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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A estrela que ficou sozinha...

Post que deu origem a essa crônica.

 

Tem uma estrela na bandeira do Brasil que representa o Pará e que, curiosamente, aparece sozinha, acima das demais.

 

Existe uma explicação histórica para isso, claro, mas eu gosto de olhar para esse símbolo de outro jeito. Gosto de pensar que aquela estrela está ali quase como um chamado de atenção. Não porque o Pará precise se colocar acima dos outros estados, mas porque há alguma coisa neste território que insiste em pedir para ser vista.

 

Talvez isso fique mais evidente em outubro. Quem vive no Pará sabe que outubro muda a cidade. E eu não estou falando apenas de religião. O Círio de Nazaré tem origem católica, tem toda uma tradição litúrgica, histórica e cultural, mas o que acontece em Belém durante esse período ultrapassa a estrutura religiosa.

 

A cidade entra numa espécie de estado coletivo de fé, memória, promessa, agradecimento e esperança. E o mais interessante é que não são apenas os católicos que participam disso. Há evangélicos nas janelas, espíritas emocionados, pessoas sem religião acompanhando a passagem da berlinda e outras tantas que simplesmente respeitam aquilo que estão vendo.

 

Existe alguma coisa muito humana em testemunhar a fé do outro sem precisar transformá-la na sua. Às vezes nós temos uma necessidade enorme de classificar tudo, de concordar ou discordar, de definir se aquela crença faz sentido ou não. Em outubro, pelo menos por alguns dias, Belém parece suspender isso. Você olha para alguém andando quilômetros descalço, pagando uma promessa, carregando uma fotografia, pedindo pela mãe, pelo filho, pela cura, pelo emprego, pela própria vida, e percebe que naquele momento a explicação teológica é quase secundária.

O que importa é que aquela pessoa acredita, e existe uma beleza muito particular em ver alguém se entregar de forma tão inteira a alguma coisa em que confia.

 

Mas o Círio não é apenas espiritualidade. Ele é também economia, trabalho, turismo, circulação de renda, gastronomia, artesanato, hotelaria, transporte, comércio e geração de oportunidade. Quando milhões de pessoas chegam a Belém, toda uma cadeia se movimenta. O restaurante vende mais, o hotel lota, o motorista trabalha, o artesão produz, a cozinheira recebe encomendas, o vendedor ocupa a rua, o mercado abastece as casas. E isso diz muito sobre uma coisa que ainda tratamos de forma insuficiente: cultura também é desenvolvimento.

 

Durante muito tempo a cultura amazônica foi vista de fora como curiosidade, exotismo ou folclore. Só que a nossa cultura é muito mais do que isso. Ela é um ativo econômico, social e territorial. Ela produz renda, gera identidade, movimenta negócios e cria uma relação muito particular entre as pessoas e o lugar onde vivem. Talvez essa seja uma das grandes diferenças da região Norte. Aqui, a cultura não aparece apenas em uma festa específica ou em um calendário turístico. Ela está na rotina.

 

Está no almoço, na farinha, no açaí, no tucupi, na conversa, no jeito de falar, na chuva da tarde, na relação com o rio, na música, na aparelhagem, na feira, na forma como a gente recebe alguém em casa. Quem vem de fora percebe isso muito rapidamente. Percebe que aqui a cultura não está guardada num museu para ser visitada. Ela está acontecendo o tempo todo.

 

E por isso eu acho curioso que tantos estrangeiros conheçam melhor a Amazônia do que muitos brasileiros. Há pessoas que atravessam oceanos para conhecer a floresta, os rios, a culinária, as comunidades e as cidades amazônicas, enquanto muitos brasileiros conhecem vários países, mas nunca vieram ao Pará. Conhecem Paris, Lisboa, Buenos Aires, Miami, mas não conhecem Belém, Santarém, Alter do Chão, Marajó ou uma comunidade ribeirinha. Depois falam da Amazônia como se conhecessem.

 

Não conhecem.

 

Conhecem uma ideia da Amazônia.

 

A Amazônia verdadeira é muito mais complexa. Ela é urbana, rural, ancestral, tecnológica, pobre, rica, religiosa, profana, barulhenta, silenciosa. Tem problemas graves de saneamento, mobilidade, infraestrutura, desigualdade e acesso a oportunidades. Não precisamos romantizar nenhuma dessas dificuldades para reconhecer a força da nossa cultura. Pelo contrário. Desenvolvimento sério passa justamente por tratar cultura, turismo, gastronomia, economia criativa, patrimônio, bioeconomia e conhecimento tradicional como setores capazes de gerar valor, renda e permanência.

 

Talvez por isso eu volte sempre àquela estrela na bandeira. Sozinha, acima das outras. Eu sei que não foi colocada ali para representar tudo isso. Mas a crônica permite esse tipo de liberdade. Então eu gosto de imaginar que ela continua ali lembrando ao restante do país que existe uma parte do Brasil que ainda precisa ser melhor conhecida pelo próprio Brasil.

 

E talvez outubro seja o momento em que essa estrela brilhe um pouco mais. Porque é um mês em que o Pará parece lembrar que toda dificuldade, de algum modo, obriga a gente a mudar o olhar. A perda muda. A fé muda. A experiência com o outro muda. Conhecer uma cultura diferente muda. Existem momentos em que o que já sabemos não é suficiente, e a gente precisa permitir que alguma coisa nova entre.

 

Outubro faz isso com Belém. A cidade inteira parece acreditar novamente em alguma coisa. Cada pessoa à sua maneira, com sua fé, sua história, sua dor e sua esperança.

 

Talvez aquela estrela esteja sozinha exatamente para isso.

 

Para ser vista.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 11/08/2026
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