentindo. Trabalhamos, construímos carreira, terminamos relações, começamos outras, criamos nossa própria casa, pagamos nossas contas e fomos aprendendo que conseguir ficar sozinho também podia ser uma conquista.

 

Depois veio uma palavra bonita para algo que muitos de nós já praticávamos sem saber o nome: solitude.

 

E eu gostei dela.

 

Gostei da ideia de que estar só não significava necessariamente estar abandonado. Que uma mulher poderia morar sozinha, viajar sozinha, jantar sozinha, dormir atravessada na cama, decidir o próprio horário e não precisar preencher cada silêncio com alguém.

 

Para a minha geração, principalmente para muitas mulheres, isso não foi pouca coisa.

 

Houve um tempo em que sair da casa dos pais significava, quase obrigatoriamente, entrar na casa de um marido. Ter a própria chave, o próprio dinheiro e a própria rotina virou uma forma concreta de liberdade.

 

Só que existe uma pergunta sobre envelhecer que começa a me incomodar.

 

O que acontece com a solitude quando desaparece a capacidade de escolher?

 

Porque podemos planejar muita coisa. Previdência, patrimônio, alimentação, atividade física, moradia, testamento, seguro, viagem. Podemos cuidar do corpo e tentar chegar aos setenta ou oitenta anos ainda dirigindo, trabalhando, lendo, discutindo política e mandando todo mundo cuidar da própria vida.

 

Mas há coisas que não obedecem ao nosso planejamento.

 

Um AVC pode mudar uma vida em minutos.

 

Alzheimer e outras demências podem retirar a autonomia aos poucos, justamente de alguém que passou a vida inteira lutando para conquistá-la.

 

E existe algo particularmente duro nessa possibilidade.

 

Você pode passar quarenta anos construindo independência e, em algum momento, não conseguir mais decidir onde morar, o que comer, que remédio tomar ou quem pode entrar na sua casa.

 

Pode chegar um dia em que a chave que simbolizou sua liberdade esteja na mão de outra pessoa.

 

Então comecei a pensar que talvez tenhamos confundido independência com autossuficiência.

 

Não são a mesma coisa.

 

Posso amar minha casa silenciosa e ainda assim construir vínculos. Posso gostar de viajar sozinha e ter alguém que saiba onde estou. Posso não querer casamento e ainda formar uma rede de cuidado. Posso não ter filhos e organizar juridicamente quem poderá tomar decisões por mim se um dia eu não puder.

 

Isso não diminui minha liberdade.

 

Talvez seja justamente uma maneira adulta de protegê-la.

 

Porque existe uma conversa que a nossa geração precisa começar a ter enquanto ainda consegue conversar.

 

Quem decide por mim se eu não puder decidir?

 

Quem conhece minhas vontades?

Quem terá coragem de respeitá-las?

 

Quem perceberá se estou sendo maltratada, negligenciada ou simplesmente esquecida?

 

Quem vai administrar aquilo que passei a vida construindo?

 

E quem vai saber quem eu fui quando eu mesma talvez já não consiga contar?

 

Essa última pergunta me atravessa de um jeito diferente.

 

Porque dinheiro paga cuidado, mas não necessariamente produz vínculo. Filho não é garantia. Casamento também não. Família numerosa muito menos.

 

Talvez o patrimônio mais difícil de construir para a velhice seja uma rede de pessoas em quem exista confiança suficiente para permitir vulnerabilidade.

 

A Geração X passou boa parte da vida aprendendo a dizer: “eu consigo sozinha”.

 

Foi importante.

 

Foi libertador.

 

Mas talvez esteja chegando a hora de acrescentar outra frase ao nosso repertório:

 

“Se um dia eu não conseguir, eu preciso saber quem estará lá.”

 

Porque solitude é liberdade quando podemos abrir a porta e sair.

 

Quando já não conseguimos abrir a porta, a conversa passa a ser outra.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 13/08/2026
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