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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Quando o silêncio não é ghosting

 

Existe uma mania contemporânea de dar nome a toda ausência.

 

Se alguém desaparece, é ghosting... Se demora a responder, alguma coisa aconteceu... Se a conversa esfria, alguém perdeu o interesse... Se aquilo que parecia intenso não continua, começa a investigação,  o que foi dito, o que deixou de ser dito, qual mensagem ficou sem resposta, em que momento alguma coisa mudou.

 

Talvez porque o silêncio nos incomode mais quando não sabemos interpretá-lo. Mas nem todo silêncio é ghosting.

 

Há encontros que acontecem com verdade e, ainda assim, não foram feitos para continuar... Há conversas sinceras, desejos legítimos, intimidades intensas e até planos que nasceram honestamente naquele instante, mas que não sobreviveram ao movimento da vida.

 

Isso não torna necessariamente falso aquilo que aconteceu...

 

Talvez esse seja um dos equívocos mais difíceis de aceitar que é aginar que, se alguém não permaneceu, então alguma coisa anterior também precisa ter sido mentira.

 

Não precisa.

 

Uma pessoa pode desejar outra profundamente numa terça-feira e seguir a própria vida na sexta. Pode sentir vontade de repetir, imaginar uma viagem, fazer planos, dizer coisas bonitas e estar sendo absolutamente sincera enquanto diz tudo aquilo. O problema começa quando transformamos a verdade de um momento em promessa de permanência.

 

São coisas diferentes.

 

Ghosting pressupõe ruptura. Existe uma relação em movimento, uma comunicação minimamente estabelecida, uma expectativa concreta de continuidade e, de repente, uma das pessoas simplesmente desaparece. Há perguntas sem resposta, tentativas de contato ignoradas e um corte que não foi comunicado.

 

Silêncio é outra coisa... Às vezes ninguém perguntou... Ninguém prometeu.

 

Ninguém encerrou oficialmente porque, talvez, também nunca tenha existido algo que exigisse uma cerimônia de encerramento.

 

A conversa apenas diminuiu. Os dias ocuparam os espaços.

 

A vida seguiu...

 

E duas pessoas que estiveram muito próximas por algumas horas, dias ou meses passaram a ocupar lugares diferentes uma na vida da outra.

 

Pode doer? Claro.

 

Principalmente quando uma delas gostaria de ter conversado mais, encontrado novamente, conhecido outras camadas daquela pessoa ou simplesmente repetido algo que foi bom.

 

Mas desejar continuidade não cria, por si só, um compromisso de continuidade.

 

E existe uma diferença importante entre reconhecer isso e aceitar qualquer comportamento em nome de uma suposta liberdade afetiva. Responsabilidade afetiva continua existindo. Quando há compromisso, expectativa construída conjuntamente ou perguntas diretas, silêncio pode ser uma forma bastante covarde de responder.

 

Mas também existe responsabilidade sobre as próprias expectativas.

 

Nem todo afastamento precisa de um culpado.

 

Nem toda história precisa terminar mal para terminar.

 

Nem toda pessoa que não ficou estava brincando enquanto esteve.

 

Talvez algumas relações tenham justamente essa natureza: acontecer.

 

Sem posse.

Sem garantia.

Sem contrato de permanência.

 

E talvez maturidade afetiva tenha menos a ver com aprender a não sentir e mais com aprender a distinguir aquilo que realmente aconteceu daquilo que esperávamos que acontecesse depois.

 

Porque existe uma pergunta muito mais útil do que passar meses tentando decifrar o silêncio de alguém:

 

Havia alguma coisa esperando resposta ou apenas alguma coisa em mim esperando continuidade?

 

A diferença parece pequena.

 

Não é.

 

Uma fala de algo que o outro deixou de fazer.

 

A outra fala de um desejo que era nosso.

 

E quando conseguimos separar as duas coisas, talvez o silêncio deixe de parecer um enigma.

 

Algumas pessoas não desaparecem.

 

Elas apenas não continuam.

 

E nem sempre precisamos transformar isso em abandono para reconhecer que gostaríamos que tivessem ficado.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 13/08/2026
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