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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Eles colocaram o casamento na vitrine e depois, se espantaram com quem parou para a olhar...

Post que deu origem ao texto.

 

Eu li essa história da mulher que descobriu, depois de 21 anos de casamento, que o marido mantinha uma traição virtual havia anos e fiquei pensando numa coisa que pode até incomodar algumas pessoas "eu não acredito que fidelidade seja deixar de desejar outras pessoas. Não acredito que um casamento, por mais feliz que seja, desligue curiosidade, vaidade, atração ou aquela sensação boa de perceber que alguém ainda olha para você. Ser casado não tira ninguém da condição humana. E talvez a gente tenha criado uma expectativa meio infantil de que amar alguém significa nunca mais sentir absolutamente nada por ninguém."

 

Só que sentir e fazer são coisas diferentes... E é nessa distância, que às vezes é muito pequena, que cada um mostra como cuida do compromisso que assumiu.

 

O que mudou muito nos últimos anos foi o tamanho da oportunidade... E isso, para mim, ainda é pouco discutido.

Antes da internet, para uma pessoa chegar até o seu marido ou até a sua mulher, precisava existir algum tipo de acesso. Trabalho, amigos em comum, uma festa, uma viagem, o vizinho, alguém que frequentava os mesmos lugares. Claro que traição sempre existiu, e bastante. Ninguém precisa romantizar casamento antigo porque nossas avós também choraram coisas que muitas vezes nem podiam contar. Mas havia uma limitação física. Hoje não existe mais.

 

Hoje uma pessoa pode entrar na sua casa sem saber onde você mora.

 

Pode acompanhar seu casamento durante anos sem nunca ter sentado à sua mesa. Sabe onde vocês viajaram, quando fizeram aniversário de casamento, o restaurante onde jantaram, o presente que você ganhou, quando brigaram porque você parou de postar, quando fizeram as pazes porque a fotografia voltou... Dependendo do quanto você mostra, um desconhecido sabe até qual lado da cama você dorme.

 

E fomos nós que colocamos isso ali.

 

Eu também publico minha vida, então não estou escrevendo do lugar confortável de quem aponta o dedo para os outros. Estou dentro desse tempo. Gosto de ser vista, gosto de escrever, gosto de dividir coisas. Só que comecei a perceber que existe uma ingenuidade nessa história toda... "a gente publica para uma multidão e imagina que está falando apenas com quem gosta da gente."

 

Não está.

 

Tem gente que olha e acha bonito. Tem gente que passa direto. Tem quem queira ter a vida que você mostra. E tem, sim, quem olhe para o homem ou para a mulher que aparece ao seu lado e pense: será que é tudo isso mesmo?

 

Isso existe. Sempre existiu. A diferença é que agora essa pessoa não precisa esperar encontrar vocês em algum lugar. Ela manda um emoji.

 

E eu acho impressionante como coisas enormes podem começar com coisas absolutamente ridículas. Uma curtida repetida. Uma reação. Um comentário aparentemente inocente... Um “sumida”... Uma conversa que não tinha nada demais até começar a ter. Ninguém acorda numa terça-feira e anuncia para si mesmo que a partir daquele momento vai construir uma relação paralela durante oito anos. As coisas vão ganhando permissão. Primeiro dentro da cabeça, depois dentro da conversa e, quando se percebe, existe uma intimidade que o companheiro nem sabe que precisa disputar.

 

É por isso que também não consigo colocar toda traição na mesma gaveta.

 

Uma pessoa sentir atração por outra não me escandaliza. Uma pessoa casada receber uma cantada e gostar também não. Eu seria hipócrita se dissesse que vaidade desaparece porque existe uma aliança no dedo. Agora, manter conversa escondida, criar intimidade, apagar mensagem, esperar o outro ficar sozinho para falar, alimentar desejo sabendo exatamente onde aquilo está chegando... aí já existe escolha. E quando isso dura anos, não dá nem para chamar de deslize. Deslize é uma coisa que acontece. Anos exigem administração.

 

Horário. Mentira. Memória. Senha. Versão.

 

Talvez seja isso que mais tenha me chamado atenção nessa mulher. Não foram somente os 21 anos de casamento. Foi imaginar o que acontece com a cabeça de alguém quando descobre que uma parte da própria história estava sendo vivida com informações incompletas.

 

Porque ela não vai sofrer apenas pelo que descobriu agora.

 

Ela vai voltar... Vai pegar uma fotografia de oito anos atrás e olhar diferente. Vai lembrar daquela viagem. Daquele período em que ele estava distante. De uma discussão que parecia não ter motivo. De uma noite em que ele ficou muito tempo no celular. Vai tentar localizar quando começou. E talvez descubra que algumas lembranças que eram bonitas continuam bonitas para ela, mas agora carregam uma informação que ela não tinha quando viveu aquilo.

 

Eu acho isso particularmente cruel.

Traição prolongada mexe até no passado, porque obriga quem descobriu a revisitar uma vida que já estava arquivada dentro de si.

 

E tem outra coisa que me incomoda muito nessa discussão "a ideia de que para evitar traição precisamos vigiar."

 

Eu não quero precisar conhecer senha para saber se alguém me respeita... Não quero conferir horário, localização, curtida, seguidor novo, quem comentou, quem mandou mensagem... Que inferno de relacionamento seria esse? Todo mundo precisa continuar tendo algum espaço que seja seu. Inclusive dentro de um casamento.

 

Só que espaço não é vida paralela.

Privacidade não é esconderijo.

 

E liberdade não significa fazer qualquer coisa e depois chamar de fraqueza humana quando for descoberto.

Talvez por isso eu tenha tanta resistência quando ouço “quem ama não trai” como se essa frase resolvesse tudo. Tem gente que ama e trai. Tem gente que ama e mente. Tem gente que ama e destrói. O amor nunca foi certificado de caráter e muito menos garantia de maturidade. Pessoas são muito mais contraditórias do que as frases que inventamos para explicar relacionamentos.

 

A internet só tornou essas contradições mais acessíveis. Deu endereço ao desejo, velocidade à curiosidade e, principalmente, retorno imediato à vaidade. Você não precisa mais imaginar se ainda seria desejado por alguém. Basta postar uma fotografia e esperar alguns minutos.

 

Talvez o nosso erro tenha sido acreditar que conseguiríamos colocar tanta intimidade em exposição sem alterar absolutamente nada dentro dela.

 

Porque agora o casamento tem plateia. O desejo tem direct. O passado reaparece com um “oi, quanto tempo”. O desconhecido chega sem bater. E aquela pessoa que viu durante meses você dizendo o quanto seu companheiro é maravilhoso pode, numa noite qualquer, resolver perguntar isso diretamente a ele.

 

Ela pode perguntar.

O que ele vai responder já não é problema da internet.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 11/08/2026
Alterado em 11/08/2026
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