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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A gente está perdendo pessoas para o silêncio...

 

Tem uma coisa nos relacionamentos de hoje que eu sinceramente não consigo entender. Duas pessoas podem estar com saudade uma da outra e, ainda assim, passar dias sem se procurar. Uma olha o celular esperando a mensagem. A outra provavelmente faz a mesma coisa. As duas querem conversar, talvez até se encontrar, mas existe uma espécie de disputa silenciosa para saber quem vai ceder primeiro.

 

E eu fico pensando: ceder o quê?

 

Desde quando dizer “estou com saudade” virou perda de posição?

 

A gente criou tanta regra para não parecer disponível que começou a parecer desinteressado. Não manda mensagem porque já mandou da última vez. Não chama para sair porque quer ver se o outro chama. Não pergunta o que aconteceu porque não quer parecer carente. Não diz que ficou magoado porque o outro “deveria perceber”. E assim duas pessoas adultas, perfeitamente capazes de conversar, começam a administrar sentimento como se estivessem negociando vantagem.

 

Eu tenho dificuldade com isso.

 

Se você quer me ver, me chama. Se sentiu saudade, fala. Se alguma coisa que eu fiz te incomodou, me conta. Eu posso até não concordar, mas pelo menos vou saber o que aconteceu. O silêncio, ao contrário, me obriga a construir respostas para perguntas que ninguém teve coragem de fazer.

 

E talvez seja aí que muita relação comece a adoecer sem que tenha acontecido absolutamente nada grave.

 

Foi uma mensagem que não veio. Depois outra que também não. Uma resposta mais curta. Um “vou esperar ele procurar”. Do outro lado, talvez exista exatamente o mesmo pensamento. E o que poderia ter sido resolvido com um “ei, está tudo bem?” ganha tamanho, interpretação, orgulho e distância.

 

Tem também essa história de que demonstrar demais assusta.

 

Pode assustar. Claro que pode.

Mas esconder demais também.

 

Aliás, esconder demais confunde. E eu acho que estamos confundindo mistério com ausência, independência com indiferença e maturidade emocional com essa capacidade quase performática de fingir que ninguém nos faz falta.

 

Faz.

 

Tem gente que faz falta.

 

Tem conversa que a gente gostaria de continuar. Tem abraço que dá vontade de repetir. Tem pessoa que aparece na cabeça no meio do trabalho sem pedir licença. Tem mensagem que a gente escreve, apaga, escreve de novo e no fim não manda porque resolveu obedecer a alguma regra idiota sobre quem procurou quem por último.

 

Eu já fiz isso.

 

Já esperei uma mensagem que eu mesma poderia ter enviado.

 

Já fiquei em silêncio querendo que alguém entendesse exatamente o que aquele silêncio queria dizer. Como se o outro tivesse obrigação de conhecer uma linguagem que existia somente dentro de mim.

 

Hoje eu vejo o desperdício que existe nisso.

 

Não estou defendendo correr atrás de quem não quer ficar. Isso é outra coisa. Reciprocidade continua sendo necessária. Insistir diante de desinteresse explícito não é demonstração de amor. Mas existe uma diferença enorme entre preservar dignidade e transformar afeto numa disputa de resistência.

 

Se eu gosto de alguém, não deveria precisar fingir que gosto menos para ser mais interessante.

 

E se alguém gosta de mim, eu também não quero que essa pessoa passe semanas calculando o momento correto de demonstrar.

 

Relacionamento já é difícil quando duas pessoas falam a verdade. Imagine quando as duas resolvem esconder justamente a parte que poderia aproximá-las.

 

Às vezes ninguém foi embora.

 

Ninguém deixou de gostar.

Ninguém encontrou outra pessoa.

Ninguém decidiu terminar coisa nenhuma.

 

Um ficou esperando o outro.

E o outro também.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 11/08/2026
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